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Ilka Lemos
Contra a submissão
O desenho está no berço da maioria das produções plásticas de qualidade. É no hábito de saber ver e de conseguir levar com expressividade para outros suportes, como o papel ou tela, que um trabalho mostra a sua maturidade e propõe uma relação com o mundo que escape do lugar-comum. O trabalho da artista plástica Ilka Lemos encaixa bem nessa descrição. Ela parte do modelo vivo, leva a imagem para numerosos desenhos e, depois, os cristaliza em telas com tinta acrílica. A partir daí, a passagem para o tridimensional pode ser feita em placas recortadas de acrílico. Essa mulher que surge nos desenhos não é uma figura escolhida ao acaso, mas Lilith, referida na Cabala judaica como a primeira mulher do bíblico Adão. Acusada também de ser uma manifestação associada à serpente que levou Eva a comer o fruto proibido, foi expulsa do Jardim do Éden e se tornou mãe dos demônios. Por entender que havia sido criada por Deus com a mesma matéria prima, ela teria se rebelado, não aceitando ficar sempre embaixo durante as relações sexuais. Desse modo, contesta o sistema patriarcal e, acima de tudo,seja no desenho, na pintura ou na escultura, impõe-se como um alerta contra qualquer tipo de autoritarismo e submissão.
Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).
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