Conte
Inquietação em azul
O mar serve de inspiração para
numerosos poetas e artistas plásticos, mas as cores que o mar
evoca apenas são acessíveis àqueles que percebem as suas
nuanças de maneira perspicaz. Olhar é fácil, saber ver exige
uma sensibilidade diferenciada e passar esse poder para a tela é
ainda mais desafiador.
A artista plástica Conte sai
vitoriosa desse triplo desafio. Nascida em Santos, SP, em 1944,
Maria Regina Conte Rodrigues revela em seus quadros uma
intensidade cromática sempre muito ligada ao azul e a uma
profunda crítica social. Radicada há quase três décadas em
Paraguaçu Paulista, SP, ela vem se dedicando, nos últimos cinco
anos, intensamente a uma obra pictórica que critica a sociedade
com contundência e rigor estético.
Descendente de italianos, Conte guarda
dentro de si o espírito inconformado e de justiça social de seus
antepassados. A arte transforma-se assim num mecanismo de alerta
à sociedade, mostrando que o maior crime está em se calar. Se
alguns fazem política nos palanques, outros – como a artista
paulista – pintam e denunciam com imagens.
Um exemplo disso é a obra
Iugoslávia, tríptico que mostra uma mulher dilacerada, dividida
em partes. Mesmo de bruços, é possível ver seu sofrimento,
expresso pela fragmentação do corpo. A cor azul do fundo não
só alude e a uma das cores da bandeira daquele país dividido por
terríveis conflitos religiosos e étnicos, mas também ao poder
ambivalente do mar: por um lado destrói e mata; por outro, acalma
com o ritmo de suas ondas e marés. Assim é a guerra: destrói,
mas sempre guarda espaço para a esperança de um final em que a
harmonia possa predominar e a reconstrução seja possível.
Temas como a fome, a solidão de
crianças de rua e a violência generalizada da sociedade também
aparecem, sempre com sutileza, na obra de Conte. Não se trata de
explicitar dramas, mas de sugerir a sua existência por meio de
cores intensas e imagens fragmentadas ou diluídas, em que o
referente concreto é trabalhado de modo a gerar questionamentos
no observador.
Uma das telas mais impressionantes
como resultado técnico e denúncia social é a que mostra uma
figura que alude ao jogador de futebol Pelé, posto sobre um dos
pratos de uma balança. Os braços do atleta do século não
surgem erguidos, como nas suas célebres comemorações de gol,
mas levantados e dobrados à altura dos cotovelos, reproduzindo,
se considerarmos a cabeça como centro, o equilíbrio de uma
balança.
A artista conta que o quadro surgiu
justamente ao presenciar o instante em que o atleta, quando ainda
não era famoso, teve a sua entrada barrada num clube de Santos
devido à cor negra. Depois, quando o sucesso surgiu em sua
careira esportiva, todas as portas lhe foram abertas, ou seja, o
talento do jogador era o mesmo, mas a fama e o dinheiro lhe
permitiram ter acesso a ambientes nos quais era antes
marginalizado pela cor da pele.
Em todas essas obras, a cor azul do
mar está presente – de forma mais ou menos evidente, geralmente
como um fundo muito peculiar – surgindo até mesmo numa série
de quadros sobre trabalhadores nas plantações de mandioca,
chamada Mãe da oca. Com rostos cobertos e pés ficticiamente
enfiados na água, Conte mostra como esses operários do campo
executam, com dignidade e esforço físico, o seu ofício.
Cores como o vermelho, o ocre, o
marrom e o branco também compõem a palheta da artista, mas é no
azul propiciado pela vivência com o mar que a arte de Conte se
realiza plenamente. A cor, que pode ser da água ou do céu,
casada com uma dimensão de crítica social que ocorre
invariavelmente pela vereda da sugestão – não pelo caminho
fácil do explícito – comove e fascina.
Cada quadro de Conte é um mergulho na
alma dilacerada de uma sociedade cada vez com mais medo de si
mesma. Nas telas da artista, o cotidiano que muitos tentam jogar
para baixo do tapete brota com toda força. O sofrimento da mulher
de todas as épocas, o atleta negro na balança da injustiça
social, corpos disformes ou rostos distorcidos de pessoas
esfomeadas são o preâmbulo de indagações existenciais que vêm
a tona com pinceladas críticas de um azul muito especial, que
acentua a inquietação da artista com o mundo que a cerca
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).