por Oscar D'Ambrosio


 

 



Conte 

Inquietação em azul

 

O mar serve de inspiração para numerosos poetas e artistas plásticos, mas as cores que o mar evoca apenas são acessíveis àqueles que percebem as suas nuanças de maneira perspicaz. Olhar é fácil, saber ver exige uma sensibilidade diferenciada e passar esse poder para a tela é ainda mais desafiador.

A artista plástica Conte sai vitoriosa desse triplo desafio. Nascida em Santos, SP, em 1944, Maria Regina Conte Rodrigues revela em seus quadros uma intensidade cromática sempre muito ligada ao azul e a uma profunda crítica social. Radicada há quase três décadas em Paraguaçu Paulista, SP, ela vem se dedicando, nos últimos cinco anos, intensamente a uma obra pictórica que critica a sociedade com contundência e rigor estético.

Descendente de italianos, Conte guarda dentro de si o espírito inconformado e de justiça social de seus antepassados. A arte transforma-se assim num mecanismo de alerta à sociedade, mostrando que o maior crime está em se calar. Se alguns fazem política nos palanques, outros – como a artista paulista – pintam e denunciam com imagens.

Um exemplo disso é a obra Iugoslávia, tríptico que mostra uma mulher dilacerada, dividida em partes. Mesmo de bruços, é possível ver seu sofrimento, expresso pela fragmentação do corpo. A cor azul do fundo não só alude e a uma das cores da bandeira daquele país dividido por terríveis conflitos religiosos e étnicos, mas também ao poder ambivalente do mar: por um lado destrói e mata; por outro, acalma com o ritmo de suas ondas e marés. Assim é a guerra: destrói, mas sempre guarda espaço para a esperança de um final em que a harmonia possa predominar e a reconstrução seja possível.

Temas como a fome, a solidão de crianças de rua e a violência generalizada da sociedade também aparecem, sempre com sutileza, na obra de Conte. Não se trata de explicitar dramas, mas de sugerir a sua existência por meio de cores intensas e imagens fragmentadas ou diluídas, em que o referente concreto é trabalhado de modo a gerar questionamentos no observador.

Uma das telas mais impressionantes como resultado técnico e denúncia social é a que mostra uma figura que alude ao jogador de futebol Pelé, posto sobre um dos pratos de uma balança. Os braços do atleta do século não surgem erguidos, como nas suas célebres comemorações de gol, mas levantados e dobrados à altura dos cotovelos, reproduzindo, se considerarmos a cabeça como centro, o equilíbrio de uma balança.

A artista conta que o quadro surgiu justamente ao presenciar o instante em que o atleta, quando ainda não era famoso, teve a sua entrada barrada num clube de Santos devido à cor negra. Depois, quando o sucesso surgiu em sua careira esportiva, todas as portas lhe foram abertas, ou seja, o talento do jogador era o mesmo, mas a fama e o dinheiro lhe permitiram ter acesso a ambientes nos quais era antes marginalizado pela cor da pele.

Em todas essas obras, a cor azul do mar está presente – de forma mais ou menos evidente, geralmente como um fundo muito peculiar – surgindo até mesmo numa série de quadros sobre trabalhadores nas plantações de mandioca, chamada Mãe da oca. Com rostos cobertos e pés ficticiamente enfiados na água, Conte mostra como esses operários do campo executam, com dignidade e esforço físico, o seu ofício.

Cores como o vermelho, o ocre, o marrom e o branco também compõem a palheta da artista, mas é no azul propiciado pela vivência com o mar que a arte de Conte se realiza plenamente. A cor, que pode ser da água ou do céu, casada com uma dimensão de crítica social que ocorre invariavelmente pela vereda da sugestão – não pelo caminho fácil do explícito – comove e fascina.

Cada quadro de Conte é um mergulho na alma dilacerada de uma sociedade cada vez com mais medo de si mesma. Nas telas da artista, o cotidiano que muitos tentam jogar para baixo do tapete brota com toda força. O sofrimento da mulher de todas as épocas, o atleta negro na balança da injustiça social, corpos disformes ou rostos distorcidos de pessoas esfomeadas são o preâmbulo de indagações existenciais que vêm a tona com pinceladas críticas de um azul muito especial, que acentua a inquietação da artista com o mundo que a cerca

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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"Iugoslávia"

O.S.T - 100X100  - 2000

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