Conceição
Silva
O
amor ao detalhe
Há
pintores autodidatas que fascinam pelos temas, voltados para o
folclore. Outros se valem de mergulhos imaginativos em atmosferas
fantásticas, de sonho. Há ainda os que se destacam pelo colorido
surpreendente. No caso da pintora Conceição Silva, seu principal
atributo é o amor ao detalhe, em uma busca consciente e
incessante por não deixar espaços da tela sem imagens.
Oriunda
de uma família de artistas, Conceição nasceu em Campo Belo, MG,
em 27 de setembro de 1938, mas foi registrada apenas em 7 de
outubro. Migrou ainda menina, com a mãe e os irmãos, para São
Paulo, SP, onde exerceu diversas profissões humildes para
sobreviver, pois, até então, a arte nunca fora vista como uma
atividade lucrativa, capaz de assegurar o seu sustento.
Conceição
começou a pintar em 1962, mas somente passou a expor seus
trabalhos dois anos depois, no Embu das Artes. A aproximação
ocorreu por acaso, quando seu irmão Vicente, escultor, começou a
namorar Raquel, filha do poeta Solano Trindade, grande
incentivador das artes naquele município. Dado o primeiro passo,
ela passou a participar de eventos culturais nacionais e
internacionais, sendo que alguns de sus quadros estão no
Exterior.
Conceição
lembra que seus primeiros quadros mostravam cenas mais cômicas.
Era o início de uma série de pinturas sobre variados temas. Há
30 anos, ela expõe seus trabalhos na Praça da República, em SP,
junto com a família. Mãe de cinco filhos e avó de seis netos,
encontra tempo para prosseguir com a carreira com imagens de cores
intensas e grupos humanos geralmente vibrantes, em atividades como
danças ou festas.
Na
Bienal Naïfs do Brasil de 1998, realizada em Piracicaba, SP,
Conceição obteve classificação com duas telas. Roda de
capoeira apresenta grande profusão de imagens e coloridos
vestidos de baiana, pintados com todas suas rendas e intensas
variedades cromáticas, enquanto Rosas do campo, tela mais próxima
ao universo naïf pela desproporção entre o tamanho das crianças
e o dos adultos, mostra, em primeiro plano, mulheres de vestido
rosa e, mais atrás, um casal apaixonado de noivos, todos situados
em meio a um colorido roseiral.
Na
Bienal seguinte, a artista também classificou dois trabalhos.
Minha mensagem é um conjunto de imagens bem presente no universo
pictórico de Conceição: o de uma paisagem rural próxima à água.
As roupas coloridas das mulheres, as manchas dos carneiros e o céu
repleto de nuvens e pássaros compõem um conjunto equilibrado e
uniforme.
Entre
as duas mulheres no primeiro plano, surge um pavão, com corpo
azul e uma cauda aberta em azul e dourado, que se relaciona
cromaticamente com as saias rosa e azul, da mulher da esquerda; e
verde, amarelo e vermelho, da mulher da direita. Tudo isso é
ainda matizado pelas crianças brincando na água azul da parte
inferior esquerda do quadro.
Outra
tela apresentada nessa mostra foi Dança do café, no qual
novamente se destacam as roupas coloridas das mulheres, mostradas
em movimentos compassados, enquanto um percussionista é
apresentado de camisa amarela ao lado de um pé de café. Mais uma
vez, as nuvens e pássaros estão presentes para não deixar espaços
em branco na tela.
Um
quadro que ilustra bem a facilidade de Conceição ao lidar com o
espaço da tela é Baiana e São Francisco Na parede, no canto
direito da tela, há um quadro do santo, rodeado por pássaros e
caminhando numa estrada de terra, ladeada por flores rosas.
Olhando para o observador, ocupando toda a lateral esquerda,
surge, imponente, uma baiana, com turbante, colar, enormes brincos
e um pássaro tropical em cada mão.
Na
parte inferior direita, há ainda uma criança mulata, que
oferece, com a mão direita, comida a um terceiro pássaro, junto
ao vestido da baiana. O menino também carrega um pássaro na sua
mão esquerda, contribuindo, portanto, para o estabelecimento de
um complexo universo de relações entre a baiana, a criança e o
quadro do santo na parede.
A
baiana, que dialoga com São Francisco, está em contato com os pássaros
e a criança. O conjunto sugere que o santo, a mulher e a criança
talvez sejam justamente aqueles que possam ter uma relação mais
direta com a natureza e, por conseqüência, com Deus.
Esse
tipo de leitura simbólica também pode ser realizado na obra mais
importante da artista, um painel pintado para a Mercearia do
Conde, em São Paulo, SP, na rua Joaquim Antunes, 217. Diversas
cenas, típicas do interior do Brasil, são justapostas numa
composição exemplar, que reserva, em sua parte inferior, espaço
para uma região coberta de água, na qual um dos personagens
mergulha, com naturalidade e displicência, os pés, já que
aquela natureza é, para ele, farta e integra o seu cotidiano. O
ludismo do quadro fascina, não só pela intensidade das cores,
mas pela riqueza dos detalhes, que convidam a renovadas leituras.
Trabalhando
sem esboços, criando suas imagens diretamente na tela, Conceição,
que gosta de mostrar grávidas, pinta tanto brancos e negros,
geralmente numa mesma tela. A artista encanta pelo poder de criar
cenas alegres repletas de figuras humanas e da natureza, que se
articulam em composições espontaneamente equilibradas. Todo espaço
é aproveitado no sentido de compor um todo harmônico,
fundamentado no princípio de que cada detalhe contribui
decisivamente para criar, com cores fortes e traços bem
definidos, cenas que transmitem alegria de viver.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).