por Oscar D'Ambrosio


 

 


Comuni-caution, de Blagojco Dimitrov

 

            Uma das questões centrais do mundo contemporâneo é a comunicação. Realizada cada vez mais por meios virtuais aumenta a possibilidade de enganos, falcatruas, falsidades, ações mal intencionadas e, acima de tudo, um constante questionamento da ética que poderia – e deveria – regular as relações humanas.

            A exposição Comuni-caution traz ao primeiro plano essas problemáticas de uma maneira irônica, com humor, mas sem perder a profundidade. O título muito mais que um mero jogo de palavras é um alerta convertido plasticamente em telas de fundo branco preenchidas em parte com fluxos de linhas negras.

            Há pinturas e desenhos em que essas ondas ocupam o espaço nas mais diversas conformações. O dilema da comunicaçãoou da falta dela – ganha então uma poética marcada por uma linguagem visual que evoca a prática da gravura, uma das paixões do artista, pelo uso dos sulcos, inclusive com a tela sendo furada em algumas áreas.

            Nascido na Macedônia e chegado ao Brasil, em 1993, Blagojco Dimitrov, professor da Escola Panamericana de Arte (EPA), pertence à família dos artistas que não se fabricam, mas que nascem prontos e vão aprofundando a sua técnica ao longo do tempo, com muito estudo, observação e prática.

            Capaz de realizar com a mesma competência uma natureza-morta ou uma paisagem de observação, sua arte teve, até agora, seu ponto alto em uma exposição realizada logo após a sua chegada na EPA. Influenciado pelo clima da guerra na região de onde emigrara e pela sua trajetória pessoal, realizou um amplo conjunto de obras de cunho expressionista, gesto largo, rapidez no feitio e viscerais na execução, com ampla experimentação de materiais.

             Comuni-caution dá prosseguimento a essa poética lírica da essencialidade. Por um lado, uma estética mais minimalista e conceitual pode ser encontrada nos trabalhos em que o fluxo das ondas ocorre sem a presença de elementos figurativos; por outro,  há diversos trabalhos em que os fluxos ligam figuras humanas, animais como cães ou os mais variados adesivos.

            O alerta ao perigo da incomunicabilidade expresso por Blagojco Dimitrov ganha em cada tela ou desenho a força de uma manifestação ácida contra o atual mundo em que os diálogos entre as pessoas vêm sendo substituídos pelas conversas por meio de maquinas.

As ondas se espalham e nem sempre a mensagem que chega é igual àquela  que é emitida. Talvez isso seja o menos importante perante um trabalho visual que impressiona em si mesmo, principalmente pela habilidade de saber lidar com os espaços em brancos tanto quando usa a tela ou o papel como suporte. 

Seus fluxos, nos dois casos, alertam que a arte, quando bem pensada e elaborada, pode prescindir de tema, desde que fundamentada na consciência do saber fazer com seriedade, qualidade e responsabilidade, características que o artista macedônio radicado no Brasil reúne.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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