por Oscar D'Ambrosio


 

 


Comparações plásticas

 

Diderot, no século XVIII, apontava que “as coisas não são nada em si mesmas; elas não têm nem doçura nem amargura reais; o que faz delas o que são é a nossa alma”. Essa idéia se faz onipresente na exposição “Comparações”, na Graphias – Casa da Gravura, em São Paulo, de 7 a 26 de novembro de 2005.

As gravuras de Luiz Martins e as colagens fotográficas digitais de Juan Esteves apontam para uma mesma reflexão: a do poder da arte de dialogar com a realidade, uma discussão sempre viva por estar cada vez mais renovada, principalmente pelo uso de variadas técnicas, das mais tradicionais às contemporâneas.

Nesse sentido, Martins se caracteriza por uma poética que busca do mínimo, num caminho que envereda pela abstração, enquanto Esteves se vale da desconstrução do figurativo para obter seus efeitos visuais por meio da fotografia enquanto arte visual, não como elemento documental.

Martins tem na busca da essência sua característica marcante. Há nele experimentação com novas técnicas, com o objetivo de apresentar uma nova cidade a partir daquela que conhecemos.  Imagens de congestionamentos e edifícios são recriadas por um processo plástico que renova a nossa visão do urbano graças a composições que indagam qual é a cidade em que vivemos e qual é o mundo urbano em que se deseja viver.

Se considerarmos, como o intelectual mexicano Carlos Fuentes, a imaginação e a linguagem como matérias-primas da produção artística, observa-se que Martins e Esteves, cada qual com a sua proposta estética e suporte, valem-se desses recursos com uma intensidade que cativa o observador.

A imaginação se faz presente nos trabalhos de Martins, como as mandalas de várias cores, os bichos de formas inspiradas e outros trabalhos que tem no universo da natureza a sua matriz, e, nos de Esteves, pelo uso de sobreposições e composições em que o urbano ganha uma nova dimensão, complexa, mas de uma beleza encantadora, roubada da cidade, recriada e reapresentada por um novo prisma.

A linguagem de cada artista ao se valer de diversos recursos expressivos fascina. Martins resolve plasticamente as suas gravuras pela busca da precisão no traço, na incisão em cada placa. Esteves utiliza-se do conhecimento da técnica fotográfica, com as múltiplas possibilidades de revelação, construção e composição de novas imagens.

Em Martins, linhas arredondadas são bem presentes, sugerindo espécies de arcos líricos que obrigam a refletir sobre como a arte da gravura oferece possibilidades líricas  merecedoras de especial atenção e reflexão, numa espécie de jogo infinito entre aquilo que a técnica propicia e aquilo que cada artista consegue atingir.

Esteves, por sua vez, apresenta em cada imagem um universo poético em que a adição de elementos em diferentes perspectivas gera o interesse por enxergar repetidamente a mesma imagem pelo ludismo criado com a arquitetura dos edifícios, linhas das calçadas e caóticas luzes multifacetadas de automóveis parados ou em movimento.

Machado de Assis (1839-1908) aponta, em Várias histórias, que “as cousas valem pelas idéias que nos sugerem”. Nesse aspecto, Luiz Martins, com suas gravuras, e Juan Esteves, com suas colagens fotográficas, têm o grande mérito de sugerir muito. Mobilizam a mente e – como diria Diderot, a alma – do observador e, em cada imagem que criam, oferecem um antídoto contra a mesmice e um elixir de criatividade.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

 

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