por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

A humanidade das cores

 

            A percepção da cor depende da maneira como o cérebro interpreta a distribuição do comprimento de ondas de luz que penetra nos olhos. Por isso, ela tanto pode ser analisada sob o aspecto físico/óptico, no que diz respeito à natureza da luz, ou fisiológico/visual, quando se pensa na forma como o olho vê a cor.

            Essa breve reflexão surge a respeito do impacto estético das telas de Clóvis Júnior. A intensidade de suas cores chama a atenção pela criação de massas visuais separadas por contornos finos. O recurso dá aos seus trabalhos grande leveza e as figuras parecem flutuar no espaço nas mais diversas situações.

            O trabalho de Clóvis com a cor é mais importante do que o desenho ou a escolha da temática. Estas duas podem nos enganar à primeira vista, mas é nas soluções cromáticas que o artista, nascido na Guarabira, Estado da Paraíba, e radicado em João Pessoa, encanta. Desde a sua estréia, aos 18 anos, em 1983, soluciona plasticamente suas composições pelas distribuição colorística harmoniosa e agradável à vista.

            Grupos de pessoas em ocasiões de festas populares, como bumba-meu-boi ou as comemorações de junho, mostram o uso de tonalidades quentes, em nuances de vermelho, amarelo e laranja, principalmente. Esse tipo de trabalho com o uso de cores plenas aproxima decisivamente o artista paraibano da chamada arte naïf, realizada por artistas geralmente autodidatas que expressam, cada qual a seu modo, a própria visão de mundo.

            O recurso muito comum em Clóvis da justaposição de imagens encontra também seu esteio pictórico na cor. Ao utilizar o acrílico sobre tela, consegue dar um brilho ao seu trabalho que o torna encantador, marcadamente para o público internacional, que se fascina pelos contrastes utilizados na composição de temas para eles exóticos, como o cangaço, ou clássicos, como uma Santa Ceia.

            Graficamente, um aspecto a destacar na poética de Clóvis são as árvores. Suas formas retorcidas são utilizadas habilmente na construção das telas, auxiliando a criar atmosferas equilibradas. Mesmo quando seus galhos dão numerosas voltas em torno de si mesmas, elas não perdem a leveza, sugerindo um sutil movimento ascencional.

            A festa de cores proposta pela arte de Clóvis Júnior, portanto, ultrapassa os aspectos físico/óptico e fisiológico/visual, atingindo a esfera da sensível matéria pictórica. A sua cor atinge a alma do observador pelo impacto visual causado e pela maneira como as formas estilizadas interagem com uma plenitude de cores que fala profundamente, pois está impregnada de densa humanidade.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).
 

 

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acrílico sobre tela 166x130 cm sem data

Clóvis Junior

 


 

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