por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Climério Souza Cordeiro

 

            Delicada temática rural

 

            Há pintores que têm no passado a grande matriz de sua inspiração. Seu mundo imagético geralmente gira ao redor de recordações da infância. A reprodução dessas lembranças em telas torna-se, talvez, uma forma de não se desapegar de um passado difícil, mas que pode funcionar como um porto seguro em meio a uma sociedade caótica.

Esse é o caso de Climério Souza Cordeiro. Nascido em 19 de julho de 1958, em Ilhéus, BA, e falecido em São Bernardo do Campo, SP, em 17 de janeiro de 2004, ele passou a infância na região cacaueira, em sua cidade natal, e em Itabuna. Conheceu então tanto a beleza como o trabalho duro das atividades econômicas da região, a agricultura e a pecuária.

Em 1970, repetindo a história de milhões de nordestinos, que saem de sua terra em busca de futuro melhor, Cordeiro migrou para a região Sudeste. Estabeleceu-se em São Bernardo do Campo, SP, onde realizou, em 1974, cursos de desenho, xilogravura e pintura na Associação Sãobernardense de Belas Artes (ASBA).

Foi com o pai, pedreiro numa empresa de construção civil, que Cordeiro tomou gosto pelas tintas. Trabalhando como ajudante, limpava rodapés das paredes. Ao ver, nas casas humildes que o pai pintava, decorações simples feitas nas paredes, foi tomando gosto pela arte.

O resultado veio em 1978, quando Cordeiro passou a ser um artista plástico profissional, enfrentando as alegrias e as dificuldades da profissão. Caracterizou-se pela simplicidade de temas, como os rurais, e pelos traços ingênuos, que evocam a infância perdida no interior da Bahia. Cada tela surge como uma recordação de imagens que vão se perdendo no tempo, mas que permanecem vivas em paisagens rurais de cores intensas, com figuras geralmente pequenas e desenhadas com riqueza de detalhes.

Em 1985, Cordeiro passou a residir em Aracaju. No ano seguinte, teve a oportunidade de encontrar o então presidente da República, José Sarney, em Brasília, a quem presenteou com um quadro. Logo em seguida, retornou a Ilhéus, passando a participar ativamente do Movimento Negro Unificado.

Mas a vida itinerante do artista não parou ainda. Em 1993, mudou para Goiânia e, em 2000, retornou a São Bernardo do Campo. Nesse ínterim, seus quadros passaram a integrar diversos acervos, como os da Pinacoteca de São Bernardo do Campo, da Galeria Álvaro Santos, em Sergipe, da prefeitura de Penápolis, SP, e de instituições como o Itaú Cultural, em São Paulo, Capital.

Além de numerosas coletivas, Climério realizou exposições individuais em São Paulo, Bauru e Campinas, além de Aracaju, SE, e Ilhéus, BA. Seus quadros também foram adquiridos por colecionadores da Itália e da Espanha e encantaram o público estrangeiro pela capacidade do artista de apresentar atmosferas rurais com extrema delicadeza e sensível saudosismo lírico.

Nos últimos anos de sua vida, além de apresentar obras com seus temas preferido, o mundo rural, Cordeiro levou para as telas paisagens atuais e do passado de São Bernardo do Campo, como a igreja de Rudge Ramos, e as antigas granjas do bairro Cooperativa. Mostrou assim versatilidade e capacidade de recriar os mais diversos tipos de imagens.

Climério Souza Cordeiro foi uma expressão superlativa da arte naïf pela sua autenticidade temática. Mostra imagens rurais com intensa verdade imagética, que pode ser observada tanto nos traços finos e precisos como na instauração de um doce clima de nostalgia, oriundo de uma realidade que, devorada pelo progresso e pela tecnologia, praticamente não existe mais.

   Nas pinceladas de Cordeiro, as cenas rurais não são pretexto para nada. Valem em si mesmas. Ingênuas e serenas, evocam o doce desejo de viver num mundo equilibrado e justo, em que as leis naturais e éticas predominem. A arte naïf do pintor baiano aponta para esse ideal.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).  

 

 

 

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 Boiada no pasto 
óleo sobre tela 40 x 50 cm - 2001

Climério Souza Cordeiro

 

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