Cleber
Machado
A escultura como ato imperfeito de
amor
Alguns consideram a escultura como a
arte de representar figuras ou idéias
por meio da criação de volumes a partir dos mais variados materiais.
Outros se contentam com realizar percursos da chamada pré-história às
tendências mais contemporâneas. Existem ainda aqueles voltados para a
catalogação dos principais nomes dessa trajetória diacrônica dentro
das diversas técnicas possíveis.
São todas
alternativas válidas e dignas, mas parecem destinadas a morrer como
textos de parede em galerias ou em catálogos de exposições nem sempre
antológicas. O grande desafio está no mergulho nas formas construídas
por cada artista. Isso significa olhar o trabalho em si mesmo, enquanto
resultado plástico.
A obra de
Cleber Machado oferece essa possibilidade de mergulho estético num mar
de infinitas combinações plásticas que tem a geometria como eixo
central. Gaúcho, ex-recordista estadual dos 100 m nado de peito, preso
por um dia por participar de passeatas contra a ditadura militar nos
anos 1960, apaixonado por caça submarina, já morou no Rio de Janeiro,
Petrópolis, Nova York, Cidade do México e está agora radicado em São
Paulo. Também criador de jóias, atividade que lhe rendeu prêmio de
Pesquisa na 11ª Bienal de São Paulo, em 1971, Machado tem como maior
preciosidade suas esculturas.
Uma das mais
emblemáticas é Amor perfeito (1999). Com madeira maciça e
ferro, a peça é emblemática na representação daquilo que diferencia
o trabalho artístico de Cleber Machado: trabalhar a geometria de
maneira a humanizá-la ou, se preferirem, revelar a humanidade presente
nas formas geométricas.
Eclipse
– eclipse (1999) utiliza os mesmos materiais. É nos encaixes e
vazios que a obra ganha relevância. Trata-se de muito mais que um exercício
plástico. Constitui uma abordagem de mundo, uma resposta visual aos estímulos
que não paramos de receber. O resultado questiona a nossa capacidade de
entendimento da chamada realidade, pois se cristaliza ao atingir aquele
momento mágico em que uma densa composição plástica se apresenta
como portadora de uma aparente simplicidade, algo que o arquiteto Oscar
Niemayer domina como poucos.
Contraturas
do eclipse (2000) vale-se do metal cromado para oferecer quatro
semi-círculos numa linguagem que mescla a simplicidade à ousadia. A
grande eclipse aqui é a de uma interrogação. Quem está eclipsando
quem? Pode-se pensar no mínimo em duas leituras: o pensamento racional
eclipsa a sensibilidade e vice-versa.
Justamente
aí reside a matriz do êxito plástico de Cleber Machado. Ele atinge o
cerne da questão ao desafiar cada observador com uma mescla entre o domínio
técnico da matéria escultórica e a criação de uma poética marcada
pela maneira de sensibilizar cada um que vê o seu trabalho.
Os
supers (1999) segue a mesma lógica poética.
O que poderia ser uma solução rígida, dura e meramente concreta
atinge um outro patamar. Surgem indagações que superam o formalismo.
As possibilidades visuais da peça apontam que um quadrado é muito mais
que uma figura geométrica quando tratado como se fosse uma pessoa.
Basta ver o quadrado com sensibilidade. Parece fácil? Experimente para
ver a dificuldade...
Humanização
do geométrico e geometrização do humano encontram-se na criação de
uma poética marcada pelo belo. Isso não significa um ideal grego
inatingível ou a efêmera beleza cotidiana, mas algo próximo ao que
ocorre em Chocolate com creme (2000), escultura de metal cromado
onde se torna mais evidente a visão poética
e estética do artista gaúcho.
Há nela
leveza e exploração de reentrâncias. O que poderia ser rigidez geométrica
se transforma em possibilidade de domínio plástico do espaço que está
ao redor da peça. Quebra-nozes (2000) segue a mesma estética,
com a vantagem de explorar a forma do círculo. A expectativa do
encontro perfeito é quebrada, e o deslocamento da linha nos faz
penetrar num mundo de possibilidades de ruptura e de recriação da
geometria clássica.
A luz, além
da forma, é outro elemento primordial na linguagem de Cleber Machado. Morango
com merengue (1968) trabalha com acrílico e nylon na composição
de uma espécie de móbile. Se a alusão a Calder é evidente, a peça,
por outro lado, desde o seu título até a sua realização final, tem
como principal conceito o prazer, seja o da alimentação, seja o
visual, seja o do jogo com as sombras, seja o do ato de gerar
possibilidades com a luz.
Framboesa
e chocolate (1999), em ferro esmaltado, evoca a mesma sensação de
prazer ao paladar, reforçado pela maneira como a peça é estruturada.
Trata-se de uma indagação sobre a própria capacidade de verificar
como elementos sólidos parecem se diluir quando portadores de divisões,
quebras e fraturas que estabelecem novas possibilidades de visualização.
Chapultepec, de 1984, nesse
aspecto, é muito mais que uma alusão ao México. Oferece a
possibilidade de, como ferro esmaltado e acrílico cristal, verificar
como o trabalho com losangos e retângulos pode ser rico em chances de
montagem. O referencial concreto é o menos importante perante o que a
escultura evoca em termos de poesia que não pode – nem deve – ser
expressa em palavras, mas que gera impacto estético em si mesma.
Trabalhos
como Coluna (1977) em madeira e vidro, e Pássaro (1982),
em ferro e vidro, podem funcionar como totens que indicam instâncias míticas
de desenvolvimento da consciência, mas são, acima de tudo, lúdicas e
prazerosas propostas de visualização. Comportam referências
concretas, mas, ao mesmo tempo, apontam sempre para o trabalho plástico
que Cleber Machado desenvolve no sentido de desafiar a nossa inteligência.
Nessa
proposta, o artista teve um mestre: o escultor brasileiro Sergio
Camargo. Machado até o homenageou numa escultura em ferro esmaltado em
1998, justamente numa obra em que a geometria é quebrada pela presença
de espaços em branco a serem preenchidos pelo poder do olhar do
observador.
Cleber
Machado apresenta esculturas em que o ser e o pensar nunca se diluem.
Estão fortemente amarrados. Seu trabalho tem o aspecto do artista que
constrói a sua poética, do crítico que reflete sobre o passado em
busca de soluções próprias e do educador que propicia a prática
renovada do olhar.
As três
facetas (artista, crítico e educador) se unem num ato de amor quase
perfeito, até porque a prática de Machado não é a da perfeição.
Seu trabalho é bem pensado, feito e acabado, mas permite e possibilita
a presença constante da interferência de elementos externos. O local
onde ficará a peça e a luminosidade que sobre ela incide são variáveis
que enriquecem a estética proposta pelo artista gaúcho.
Cada nova peça
revela, esconde e sugere. Cumprir essas três funções é exatamente o
mistério da arte. Quando elas são atingidas, está-se perante um
trabalho significativo, que nunca nos deixa indiferentes, mas incomoda
justamente porque sua aparente perfeição provém do amor nele
existente – que, paradoxalmente, o deixa repleto das imperfeições
que nos tornam cada vez mais humildes perante a grandiosidade do mundo e
da arte de qualidade.
Oscar D’Ambrosio, jornalista,
mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).