por Oscar D'Ambrosio


 

 


Cleber Machado

 

            A escultura como ato imperfeito de amor

 

            Alguns consideram a escultura como a arte de representar figuras ou  idéias por meio da criação de volumes a partir dos mais variados materiais. Outros se contentam com realizar percursos da chamada pré-história às tendências mais contemporâneas. Existem ainda aqueles voltados para a catalogação dos principais nomes dessa trajetória diacrônica dentro das diversas técnicas possíveis.

            São todas alternativas válidas e dignas, mas parecem destinadas a morrer como textos de parede em galerias ou em catálogos de exposições nem sempre antológicas. O grande desafio está no mergulho nas formas construídas por cada artista. Isso significa olhar o trabalho em si mesmo, enquanto resultado plástico.

            A obra de Cleber Machado oferece essa possibilidade de mergulho estético num mar de infinitas combinações plásticas que tem a geometria como eixo central. Gaúcho, ex-recordista estadual dos 100 m nado de peito, preso por um dia por participar de passeatas contra a ditadura militar nos anos 1960, apaixonado por caça submarina, já morou no Rio de Janeiro, Petrópolis, Nova York, Cidade do México e está agora radicado em São Paulo. Também criador de jóias, atividade que lhe rendeu prêmio de Pesquisa na 11ª Bienal de São Paulo, em 1971, Machado tem como maior preciosidade suas esculturas.

            Uma das mais emblemáticas é Amor perfeito (1999). Com madeira maciça e ferro, a peça é emblemática na representação daquilo que diferencia o trabalho artístico de Cleber Machado: trabalhar a geometria de maneira a humanizá-la ou, se preferirem, revelar a humanidade presente nas formas geométricas.

            Eclipse – eclipse (1999) utiliza os mesmos materiais. É nos encaixes e vazios que a obra ganha relevância. Trata-se de muito mais que um exercício plástico. Constitui uma abordagem de mundo, uma resposta visual aos estímulos que não paramos de receber. O resultado questiona a nossa capacidade de entendimento da chamada realidade, pois se cristaliza ao atingir aquele momento mágico em que uma densa composição plástica se apresenta como portadora de uma aparente simplicidade, algo que o arquiteto Oscar Niemayer domina como poucos.

            Contraturas do eclipse (2000) vale-se do metal cromado para oferecer quatro semi-círculos numa linguagem que mescla a simplicidade à ousadia. A grande eclipse aqui é a de uma interrogação. Quem está eclipsando quem? Pode-se pensar no mínimo em duas leituras: o pensamento racional eclipsa a sensibilidade e vice-versa.

Justamente aí reside a matriz do êxito plástico de Cleber Machado. Ele atinge o cerne da questão ao desafiar cada observador com uma mescla entre o domínio técnico da matéria escultórica e a criação de uma poética marcada pela maneira de sensibilizar cada um que vê o seu trabalho.

Os supers (1999) segue a mesma lógica poética. O que poderia ser uma solução rígida, dura e meramente concreta atinge um outro patamar. Surgem indagações que superam o formalismo. As possibilidades visuais da peça apontam que um quadrado é muito mais que uma figura geométrica quando tratado como se fosse uma pessoa. Basta ver o quadrado com sensibilidade. Parece fácil? Experimente para ver a dificuldade...

            Humanização do geométrico e geometrização do humano encontram-se na criação de uma poética marcada pelo belo. Isso não significa um ideal grego inatingível ou a efêmera beleza cotidiana, mas algo próximo ao que ocorre em Chocolate com creme (2000), escultura de metal cromado onde se torna mais evidente a visão poética  e estética do artista gaúcho.

            Há nela leveza e exploração de reentrâncias. O que poderia ser rigidez geométrica se transforma em possibilidade de domínio plástico do espaço que está ao redor da peça. Quebra-nozes (2000) segue a mesma estética, com a vantagem de explorar a forma do círculo. A expectativa do encontro perfeito é quebrada, e o deslocamento da linha nos faz penetrar num mundo de possibilidades de ruptura e de recriação da geometria clássica.

            A luz, além da forma, é outro elemento primordial na linguagem de Cleber Machado. Morango com merengue (1968) trabalha com acrílico e nylon na composição de uma espécie de móbile. Se a alusão a Calder é evidente, a peça, por outro lado, desde o seu título até a sua realização final, tem como principal conceito o prazer, seja o da alimentação, seja o visual, seja o do jogo com as sombras, seja o do ato de gerar possibilidades com a luz.

            Framboesa e chocolate (1999), em ferro esmaltado, evoca a mesma sensação de prazer ao paladar, reforçado pela maneira como a peça é estruturada. Trata-se de uma indagação sobre a própria capacidade de verificar como elementos sólidos parecem se diluir quando portadores de divisões, quebras e fraturas que estabelecem novas possibilidades de visualização. 

            Chapultepec, de 1984, nesse aspecto, é muito mais que uma alusão ao México. Oferece a possibilidade de, como ferro esmaltado e acrílico cristal, verificar como o trabalho com losangos e retângulos pode ser rico em chances de montagem. O referencial concreto é o menos importante perante o que a escultura evoca em termos de poesia que não pode – nem deve – ser expressa em palavras, mas que gera impacto estético em si mesma.

            Trabalhos como Coluna (1977) em madeira e vidro, e Pássaro (1982), em ferro e vidro, podem funcionar como totens que indicam instâncias míticas de desenvolvimento da consciência, mas são, acima de tudo, lúdicas e prazerosas propostas de visualização. Comportam referências concretas, mas, ao mesmo tempo, apontam sempre para o trabalho plástico que Cleber Machado desenvolve no sentido de desafiar a nossa inteligência.

            Nessa proposta, o artista teve um mestre: o escultor brasileiro Sergio Camargo. Machado até o homenageou numa escultura em ferro esmaltado em 1998, justamente numa obra em que a geometria é quebrada pela presença de espaços em branco a serem preenchidos pelo poder do olhar do observador.

            Cleber Machado apresenta esculturas em que o ser e o pensar nunca se diluem. Estão fortemente amarrados. Seu trabalho tem o aspecto do artista que constrói a sua poética, do crítico que reflete sobre o passado em busca de soluções próprias e do educador que propicia a prática renovada do olhar.

            As três facetas (artista, crítico e educador) se unem num ato de amor quase perfeito, até porque a prática de Machado não é a da perfeição. Seu trabalho é bem pensado, feito e acabado, mas permite e possibilita a presença constante da interferência de elementos externos. O local onde ficará a peça e a luminosidade que sobre ela incide são variáveis que enriquecem a estética proposta pelo artista gaúcho.

            Cada nova peça revela, esconde e sugere. Cumprir essas três funções é exatamente o mistério da arte. Quando elas são atingidas, está-se perante um trabalho significativo, que nunca nos deixa indiferentes, mas incomoda justamente porque sua aparente perfeição provém do amor nele existente – que, paradoxalmente, o deixa repleto das imperfeições que nos tornam cada vez mais humildes perante a grandiosidade do mundo e da arte de qualidade.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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  Chapultepec 
ferro esmaltado e crílico cristal 69 x 143 x 50 cm 1994

Cleber Machado 

 

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