por Oscar D'Ambrosio


 

 


Cléa Costa

 

            A conquista do espaço

 

            Cada artista plástico é um mistério. Uma trajetória envolve a concepção visual de um sonho que ganha forma com diversos materiais. O maior desafio reside em levar para o papel, a tela ou a escultura imagens mentais elaboradas durante o processo de criação.

            Cléa Costa apresenta, ao longo de seu percurso, variadas manifestações, todas aliadas por um elo diferenciado com o espaço, visto como um local de transcendência, não tanto no sentido místico, mas sim como uma revelação constante de um pensamento sobre o mundo.

            Em seus trabalhos mais figurativos, há a preocupação explícita de captar a expressão humana. Não se trata, no entanto, de retratos acadêmicos. O que se realiza são exercícios de captar almas. Atinge-se assim a essência do ser, gerando no observador um sentimento, não um reconhecimento da realidade.

            O mesmo raciocínio vale para as naturezas-mortas. Tradicionalmente, na história da arte, o gênero está voltado para uma prática que demanda um estudo de formas, cores, luzes e sombras. Cléa Costa segue esse pensamento, mas introduz a pesquisa pelas estruturas fundamentais da matéria.

            Ao mergulhar no abstrato, a artista se vale de várias técnicas, como a colagem e a têmpera. Sua principal preocupação está no desenvolvimento de uma poética que utiliza os materiais não como resultados em si mesmos, mas como meios de um procedimento em que a experimentação fala sempre muito alto.

            Um índice dessa movimentação interior está nos objetos realizados ao longo da carreira. A presença de ovos ilustra a devoção pela vida. Talvez essa seja a melhor metáfora de uma criadora que oferece uma trajetória marcada por uma diversificação que mantém a unidade na manutenção de uma proposta inovadora.

            As esculturas, nas quais predomina o movimento circular e ascensional, revelam a inquietação própria de quem sabe transformar sua relação com o mundo em obra de arte. As matérias-primas são utilizadas com personalidade em busca de soluções próprias, que se distinguem pelo desejo de expressar, pela arte, uma libertação.

            O conjunto da obra de Cléa Costa aponta para criações que têm como eixo central a pavimentação de uma vereda na qual o diálogo com o espaço é primordial. Não se encontram soluções simples, mas a progressiva construção de uma jornada em que a experiência e a competência caminham lado a lado.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 
 

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tecido sobre madeira 130x120 cm 1989

Cléa Costa

 

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