por Oscar D'Ambrosio


 

 


Cláudio

 

            Simplesmente Cláudio

 

            “A mente não deve ser modificada pelo tempo e pelo lugar./ A mente é seu próprio lugar, e dentro de si/ Pode fazer um inferno do céu, do céu um inferno”. As palavras do poeta Milton (1608-1674), em O Paraíso perdido I, permitem vislumbrar a obra artística de Cláudio.

            Suas pinturas, realizadas  geralmente sobre madeira compensada, apresentam grande riqueza de detalhes e buscam preencher todos os espaços, com uma sucessão de grafismos que se integram ao trabalho pelo uso da cor e por uma composição em que predominam dois princípios: o da liberdade criativa e o da repetição de algum elemento como motivo a ser desenvolvido.

            Alguns assuntos recorrentes são o Egito, presente tanto na forma de pirâmides, representadas como triângulos, e rostos de faraós com alguns de seus adornos de realeza e divindade em torno da cabeça. Isso dá a certos trabalhos um ar de solenidade, mesclada com pureza.

            A utilização de algumas cores quentes, principalmente vermelho, com preto, retoma jogos visuais presentes na arte africana e indígena. Não se trata de saber se essa analogia é consciente ou não, mas ela brota seguramente de algumas referências presentes no imaginário do artista.

            Com pouco mais de 30 anos, Cláudio realiza ainda alguns trabalhos com colagens de moedas ou mesmo de um Cd. O recurso, embora não seja original, revela a preocupação de reaproveitamento de materiais e de obter novos efeitos plásticos a partir de elementos que tem à mão.

            O grande ensinamento desse processo é mostrar que a arte pode nascer das experiências mais simples e com os recursos mais modestos. O que está em jogo na criação artística e a capacidade de estabelecer o diferente a cada instante. A procura por uma linguagem própria é, assim, o grande desafio.

            Um elemento muito presente nos trabalhos de Cláudio é o do olho. Ele surge de diversas maneiras, tanto dentro de diversos rostos, tanto masculinos como femininos, como compondo fundos em que a presença de múltiplos olhares aponta para a capacidade do artista de, como apontava o poeta Milton, de criar seu próprio mundo, fazendo o observador, de acordo com os próprios padrões estéticos, se sentir no céu ou no inferno.

            Cláudio constrói a sua obra sendo simplesmente Cláudio, ou seja, é nele mesmo que encontra a raiz, a força e a melhor maneira de responder com arte aos dilemas do mundo. No seu caso, isso significa uma obra vigorosa, sincera, em que as cores desempenham um papel primordial, se sobrepondo às figuras como manifestação estética do seu sentimento de estar no mundo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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