Cláudio
Simplesmente Cláudio
“A mente não deve ser modificada pelo tempo e pelo lugar./ A
mente é seu próprio lugar, e dentro de si/ Pode fazer um inferno do céu,
do céu um inferno”. As palavras do poeta Milton (1608-1674), em O
Paraíso perdido I, permitem vislumbrar a obra artística de Cláudio.
Suas
pinturas, realizadas geralmente
sobre madeira compensada, apresentam grande riqueza de detalhes e buscam
preencher todos os espaços, com uma sucessão de grafismos que se
integram ao trabalho pelo uso da cor e por uma composição em que
predominam dois princípios: o da liberdade criativa e o da repetição
de algum elemento como motivo a ser desenvolvido.
Alguns
assuntos recorrentes são o Egito, presente tanto na forma de pirâmides,
representadas como triângulos, e rostos de faraós com alguns de seus
adornos de realeza e divindade em torno da cabeça. Isso dá a certos
trabalhos um ar de solenidade, mesclada com pureza.
A utilização
de algumas cores quentes, principalmente vermelho,
com preto, retoma jogos visuais presentes na arte africana e indígena.
Não se trata de saber se essa analogia é consciente ou não, mas ela
brota seguramente de algumas referências presentes no imaginário do
artista.
Com pouco
mais de 30 anos, Cláudio realiza ainda alguns trabalhos com colagens de
moedas ou mesmo de um Cd. O recurso, embora não seja original, revela a
preocupação de reaproveitamento de materiais e de obter novos efeitos
plásticos a partir de elementos que tem à mão.
O grande
ensinamento desse processo é mostrar que a arte pode nascer das experiências
mais simples e com os recursos mais modestos. O que está em jogo na
criação artística e a capacidade de estabelecer o diferente a cada
instante. A procura por uma linguagem própria é, assim, o grande
desafio.
Um elemento
muito presente nos trabalhos de Cláudio é o do olho. Ele surge de
diversas maneiras, tanto dentro de diversos rostos,
tanto masculinos como femininos, como compondo fundos em que a
presença de múltiplos olhares aponta para a capacidade do artista de,
como apontava o poeta Milton, de criar seu próprio mundo, fazendo o
observador, de acordo com os próprios padrões estéticos, se sentir no
céu ou no inferno.
Cláudio
constrói a sua obra sendo simplesmente Cláudio, ou seja, é nele mesmo
que encontra a raiz, a força e a melhor maneira de responder com arte
aos dilemas do mundo. No seu caso, isso significa uma
obra vigorosa, sincera, em que as cores desempenham um papel
primordial, se sobrepondo às figuras como manifestação estética do
seu sentimento de estar no mundo.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi
(Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de
Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).