por Oscar D'Ambrosio


 

 




Cláudia Carvalho

A simplicidade da natureza

 
O escritor Machado de Assis já disse que “A natureza é simples. A arte é atrapalhada”, aludindo ao fato de o ser humano, muitas vezes, em nome das artes plásticas ou da literatura, tomar a natureza e transformá-la em algo complexo, de difícil entendimento, longe da pureza absoluta e da intensa verdade existencial presente numa árvore ou numa pequena queda de água.
 
Os trabalhos de Cláudia Carvalho não correm esse risco de deturpar a beleza essencial da natureza para dar-lhe o status de objeto artístico. Suas obras, realizadas pela técnica do pastel seco, são, pelo contrário, um convite para reencontrar a natureza e tudo o que nela existe de indagador e denso.
 
Nascida em São Paulo, em 1964, Cláudia tomou o primeiro contato com os pincéis e tintas aos oito anos de idade, quando, ao visitar um ateliê de pintura, sentiu que havia encontrado o seu caminho. Dessas primeiras aulas, lembra até do seu primeiro trabalho: uma zebra.
 
A jornada pelo mundo da arte prosseguiu com outros professores, até que, aos 18 anos, conheceu e passou a estudar com quem considera sua grande mestra, a artista plástica israelense, radicada no Brasil, Hedva Megged. Foi ela quem introduziu Cláudia na chamada arte sensorial, ou seja, na busca da representação do figurativo de maneira abstrata.
 
Esse processo inclui um árduo estudo, que exige o conhecimento dos clássicos, como Leonardo da Vinci, aulas de perspectiva, de modelo vivo e de numerosas técnicas plásticas, sempre com o objetivo de atingir uma pintura que trabalhasse acima de tudo, com o sentimento e a psicologia, num esforço de ampla compreensão das forças complementares, como o positivo e o negativo, o masculino e o feminino, e proximidade e a distância.
 
Após seis anos de aula em que aprimora esses conceitos, Cláudia Carvalho partiu para Portugal para ser madrinha de um casamento, mas decide permanecer na Europa para se aprimorar nos caminhos da arte. Encanta-se por Paris, onde reside até hoje, pela língua francesa e pelo desejo de ser uma pintura profissional.
 
Cláudia, aconselhada pela mestra Hedva Megged, obtém informações para cursar a prestigiosa Escola Superior de Belas Artes de Paris. Após uma árdua seleção em quatro etapas, que inclui avaliação dos trabalhos, desenho de modelo vivo e argüição por uma banca, que compara suas cores quentes e a forma de trabalhar a tela com o trabalho de Klimt, a pintora brasileira obtém a aprovação.
 
Os anos de estudo foram de 1989 a 1995, quando recebe o diploma de Artes Plásticas da instituição francesa. 
 
Nesse período de tempo, trabalhou em restaurantes e cuidou de crianças para se manter financeiramente além de participar de numerosas exposições coletivas.
 
Após o diploma, surgiram novas exposições, nos EUA, em Paris e em São Paulo, onde Cláudia obteve pela segunda vez, em 1996 – a primeira foi em 1989 – o Prêmio Acrilex, no Salão de Artes Plásticas Bunkyo, geralmente com trabalhos nos quais explora diversas nuances da natureza.
 
Essa preferência se confirma, nos meses de agosto a setembro de 2001, com a primeira exposição individual de Cláudia no Brasil, intitulada “Eu animo a natureza”, no Espaço Cultural do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, em que as telas apresentam títulos com verbos que transmitem idéias de movimento (Ziguezaguear, Recrear, Eclodir, Espiralar ou Clarear) ou substantivos com conotação semelhante, como Remelexo, Aparição ou Burburinho.
 
Cada uma dessas telas é tratada com a predominância de uma cor. Pode ser vermelho (Eclodir), ocre e marrom(Ziguezaguear), verde (Simbionte) ou amarelo (Recrear, Clarear ou Aparição), tratada com diversas tonalidades. O referente concreto não se perde, mas é diluído em meio a sentimentos e emoções, plenos de sensibilidade.
 
Assim, uma árvore vermelha, como ocorre em Eclodir, surge com todo vigor. Sua seiva escorre pelos troncos e pelos caules e sua imagem se reflete numa espécie de lago. A cor se espalha por toda a tela com grande intensidade, sugerindo até as artérias do corpo humano.
 
Recrear, ao indiciar a presença de uma praia quase vazia com algumas figuras humanas, também aponta para a maneira como Cláudia trabalha as cores, sem exagero, mas com a habilidade e técnicas necessárias para transmitir a solidão e a tranqüilidade da cena, que parece retirada de algum filme europeu.
 
Em contrapartida, o uso do vermelho, marrom ou ocre confere às telas um ar tropical e de explosão da alegria e do viço da natureza estranho à arte européia, mas muito de acordo com a arte e a natureza brasileiras. Ziguezaguear, por exemplo, mostra caminhos que se perdem por uma estrada sombria, com o uso de tonalidades pinceladas que apontam para a importância do movimento e de um estado psicológico de inquietação existencial.
 
Burburinho, por sua vez, inspirada, segundo a pintora, numa pequena queda de água em Visconde de Mauá, RJ, revela uma arte mais próxima ao universo francês, com sutis transparências e a criação de volumes e texturas que aludem ao impressionismo, mas com uma força estética própria da arte latino-americana, seja nas cores mais intensas ou na criação de um certo clima fantástico – quase surreal – mágico e místico.
 
Todas essas conotações são obtidas por Cláudia Carvalho com a técnica do pastel seco, que encontra uma de suas raízes no século XV como forma de realçar retratos desenhados, com Fouquet, mas também foi muito usado, com diversas variantes, no século XVIII, por La Tour, Perronneau e Chardin, assim como por Degas e Redon, entre outros, no século XIX.
 
Essas referências, todavia, não são o essencial do trabalho de Cláudia Carvalho. Sua obra pictórica se alimenta de um certo mistério presente em cada imagem, como ocorre em Aparição, trabalho no qual uma figura solitária aparece em meio à natureza. O vulto chama a atenção do observador e dialoga, solitário, com o ambiente em que se insere, num retrato da solidão do ser humano moderno, imerso na dificuldade de diálogo com o seu semelhante. 
 
Machado de Assis, em sua sabedoria artística, afirmou que “O céu e a terra acabam conciliando-se; eles são quase irmãos gêmeos”. Os trabalhos de Cláudia Carvalho confirmam isso. Nas obras da artista brasileira radicada na França, a intensidade psicológica, emocional e intuitiva brota e ganha a vida a partir de imagens vistas e recriadas da natureza.
 
Com seu talento artístico, expresso na forma de trabalhar as cores em cada tela e nas formas que geralmente não perdem de vista a realidade concreta, trabalhada sempre de maneira próxima ao abstracionismo, ao menos em termos de um conceito psicológico e expressivo, Cláudia Carvalho elimina fronteiras entre céu e mar. Sua busca, como apontava o mestre Machado de Assis, é pela simplicidade da natureza, presente na habilidade de traçar tortuosos caminhos existenciais ou praias quase vazias de pessoas, mas sempre repletas de humanidade.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   
 

 

 

 

 

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"Eclodir"

Pastel,Téc. Mista
70X100 - 2001


Cláldia Carvalho

 

 

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