por Oscar D'Ambrosio


 

 


Claudia Andujar

 

            A fascinação do ateliê

 

Um ateliê é uma das ferramentas do trabalho do artista, assim como uma tela, um pincel, uma tinta ou uma máquina fotográfica. Trata-se de uma forma do indivíduo se expressar e se relacionar com o mundo. A sua localização, luminosidade e movimentação de pessoas não são importantes como interferem na obra que ali é gestada, concebida e realizada. 

Cada espaço, das mais variadas formas, tem uma faceta pública, estabelecendo um diálogo com o outro, seja ele quem for, mais ou menos especializado. É nessa troca com o universo alheio que o crescimento de quem cria e de quem contempla se estabelece e se amplia. Derrubam-se fronteiras e limites em nome do conhecer diferenças.

Ao abrir plasticamente as portas do seu ateliê por meio de fotos, Claudia Andujar introduz ao observador a possibilidade de um olhar renovado sobre o seu trabalho, consagrado principalmente pela maneira consistente como se debruçou sobre a cultura dos índios Yanomami a partir da década de 1970.

Ao trazer o seu mundo para uma sala de exposição somos compelidos a conhecer uma extrema delicadeza, uma interpretação do próprio espaço permeada pela maneira de conceber o universo plástico. Isso a leva por uma jornada que a conduz a colocar uma imagem mal conservada dos pais, no começo do século XX, na Transilvânia, em cumplicidade, como ícone da própria vida.

E essa vida inclui visões do interior do ateliê, além daquelas que partem do íntimo para conquistar a cidade de São Paulo. A vista que tem do 20º andar onde mora é captada por seu olhar diferenciado não como um mero ambiente, mas como uma ponte de interpretação da realidade externa.

O maior encanto das imagens de Claudia, no entanto, está nas veredas que se descortinam dentro do próprio ateliê. Há uma olhar próximo ao impressionismo, no sentido pictórico de desfocar a imagem e captar as nuances mais sutis, e mesmo simbolista no diáfano que as criações da artista comportam.

A vivência e o envolvimento com a Amazônia se fazem muito presentes em homens esculpidos em madeira por um artista do Rio Negro. Claudia foge do óbvio e os apresenta em diversas composições onde eles perdem a sua característica de representação da realidade e ganham uma significação estética, pois cristalizam as relações entre eles e o seu meio – e, acima de tudo, da fotógrafa com esses objetos.

As fotos de Claudia Andujar ajudam a desenvolver a consciência de que um ateliê é um espaço artístico de diálogo, um local em que é preservado o conhecimento oral transmitido de geração para geração. Nesse sentido, as fotos da artista suíça naturalizada brasileira vão além do que ela mesma talvez possa imaginar.

Sua fascinante visão do próprio ateliê revela uma imersão profunda e densa no seu espaço – e o que é mais importante – nela mesma, enquanto detentora e divulgadora de um conhecimento conquistado ao longo de décadas de trabalho e de formação de uma educação plástica essencial para um entendimento mais completo da sua interpretação artística do mundo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 
 

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Fotografia dimensões variáveis 2008

Claudia Andujar

 

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