Clara
Marinho
Rostos
expressivos
Há poucos desafios
tão grandes na atividade artística como a representação de rostos.
Estão sempre ao nosso redor, mas saber como e quando captá-los de
novas maneiras constitui uma arte. Exige, de um lado, conhecimento técnico
e, de outro, sensibilidade.
Entre os
diversos trabalhos da artista plástica Clara Marinho, seus rostos se
destacam. Apresentam deformações, mais ou menos sutis de acordo com
o caso, que revelam personalidades. Surgem assim seres que oscilam
entre o fantasmagórico e o demasiado humano, estabelecendo um mundo
de indagações e de desejo de ver como esses trabalhos funcionam
entre si, por exemplo, se colocados um ao lado do outro.
O grande
desafio de olhar para os quadros da artista é ver como ela consegue
atingir seu resultado plástico de modo a gerar no observador uma
intensa relação com o objeto pintado, desenhado ou esculpido. A
questão é entender, com a maior profundidade possível, o que torna
cada rosto tão fascinante.
A resposta
talvez esteja no desenvolvimento de um raciocínio em que a arte não
está tanto na pessoa que olha, no produtor do trabalho ou
intrinsecamente na obra, mas sim nos elos que são estabelecidos entre
esses participantes do ato de criar e ver uma obra, seja qual for o
seu suporte.
Os
orientais, com sua milenar sabedoria, contam diversas fábulas que
ensinam a olhar com atenção as pequenas pedras que estão no
caminho, já que é fácil não tropeçar nas montanhas. O mesmo vale
para a pintura de Clara. Ela é para ser absorvida muito mais nos
detalhes do que em conjuntos visuais de grande impacto.
É no ato
de olhar cada figura humana que a mágica se realiza. Criados sobre
fundo negro, são um convite exatamente para a fundação de um
pensamento sobre até onde vai o poder humano de desconstruir a própria
imagem. Afinal, os mestres no gênero, ao longo da história da arte,
têm em comum o poder de sempre considerar a pessoa como o ponto de
chegada, ou seja, a imagem criada é o ponto de reflexão para o
observador se envolver com a obra realizada.
Se, por um lado, observar detalhes no trabalho de Clara
constitui algo fundamental para perceber as nuanças das quais se
utiliza; por outro, é necessário lembrar uma outra célebre
narrativa para penetrar melhor em seu trabalho. Trata-se de uma
alegoria que acompanha as obras eternas, que fogem aos modismos.
A narrativa é sobre um rei que deixa ao seu filho um anel
dizendo que, no seu lado interno, há uma mensagem que deve ser lida
em momentos importantes de sua vida. O herdeiro, após obter vitórias
arrasadoras em combates armados, lembrou-se do conselho e viu a
mensagem|: “Tudo passa”.
Anos
depois, ao ter momentos de dificuldades em seu reinado, com pestes e
conflitos internos, mais uma vez, seguiu o conselho do pai. Olhou
novamente no interior do anel e viu a mesma frase, percebendo que ela
o ajudava a relativizar as grandes emoções e todos os excessos.
Os
expressivos rostos de Clara Marinho trazem esse mesmo ensinamento. Não
são objetos de consumo passageiro para serem vistos rapidamente.
Exigem mergulho acurado e construção de um pensamento que ligue o
criador, o observador e a obra num triângulo não marcado pela
pressa, mas pela consistência e o casamento entre as artes do ver, do
fazer, do sentir e do se aperfeiçoar.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da
UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil).