por Oscar D'Ambrosio


 

 


Clara Marinho

 

Rostos expressivos

 

            Há poucos desafios tão grandes na atividade artística como a representação de rostos. Estão sempre ao nosso redor, mas saber como e quando captá-los de novas maneiras constitui uma arte. Exige, de um lado, conhecimento técnico e, de outro, sensibilidade.

            Entre os diversos trabalhos da artista plástica Clara Marinho, seus rostos se destacam. Apresentam deformações, mais ou menos sutis de acordo com o caso, que revelam personalidades. Surgem assim seres que oscilam entre o fantasmagórico e o demasiado humano, estabelecendo um mundo de indagações e de desejo de ver como esses trabalhos funcionam entre si, por exemplo, se colocados um ao lado do outro.

            O grande desafio de olhar para os quadros da artista é ver como ela consegue atingir seu resultado plástico de modo a gerar no observador uma intensa relação com o objeto pintado, desenhado ou esculpido. A questão é entender, com a maior profundidade possível, o que torna cada rosto tão fascinante.

            A resposta talvez esteja no desenvolvimento de um raciocínio em que a arte não está tanto na pessoa que olha, no produtor do trabalho ou intrinsecamente na obra, mas sim nos elos que são estabelecidos entre esses participantes do ato de criar e ver uma obra, seja qual for o seu suporte.

            Os orientais, com sua milenar sabedoria, contam diversas fábulas que ensinam a olhar com atenção as pequenas pedras que estão no caminho, já que é fácil não tropeçar nas montanhas. O mesmo vale para a pintura de Clara. Ela é para ser absorvida muito mais nos detalhes do que em conjuntos visuais de grande impacto.

            É no ato de olhar cada figura humana que a mágica se realiza. Criados sobre fundo negro, são um convite exatamente para a fundação de um pensamento sobre até onde vai o poder humano de desconstruir a própria imagem. Afinal, os mestres no gênero, ao longo da história da arte, têm em comum o poder de sempre considerar a pessoa como o ponto de chegada, ou seja, a imagem criada é o ponto de reflexão para o observador se envolver com a obra realizada.

            Se, por um lado, observar detalhes no trabalho de Clara constitui algo fundamental para perceber as nuanças das quais se utiliza; por outro, é necessário lembrar uma outra célebre narrativa para penetrar melhor em seu trabalho. Trata-se de uma alegoria que acompanha as obras eternas, que fogem aos modismos.

            A narrativa é sobre um rei que deixa ao seu filho um anel dizendo que, no seu lado interno, há uma mensagem que deve ser lida em momentos importantes de sua vida. O herdeiro, após obter vitórias arrasadoras em combates armados, lembrou-se do conselho e viu a mensagem|: “Tudo passa”.

            Anos depois, ao ter momentos de dificuldades em seu reinado, com pestes e conflitos internos, mais uma vez, seguiu o conselho do pai. Olhou novamente no interior do anel e viu a mesma frase, percebendo que ela o ajudava a relativizar as grandes emoções e todos os excessos.

            Os expressivos rostos de Clara Marinho trazem esse mesmo ensinamento. Não são objetos de consumo passageiro para serem vistos rapidamente. Exigem mergulho acurado e construção de um pensamento que ligue o criador, o observador e a obra num triângulo não marcado pela pressa, mas pela consistência e o casamento entre as artes do ver, do fazer, do sentir e do se aperfeiçoar.    

             

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

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Traços I
acrílica sobre tela
71 x 53 cm sem data

Clara Marinho

 

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