Clara Coelho
A reinvenção
do grafismo
A cerâmica
é, sem dúvida, uma forma de expressão visual muito ligada à vida, não
só por ter como base a modelagem de elementos como a terra, mas
principalmente por estar profundamente vinculada ao fogo, no processo
de queima, ao ar, que propicia a combustão, e à água, que permite
manusear a argila.
Enquanto a
somatória desses quatro elementos é responsável pela vida humana, o
talento de cada ceramista funciona como uma quinta variável, uma
quintessência a revelar diferentes níveis de realização estética, mais
próximas de objetos utilitários ou com uma concepção mais voltada para
a arte como elemento vinculado ao belo. Sem uma função socialmente
determinada.
A ceramista
e artista plástica Clara Coelho toma, nos seus trabalhos mais
significativos, como início de cada peça, grafismos corporais
indígenas. Ao levá-los para o universo da cerâmica realiza uma
passagem que envolve tanto conhecimento, principalmente da técnica
japonesa do Raku, que se vale do efeito obtido pela fumaça de galhos,
folhas, papel e serragem de madeira para finalizar as peças, como de
intuição e sensibilidade.
As imagens
do corpo vão para cerâmica, ganhando um novo sentido. Não se trata de
pesquisa antropológica, mas de apropriação plástica de elementos
culturais de povos indígenas para obter variados resultados, unidos
pela precisão do fazer e por uma progressiva liberdade na forma de
composição.
Um grafismo
corporal indígena ao ser levado para um objeto cerâmico e escultórico
perde seu caráter ritualístico e ganha uma dimensão artística e
plástica sedutora. A forma ganha novo significado e o sentido ritual
deixa espaço para a concepção visual. Quando isso acontece, a arte de
Clara Coelho se ilumina.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP,
integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA – Seção
Brasil)