Cirton Genaro
A pintura visceral
O autêntico artista plástico torna cada quadro que
realiza um significativo, único e contundente manifesto de si
mesmo. Cada tela é uma proposta estética repleta da verdade do
artista, de seus valores, temas e da sua capacidade técnica de
materializar uma poética. O mundo pictórico de Cirton Genaro,
nessa perspectiva, oferece uma excelente pista na imagem
Acorrentado.
Um
homem de meia-idade – provavelmente o próprio artista – é
mostrado com grilhões nos pulsos. Preso a um poste, similar aos
que ficam no canteiro central da Av. Paulista, em São Paulo, SP,
tem as plantas dos pés apoiadas, à direita e à esquerda, em faróis
de trânsito posicionados olhando para as laterais, De frente para
o observador, está uma placa de trânsito, indicando “Siga”.
Parece
estar aí o resumo imagético de uma carreira artística. O
artista está preso à modernidade, à qual se integra, mas que
também o fere pelas suas injustiças. Mesmo assim, encontra forças
para seguir em frente, com a convicção de que ele possui, em seu
trabalho, uma arma para a própria sobrevivência e da sociedade
como um todo.
A alusão
ao titã Prometeu da mitologia grega não é arbitrária. O célebre
personagem foi acorrentado no Monte Cáucaso por ter roubado o
fogo dos deuses, ou seja, a inteligência, a capacidade de criar.
Analogamente, o artista contemporâneo passa pelo
mesmo dilema. Vive acorrentado pela dificuldade que tem, na
sociedade que nos cabe existir, de praticar o seu poder demiúrgico
– e (sobre) viver dele.
Perante uma realidade que acorrenta, Genaro escapa das mais
variadas formas. Uma delas é o desenho. Ele é capaz de criar,
como ocorre em Fim de tarde, junto à imagem do mesmo poste de trânsito
– que aparece também estilizado na tela Totem – um homem com
ar de tédio sentado numa cadeira fumando.
Quem
contempla a cena é um imenso réptil. A inverossímil mescla
entre o personagem urbano e o animal instaura um clima onírico,
próprio do surrealismo. Algo semelhante pode ser verificado em
outro desenho, no qual surge uma senhora de cabelos brancos,
realizados com primor técnico, engolindo um sapo. Seus olhos
esbugalhados transmitem uma – por incrível que pareça –
fascinante mescla de pavor e surpresa.
Ao
lado dessa faceta de desenhista, com imagens muitas vezes levadas
posteriormente para as telas,
Genaro apresenta um exímio talento como colorista. Com uma
experiência de mais de duas décadas como professor do Liceu de
Artes e Ofícios do Estado de São Paulo, atinge resultados
altamente expressivos. Em trabalhos como Verde, por exemplo, não
há frieza técnica, mas uma vigorosa humanidade. O fundo infinito
preto – uma técnica muito utilizada no barroco – é usado
para ressaltar as diversas tonalidades de verde da blusa da moça
retratada.
Genaro,
embora cosmopolita, como mostram seus faróis paulistanos, nasceu
em Martinópolis, interior do Estado de São Paulo, em 1947,
estudou pintura no ateliê do artista checo Jorge Kopecny, entre
1965 e 1968, e formou-se, em 1970, em Ciências Sociais na
Faculdade de Ciências e Letras de Presidente Prudente, então um
Instituto Isolado de Ensino Superior do Estado de São Paulo.
Justamente
por ter vivido anos na região Oeste do Estado, caracterizada pelo
predomínio da criação de gado como atividade econômica, Genaro
tem na presença de bois uma marca registrada, principalmente na série
em que touros premiados aparecem com imagens surpreendentes no
lombo, como Nossa Senhora Aparecida, Rômulo e Remo – os míticos
irmãos fundadores de Roma – ou um fazendeiro de binóculos a
vigiar com zelo (ou contemplar com orgulho?) a sua criação.
As
referências ao mundo do interior também podem ser observadas em
João-de- barro, em que a figura do caipira surge renovada, como o
ser interiorano tendo sobre o chapéu de palha, ninhos do
mencionado pássaro, traspassados por garfos, facas e até mesmo
pasta e escova de dentes. O caipira propriamente dito surge ainda
numa recriação do célebre quadro de Almeida Junior de uma
figura típica do interior picando fumo.
Nessas
telas, Genaro mostra toda a delicadeza de um artista consciente do
seu ofício e do domínio que tem sobre as cores e tonalidades.
Isso é mostrado em imagens como Outono – com destaque para as
nuanças de marrom e para o trabalho de transparências nas pregas
da saia da mulher retratada – e naquelas em que ele trata da infância,
mostrando crianças em tons pastel, alusão à ingenuidade e
delicadeza própria dessa faixa etária.
Mesmo
talento está evidenciado em Ana Maria, imagem com diversos
elementos surrealistas, como as portas semi-abertas que tanto
agradavam a Salvador Dali e a Magritte. A figura homenageada, em
sua postura majestosa e interrogativa, traz à mente, sem
pestanejar, a
venerada Gala do mestre espanhol.
Aliás,
Dali já dizia que todo ser humano se parecia, de uma maneira ou
de outra, com algum animal. Haveria inclusive uma correspondência
de almas, de temperamentos e de atitudes. Genaro concretiza essa
visão em Grupo, no qual homens engravatados e mulheres com
elegantes vestidos, colar de pérolas e até crucifixo surgem com
rostos de porcos, abutres, hienas e outros animais.
Como
ilustrador, Genaro fez capas de publicações como a revista Veja
e, para a Playboy, realizou pinturas corporais em modelos que, em
seguida, eram fotografadas. Dentro de suas faceta de desenhista,
ele desenvolveu, durante oito anos, parceria com o biólogo Paulo
Vanzolini junto ao Museu de Zoologia da USP, registrando animais
sempre de maneira interpretativa. Isso significa unir a representação
científica a situações imaginadas. Fidelidade à realidade e à
arte caminharam, nessa atividade, em consonância, dando a Genaro
a oportunidade de ser, à sua maneira, atento e criativo no ato de
trabalhar com a fauna nacional.
Genaro,
além desse tipo de trabalho, apresenta telas de aguda crítica
social, como na imagem intitulada Poderoso, em que um homem de
terno branco com o rosto parcialmente coberto por um lenço
vermelho ganha força perante um fundo de intenso colorido, com
manchas de grande espontaneidade pictórica. A imagem, que parece
saída de um dos filmes da série O poderoso chefão, consegue,
com poucos elementos, levar o observador a pensar o que significa
o poder.
Maria
das panelas vazias, por sua vez, já realiza uma denúncia mais
direta da massa de excluídos do País. A tela, predominantemente
escura, ganha em vigor estético justamente pela presença, na
extremidade direita, de uma tampa de panela azul. O detalhe
torna-se essencial na composição que conta com uma menina pobre,
com um pano envolvendo a cabeça, sentada sobre uma panela,
acompanhada apenas de um gato que sobressai sobre um muro
semi-destruído, talvez uma metáfora de uma sociedade em ruínas
que necessita de uma reconstrução.
Mesmo
quando a temática é social, Genaro não sucumbe ao tom apelativo
ou a soluções fáceis. Excluído é um bom exemplo disso. A
morte de um marginal à sociedade é retratada com crueldade, mas
o fundo da tela, num colorido intenso, estabelece uma atmosfera
fascinante, de modo que a arte vence – e o que poderia ser mera
crítica se torna um trabalho de elevada densidade estética.
Algo
semelhante acontece com as obras em que o artista se debruça
sobre favelas. As moradias pobres ganham as telas com rigor técnico
e com constantes alusões ao trabalho abstrato do pintor holandês
Mondrian. A estrutura de uma ou mais casas segue padrões formais
marcados pela justaposição de cores puras e linhas retas,
obrigando o observador a refletir sobre a realidade social
denunciada e também sobre a capacidade de Genaro de dialogar com
a história da arte perante as mais diversas temáticas, mesmo
aquelas que não parecem, num primeiro momento, ideais para uma
reflexão metalingüística.
A
criatividade de Genaro está muitas vezes associada à ousadia, É
o que ocorre quando toma a célebre tela Rosa e azul, de Renoir, e
transforma as meninas virginais do mestre francês em Meninas da
noite. Ludismo, surpresa e capacidade técnica se juntam nesse e
em outros trabalhos, que receberam elogios de críticos como Jacob
Klintowitz, Mario Schemberg e Paulo de Almeida, além do pintor
Octavio Araújo, um dos mestres do surrealismo brasileiro.
Cirton
Genaro desafia a própria criatividade e o conhecimento técnico e
de história da arte em cada tela. Feito Prometeu, apropriou-se da
capacidade de oferecer novos desafios ao observador de seus
quadros. Se o titã foi salvo pelos braços do poderoso Hércules,
o pintor paulista escapa da sociedade que critica pelo exercício
cotidiano de realizar cada trabalho com a espontaneidade do
primeiro. Assim, não corre o risco de ser consumido pela ameaçadora
águia da mesmice, mantendo-se fiel ao seu princípio de buscar
constantemente soluções surpreendentes em termos temáticos,
estilísticos e técnicos. Consegue assim concretizar uma pintura
visceral, que o mantém livre, ativo e criativo.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de
Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e a Associação
Brasileira de Críticos de Arte (ABCA). É autor de Contando a
arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa
Oficial do Estado de São Paulo).