por Oscar D'Ambrosio


 

 


Cirton Genaro

 

            A pintura visceral

 

            O autêntico artista plástico torna cada quadro que realiza um significativo, único e contundente manifesto de si mesmo. Cada tela é uma proposta estética repleta da verdade do artista, de seus valores, temas e da sua capacidade técnica de materializar uma poética. O mundo pictórico de Cirton Genaro, nessa perspectiva, oferece uma excelente pista na imagem Acorrentado.

Um homem de meia-idade – provavelmente o próprio artista – é mostrado com grilhões nos pulsos. Preso a um poste, similar aos que ficam no canteiro central da Av. Paulista, em São Paulo, SP, tem as plantas dos pés apoiadas, à direita e à esquerda, em faróis de trânsito posicionados olhando para as laterais, De frente para o observador, está uma placa de trânsito, indicando “Siga”.

            Parece estar aí o resumo imagético de uma carreira artística. O artista está preso à modernidade, à qual se integra, mas que também o fere pelas suas injustiças. Mesmo assim, encontra forças para seguir em frente, com a convicção de que ele possui, em seu trabalho, uma arma para a própria sobrevivência e da sociedade como um todo.

            A alusão ao titã Prometeu da mitologia grega não é arbitrária. O célebre personagem foi acorrentado no Monte Cáucaso por ter roubado o fogo dos deuses, ou seja, a inteligência, a capacidade de criar. Analogamente, o artista contemporâneo passa pelo  mesmo dilema. Vive acorrentado pela dificuldade que tem, na sociedade que nos cabe existir, de praticar o seu poder demiúrgico  – e (sobre) viver dele.

            Perante uma realidade que acorrenta, Genaro escapa das mais variadas formas. Uma delas é o desenho. Ele é capaz de criar, como ocorre em Fim de tarde, junto à imagem do mesmo poste de trânsito – que aparece também estilizado na tela Totem – um homem com ar de tédio sentado numa cadeira fumando.

Quem contempla a cena é um imenso réptil. A inverossímil mescla entre o personagem urbano e o animal instaura um clima onírico, próprio do surrealismo. Algo semelhante pode ser verificado em outro desenho, no qual surge uma senhora de cabelos brancos, realizados com primor técnico, engolindo um sapo. Seus olhos esbugalhados transmitem uma – por incrível que pareça – fascinante mescla de pavor e surpresa.

Ao lado dessa faceta de desenhista, com imagens muitas vezes levadas posteriormente para as telas,             Genaro apresenta um exímio talento como colorista. Com uma experiência de mais de duas décadas como professor do Liceu de Artes e Ofícios do Estado de São Paulo, atinge resultados altamente expressivos. Em trabalhos como Verde, por exemplo, não há frieza técnica, mas uma vigorosa humanidade. O fundo infinito preto – uma técnica muito utilizada no barroco – é usado para ressaltar as diversas tonalidades de verde da blusa da moça retratada.

            Genaro, embora cosmopolita, como mostram seus faróis paulistanos, nasceu em Martinópolis, interior do Estado de São Paulo, em 1947, estudou pintura no ateliê do artista checo Jorge Kopecny, entre 1965 e 1968, e formou-se, em 1970, em Ciências Sociais na Faculdade de Ciências e Letras de Presidente Prudente, então um Instituto Isolado de Ensino Superior do Estado de São Paulo.

Justamente por ter vivido anos na região Oeste do Estado, caracterizada pelo predomínio da criação de gado como atividade econômica, Genaro tem na presença de bois uma marca registrada, principalmente na série em que touros premiados aparecem com imagens surpreendentes no lombo, como Nossa Senhora Aparecida, Rômulo e Remo – os míticos irmãos fundadores de Roma – ou um fazendeiro de binóculos a vigiar com zelo (ou contemplar com orgulho?) a sua criação.

As referências ao mundo do interior também podem ser observadas em João-de- barro, em que a figura do caipira surge renovada, como o ser interiorano tendo sobre o chapéu de palha, ninhos do mencionado pássaro, traspassados por garfos, facas e até mesmo pasta e escova de dentes. O caipira propriamente dito surge ainda numa recriação do célebre quadro de Almeida Junior de uma figura típica do interior picando fumo.

Nessas telas, Genaro mostra toda a delicadeza de um artista consciente do seu ofício e do domínio que tem sobre as cores e tonalidades. Isso é mostrado em imagens como Outono – com destaque para as nuanças de marrom e para o trabalho de transparências nas pregas da saia da mulher retratada – e naquelas em que ele trata da infância, mostrando crianças em tons pastel, alusão à ingenuidade e delicadeza própria dessa faixa etária.

Mesmo talento está evidenciado em Ana Maria, imagem com diversos elementos surrealistas, como as portas semi-abertas que tanto agradavam a Salvador Dali e a Magritte. A figura homenageada, em sua postura majestosa e interrogativa, traz à mente, sem pestanejar,  a venerada Gala do mestre espanhol.

Aliás, Dali já dizia que todo ser humano se parecia, de uma maneira ou de outra, com algum animal. Haveria inclusive uma correspondência de almas, de temperamentos e de atitudes. Genaro concretiza essa visão em Grupo, no qual homens engravatados e mulheres com elegantes vestidos, colar de pérolas e até crucifixo surgem com rostos de porcos, abutres, hienas e outros animais.

Como ilustrador, Genaro fez capas de publicações como a revista Veja e, para a Playboy, realizou pinturas corporais em modelos que, em seguida, eram fotografadas. Dentro de suas faceta de desenhista, ele desenvolveu, durante oito anos, parceria com o biólogo Paulo Vanzolini junto ao Museu de Zoologia da USP, registrando animais sempre de maneira interpretativa. Isso significa unir a representação científica a situações imaginadas. Fidelidade à realidade e à arte caminharam, nessa atividade, em consonância, dando a Genaro a oportunidade de ser, à sua maneira, atento e criativo no ato de trabalhar com a fauna nacional.

Genaro, além desse tipo de trabalho, apresenta telas de aguda crítica social, como na imagem intitulada Poderoso, em que um homem de terno branco com o rosto parcialmente coberto por um lenço vermelho ganha força perante um fundo de intenso colorido, com manchas de grande espontaneidade pictórica. A imagem, que parece saída de um dos filmes da série O poderoso chefão, consegue, com poucos elementos, levar o observador a pensar o que significa o poder.

Maria das panelas vazias, por sua vez, já realiza uma denúncia mais direta da massa de excluídos do País. A tela, predominantemente escura, ganha em vigor estético justamente pela presença, na extremidade direita, de uma tampa de panela azul. O detalhe torna-se essencial na composição que conta com uma menina pobre, com um pano envolvendo a cabeça, sentada sobre uma panela, acompanhada apenas de um gato que sobressai sobre um muro semi-destruído, talvez uma metáfora de uma sociedade em ruínas que necessita de uma reconstrução.

Mesmo quando a temática é social, Genaro não sucumbe ao tom apelativo ou a soluções fáceis. Excluído é um bom exemplo disso. A morte de um marginal à sociedade é retratada com crueldade, mas o fundo da tela, num colorido intenso, estabelece uma atmosfera fascinante, de modo que a arte vence – e o que poderia ser mera crítica se torna um trabalho de elevada densidade estética.

Algo semelhante acontece com as obras em que o artista se debruça sobre favelas. As moradias pobres ganham as telas com rigor técnico e com constantes alusões ao trabalho abstrato do pintor holandês Mondrian. A estrutura de uma ou mais casas segue padrões formais marcados pela justaposição de cores puras e linhas retas, obrigando o observador a refletir sobre a realidade social denunciada e também sobre a capacidade de Genaro de dialogar com a história da arte perante as mais diversas temáticas, mesmo aquelas que não parecem, num primeiro momento, ideais para uma reflexão metalingüística.

A criatividade de Genaro está muitas vezes associada à ousadia, É o que ocorre quando toma a célebre tela Rosa e azul, de Renoir, e transforma as meninas virginais do mestre francês em Meninas da noite. Ludismo, surpresa e capacidade técnica se juntam nesse e em outros trabalhos, que receberam elogios de críticos como Jacob Klintowitz, Mario Schemberg e Paulo de Almeida, além do pintor Octavio Araújo, um dos mestres do surrealismo brasileiro.

Cirton Genaro desafia a própria criatividade e o conhecimento técnico e de história da arte em cada tela. Feito Prometeu, apropriou-se da capacidade de oferecer novos desafios ao observador de seus quadros. Se o titã foi salvo pelos braços do poderoso Hércules, o pintor paulista escapa da sociedade que critica pelo exercício cotidiano de realizar cada trabalho com a espontaneidade do primeiro. Assim, não corre o risco de ser consumido pela ameaçadora águia da mesmice, mantendo-se fiel ao seu princípio de buscar constantemente soluções surpreendentes em termos temáticos, estilísticos e técnicos. Consegue assim concretizar uma pintura visceral, que o mantém livre, ativo e criativo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA). É autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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 João-de-barro 

óleo sobre tela/madeira - 56x40 cm - 1991

Cirton Genaro

 

 

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