Cipriano
Souza
A arte de narrar
A retomada das próprias
raízes é um dos principais caminhos do artista. A autenticidade
naquilo que ele representa visualmente constitui um caminho seguro
para a construção de
uma obra plástica significativa, em que mais importante do que a
aceitação de mercado seja o compromisso com a construção de um
universo coeso, marcado por uma linguagem diferenciada.
Nascido em
6 de novembro de 1970, no Arraial de São Domingos, município de
Manoel Vitorino, no sertão do Estado da Bahia, Cipriano Souza
apresenta uma obra com várias ramificações, sendo a mais avançada
atualmente a da pintura, mas com incursões densas na apropriação de
projetos.
Especificamente
quanto aos trabalhos em tela, há uma intensa linguagem de colorista,
talvez oriunda do próprio universo da cultura popular da Bahia, em
que as cores gritam aos olhos, não dando espaços aos tons medianos.
As pinturas surgem como colchas de retalhos das mais variadas cenas,
algumas, às vezes, em preto e branco, alusão ao trabalho de desenho
do artista e com fortes evocações a uma das principais linguagens
visuais do Nordeste: a xilogravura.
A divisão
em áreas se torna mais rica quando os elos entre cada região são
marcados por pontilhismos extremamente detalhados. Surgem assim
caminhos, veredas de cor que fazem passagens entre criações imaginárias
que se multiplicam como uma cascata de memórias.
Os
melhores momentos da obra de Cipriano estão nos instantes em que seu
trabalho parece uma colcha de retalhos de chita. A intensidade de cada
imagem conquista por dois fatores: a força da cor e o poder narrativo
que cada tela sugere. Há ali a força de comunicar um sentimento
perante o mundo, inclusive com imagens recorrentes, como as de relógios.
O
arrefecimento dessa força vital indica a transição, talvez, para um
mundo de novas conotações, talvez não melhor que o das raízes
nordestinas, mas certamente diferente. O essencial é conceber cada
quadro como um depoimento perante o mundo. Não se trata apenas de uma
obra, mas de uma resposta pessoal, única e intransferível em seu
sentido mais profundo.
Há, no
entanto, outras manifestações de grande valor. Uma delas está na assemblage
de objetos e na construção de outros, com pregos, madeira e outros
materiais do cotidiano. Eles expressam uma visão de mundo
caracterizada pela libertação da dor do existir por meio da arte.
Não se
trata, no entanto, de ver arte
de Cipriano como terapia, mas como resultado de uma necessidade
existencial. Criar, para ele, é um exercício constante, expresso,
por exemplo, em pequenos aviões, feitos a partir de elementos do
cotidiano, e numa série de garrafas de diversos formatos, respeitadas
em sua parte externa, mas recheadas com imagens de santos e numerosos
objetos de todo tipo.
As
imagens, principalmente aquelas que têm no trato colorístico seu
aspecto essencial, propiciam o revisitar das raízes nordestinas do
artista. Com sua visão de mundo peculiar, em que as narrativas
numerosas narrativas se cruzam e se encontram em diversos pontos, às
vezes com o auxílio de pequenos personagens, chamados de Uakitis.
Trata-se
de uma homenagem a uma lenda dos índios tucano, da Amazônia,
sobre um ser enorme
que tinha o corpo aberto em buracos. Quando ele corria pela floresta,
o vento, passando por eles, produzia sons belíssimos, incomuns e
envolventes. O pintor, com esse relato na cabeça, estabelece um
universo com um estilo bem pessoal.
Cipriano
Souza apresenta uma obra imagética marcada, acima de tudo, pelo
desejo de criar. Muito mais que um artista voltado para a necessidade
de galerias, está comprometido com ele mesmo, com sua relação com o
mundo, mediada por telas e objetos em que os caminhos da cor
constituem os passos para a concretização visual de um rico mundo de
narrativas pessoais.
Oscar
D’Ambrosio, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade
Estadual Paulista (Unesp/São Paulo/Brasil), integra a Associação
Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).