por Oscar D'Ambrosio


 

 


Cipriano Souza

 

            A arte de narrar

 

            A retomada das próprias raízes é um dos principais caminhos do artista. A autenticidade naquilo que ele representa visualmente constitui um caminho seguro para  a construção de uma obra plástica significativa, em que mais importante do que a aceitação de mercado seja o compromisso com a construção de um universo coeso, marcado por uma linguagem diferenciada.

            Nascido em 6 de novembro de 1970, no Arraial de São Domingos, município de Manoel Vitorino, no sertão do Estado da Bahia, Cipriano Souza apresenta uma obra com várias ramificações, sendo a mais avançada atualmente a da pintura, mas com incursões densas na apropriação de projetos.

            Especificamente quanto aos trabalhos em tela, há uma intensa linguagem de colorista, talvez oriunda do próprio universo da cultura popular da Bahia, em que as cores gritam aos olhos, não dando espaços aos tons medianos. As pinturas surgem como colchas de retalhos das mais variadas cenas, algumas, às vezes, em preto e branco, alusão ao trabalho de desenho do artista e com fortes evocações a uma das principais linguagens visuais do Nordeste: a xilogravura.

            A divisão em áreas se torna mais rica quando os elos entre cada região são marcados por pontilhismos extremamente detalhados. Surgem assim caminhos, veredas de cor que fazem passagens entre criações imaginárias que se multiplicam como uma cascata de memórias.

            Os melhores momentos da obra de Cipriano estão nos instantes em que seu trabalho parece uma colcha de retalhos de chita. A intensidade de cada imagem conquista por dois fatores: a força da cor e o poder narrativo que cada tela sugere. Há ali a força de comunicar um sentimento perante o mundo, inclusive com imagens recorrentes, como as de relógios.

            O arrefecimento dessa força vital indica a transição, talvez, para um mundo de novas conotações, talvez não melhor que o das raízes nordestinas, mas certamente diferente. O essencial é conceber cada quadro como um depoimento perante o mundo. Não se trata apenas de uma obra, mas de uma resposta pessoal, única e intransferível em seu sentido mais profundo.

            Há, no entanto, outras manifestações de grande valor. Uma delas está na assemblage de objetos e na construção de outros, com pregos, madeira e outros materiais do cotidiano. Eles expressam uma visão de mundo caracterizada pela libertação da dor do existir por meio da arte.

            Não se trata, no entanto, de ver  arte de Cipriano como terapia, mas como resultado de uma necessidade existencial. Criar, para ele, é um exercício constante, expresso, por exemplo, em pequenos aviões, feitos a partir de elementos do cotidiano, e numa série de garrafas de diversos formatos, respeitadas em sua parte externa, mas recheadas com imagens de santos e numerosos objetos de todo tipo.

            As imagens, principalmente aquelas que têm no trato colorístico seu aspecto essencial, propiciam o revisitar das raízes nordestinas do artista. Com sua visão de mundo peculiar, em que as narrativas numerosas narrativas se cruzam e se encontram em diversos pontos, às vezes com o auxílio de pequenos personagens, chamados de Uakitis.

Trata-se de uma homenagem a uma lenda dos índios tucano, da Amazônia,  sobre um ser enorme que tinha o corpo aberto em buracos. Quando ele corria pela floresta, o vento, passando por eles, produzia sons belíssimos, incomuns e envolventes. O pintor, com esse relato na cabeça, estabelece um universo com um estilo bem pessoal.

Cipriano Souza apresenta uma obra imagética marcada, acima de tudo, pelo desejo de criar. Muito mais que um artista voltado para a necessidade de galerias, está comprometido com ele mesmo, com sua relação com o mundo, mediada por telas e objetos em que os caminhos da cor constituem os passos para a concretização visual de um rico mundo de narrativas pessoais.

           

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp/São Paulo/Brasil), integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

 
 

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 Ajusteur 
acrílica sobre tela 200x150 cm 2006

Cipriano Souza

 

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