por Oscar D'Ambrosio


 

 


Cinco qualidades para ver a arte

 

O poeta português Fernando Pessoa, na “Nota Preliminar” de seu célebre livro Mensagem, aponta que “o entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.”

Um exercício semelhante pode ser praticado a partir dos trabalhos de Claudia de Toledo, Dani Noronha e Paula Ordonhes. Cada uma, com uma poética a ser desenvolvida, estabelece um mergulho em universos visuais distintos, mas unidos por alguns elementos que lhes permitem colocar obras lado a lado, principalmente pelo fato de atuarem visualmente com diversas técnicas sobre o papel.

            A primeira qualidade que Pessoa aponta é a simpatia. Ele a considera a mais simples e consiste no observador  “sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar”. Para cada artista, isso funciona de uma forma. Claudia tem no olhar atento, que as formas orgânicas propiciam, o seu elemento motivador, enquanto Dani e Paula, respectivamente, concentram seu olhar, preferencialmente, sobre os interiores da própria residência e sobre os espaços arquitetônicos.

            Pessoa aponta como segunda qualidade a intuição, que define como “aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja”. As artistas, na faixa dos 30 anos, utilizam elementos que remetem a ricos universos: Claudia, às formas prontas da natureza prestes a encontrar intérpretes;  Dani, ao cotidiano muitas vezes mal percebido pela pressa de nossa civilização; e Paula, à busca pelo essencial de tudo aquilo que nos cerca, seja ambiente, animal ou ser humano.

            A terceira qualidade é a inteligência. Ela “analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo”. Cria-se aqui um desafio maior, pois esta habilidade decorre das duas  primeiras. Claudia nos faz perceber que deixar o que vemos se expressar pelo seu traço é uma sabedoria, assim como Dani auxilia a ver próximos elementos que parecem distantes, e Paula retira tudo aquilo que impede que a nossa visão seja mais clara e límpida.

            Compreensão é a quarta qualidade considerada por Pessoa. Definida como “o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo”. Não se trata da procura de uma síntese ou da soma do fazer de um artista, mas do entendimento de como a sua mente funciona na articulação de significados.

            Claudia vê nos arabescos presentes na natureza, nas cores que funcionam como estampas à procura de um olhar atento e nos silêncios que cercam cada trabalho uma maneira de se relacionar com o mundo. Dani prefere o preenchimento do papel e gradualmente tende a deixar as figuras a falarem por si mesmas; e Paula, seu outro lado plástico, subtrai do que vê quase tudo, deixando, no papel e nos espaços em branco, mapas cartográficos mínimos de cada imagem registrada em sua mente.  

            A quinta qualidade pessoana é, segundo ele mesmo, “a menos definível”. Chama-a de “graça”, “mão do Superior Incógnito” ou “Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda”. Não a explica, mas se faz entender. É aquele algo a mais que exige as qualidades anteriores e parece separar o artista do artesão e o criador de imagens do mero reprodutor de conceitos.

Claudia consegue ver um mundo de curvas dentro das flores e peles de peixe que passa despercebido a maioria das pessoas. Dani desenvolve a capacidade de conhecer o seu entorno como se o visse pela primeira vez a cada instante, e Paula parece tornar o mundo simples pelo poder de enxergar nele apenas o que interessa enquanto elemento estrutural essencial.

São três artistas que, com simpatia, intuição, inteligência, compreensão e graça, expõem sua interpretação do mundo. Observam, decompõem e recompõem, num processo plástico em que nada é o que parece ser, simplesmente porque é transformado pelo poder do pensamento e a habilidade das mãos. Assim, o papel ganha vida e universos plásticos pessoais são criados, cada um com autonomia, símbolos e traços próprios.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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