por Oscar D'Ambrosio


 

 



María Teresa "Chatita" Palisa

A poeta das tintas

O poeta lírico grego Simônides de Ceos (556 – 467 a. C.) disse que "a pintura é poesia muda; e a poesia é uma pintura falante". É justamente essa a impressão que se tem ao observar os quadros da pintora argentina María Teresa "Chatita" Palisa. Seus personagens, geralmente pequenos no conjunto da tela, despertam no espectador intenso carinho e emotividade.

Nascida em 15 de janeiro de 1930, em San Miguel de Tucumán, província de Tucumán, Argentina, María Teresa Palisa herdou o apelido de "Chatita", da avô, a quem chamam de "Chata" ("nariz pequena", em espanhol). Por ser parecida com ela, começaram a chamá-la assim desde a infância e a carinhosa denominação permanece até hoje.

Após o casamento, em 1947, Palisa mudou para Buenos Aires. Até então, não mantinha nenhuma relação com a pintura. Em julho de 1979, sua vida mudou radical e bruscamente. Ela sofreu um derrame cerebral que a deixou paralisada do lado direito. Necessitou então reeducar o lado esquerdo do corpo, reaprendendo a ler e a escrever.

Foi por recomendação de sua psiquiatra que "Chatita" começou a pintar. Seria uma forma de canalizar a ansiedade que provocava todo esse processo de reaprendizagem. Com a ajuda da filha Tessy, professora de arte, Palisa começou então a dar seus primeiros passos com tintas e pincéis. Nesse processo, descobriu a paixão de sua vida.

Em 1985, após o falecimento do marido, María retornou para Tucumán, onde estudou com artistas respeitados na região, como Florencia Ortiz Mayor, Agustín Delacroix e Luís Lobo de la Vega; além, de mais recentemente, Ernesto Dumit. Nesse processo de aperfeiçoamento da própria técnica, começou a participar com constância de exposições coletivas e individuais, como a exposição realizada em França com motivo da Copa Mundial de Futebol de 1998. sendo ainda membro do Museu Austral Naïf de Chubut, Argentina.

        "Chatita", ao observar seu próprio trabalho, verifica que ele se nutre de imagens cotidianas. "Elas provêm da cidade que transita em frente à sua varanda, de lembranças de sua própria história e de fantasias que aparecem como explosões de cores", afirma. "Sofro ainda influência das imagens que vi no Museu Naïf da Holanda, que visitei diversas vezes, quando meu filho se mudou para lá. Também percorri diversos países da Europa, onde apreciei a arte na França, Bélgica e Inglaterra."

As pinturas de "Chatita" apresentam a predominância do vermelho, laranja e preto em tons intensos. "Pinto mulheres fofocando na rua ou vagabundos fumando. Em quase todos meus quadros, caminha um personagem magro com um livro, o poeta, imagem recorrente por quem tenho um carinho especial", confessa.

        Na tela El poeta, é possível conhecer esse ícone da produção artística de "Chatita". Com um chapéu largo e uma bengala caminha, na ótica da pintora, em uma perspectiva muito maior que uma carroça puxada por força humana. Predomina, no quadro, a horizontalidade, com um céu manchado de vermelho e azul e a cidade logo embaixo, nos mesmos tons. A pintura, como a maioria das realizadas pela artista argentina, conquista pela delicadeza e simplicidade.

        Em La artista, surge uma moça vestida de branco com um pincel na mão esquerda e uma paleta na direita . Ela está em frente a uma tela vermelha de pequenas dimensões e um cavalete preto que a sustenta. Na parte superior uma meia lua e a paisagem linear de prédios de uma cidade. A imagem é sutil e metalingüística, podendo ser lida como uma alegoria autobiográfica, já que a pintora trabalha com essa mão ou como uma apologia da prática artística entre os jovens como forma de manter a saudade mental em dia.

        Já Niños de la calle, obra de pequenas dimensões, é inspirada pelo trabalho realizado na Fundação de Ajuda à Infância (Fai), voltada para o ensino de arte a crianças de rua. A tela constitui um painel da realidade que "Chatita" conhece muito bem devido ao seu trabalho na instituição.

Crianças jogando futebol no centro do quadro e numerosas cenas em torno, são permeadas por tons de amarelo, com crianças vestindo camisas vermelhas e azuis. Como a miséria das crianças de rua é universal, o trabalho comove numa simples olhada, retratando uma realidade extremamente penosa nos países latino-americanos.

        Doada à coleção permanente do Museu da Criança, em Tennesse, EUA, Niños perdidos en la selva mostra um casal em meio uma exuberante floresta, numa cena que evoca as imagens fantásticas criadas por Rousseau. Contorcidas, as figuras não chegam a ser fantasmagóricas e pequenos macacos e flores gigantes ajudam a compor um cosmos indagador. Folhas amarelas auxiliam a compor esse universo pleno de mistério, em que a temática das selvas latino-americanas é trabalhada, com pinceladas largas, de maneira muito pessoal, próxima ao expressionismo.

        El gran sombrero, exibida no Senado da Nação, é dividida em planos horizontais. Na parte superior, surge o céu, em linhas rosa, laranja e violeta. Em seguida, as casas e lojas; entre elas, ao centro, a que intitula o quadro. Descendo, vê-se a calçada, com uma dezena de transeuntes, caminhando. Na parte inferior, dois carros antigos e uma carroça puxada por um homem. As desproporções notórias, típicas da arte naïf, seguem a imaginação da artista, tanto no diálogo entre a calçada e a rua como entre as pessoas e os carros.

        "Chatita" conta ainda alguns detalhes sobre seu processo de criação. "No outro dia, reparei num homem que puxava uma carroça na que vendia verduras. O curioso é que usava um guarda-chuva como se fosse uma sombrinha. Ao vê-lo, peguei um papel e lápis e fiz um esboço, que logo transformarei num quadro", narra.

        A artista descreve com singeleza sua devoção àquilo que faz. "Amo meus pequeninos. As personagens que surgem de minha paleta representam cenas da realidade. São como poemas que emergem da cor e pintam a vida quotidiana. O movimento da Plaza Urquiza, os jogos na rua, os passeios noturnos e o poeta convocam cores numa atmosfera intimista. Eles posam sem perceber e me presenteiam um instante de sua existência cotidiana para que eu possa expressar meu amor pela vida", declara. "O sol nasce para todos; a menos que nos escondamos na própria sombra."

        De acordo com o pensamento de Simônides de que a pintura é poesia muda, as telas de María "Chatita" Palisa remetem ao que há de melhor em literatura que encanta adultos e crianças, como os irmãos Andersen, a argentina María Elena Walsh e a brasileira Maria Clara Machado. Nos seus quadros, há a sutil sensibilidade que propicia um mergulho delicado em personagens pequenos, mas que parecem ter o poder de transformar o mundo.

         

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).      

 
 

 

 

 

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