María Teresa "Chatita" Palisa
A poeta das tintas
O poeta lírico grego Simônides de
Ceos (556 – 467 a. C.) disse que "a pintura é poesia muda;
e a poesia é uma pintura falante". É justamente essa a
impressão que se tem ao observar os quadros da pintora argentina
María Teresa "Chatita" Palisa. Seus personagens,
geralmente pequenos no conjunto da tela, despertam no espectador
intenso carinho e emotividade.
Nascida em 15 de janeiro de 1930, em
San Miguel de Tucumán, província de Tucumán, Argentina, María
Teresa Palisa herdou o apelido de "Chatita", da avô, a
quem chamam de "Chata" ("nariz pequena", em
espanhol). Por ser parecida com ela, começaram a chamá-la assim
desde a infância e a carinhosa denominação permanece até hoje.
Após o casamento, em 1947, Palisa
mudou para Buenos Aires. Até então, não mantinha nenhuma relação
com a pintura. Em julho de 1979, sua vida mudou radical e
bruscamente. Ela sofreu um derrame cerebral que a deixou
paralisada do lado direito. Necessitou então reeducar o lado
esquerdo do corpo, reaprendendo a ler e a escrever.
Foi por recomendação de sua
psiquiatra que "Chatita" começou a pintar. Seria uma
forma de canalizar a ansiedade que provocava todo esse processo de
reaprendizagem. Com a ajuda da filha Tessy, professora de arte,
Palisa começou então a dar seus primeiros passos com tintas e
pincéis. Nesse processo, descobriu a paixão de sua vida.
Em 1985, após o falecimento do
marido, María retornou para Tucumán, onde estudou com artistas
respeitados na região, como Florencia Ortiz Mayor, Agustín
Delacroix e Luís Lobo de la Vega; além, de mais recentemente,
Ernesto Dumit. Nesse processo de aperfeiçoamento da própria técnica,
começou a participar com constância de exposições coletivas e
individuais, como a exposição realizada em França com motivo da
Copa Mundial de Futebol de 1998. sendo ainda membro do Museu
Austral Naïf de Chubut, Argentina.
"Chatita", ao
observar seu próprio trabalho, verifica que ele se nutre de
imagens cotidianas. "Elas provêm da cidade que transita em
frente à sua varanda, de lembranças de sua própria história e
de fantasias que aparecem como explosões de cores", afirma.
"Sofro ainda influência das imagens que vi no Museu Naïf da
Holanda, que visitei diversas vezes, quando meu filho se mudou
para lá. Também percorri diversos países da Europa, onde
apreciei a arte na França, Bélgica e Inglaterra."
As pinturas de "Chatita"
apresentam a predominância do vermelho, laranja e preto em tons
intensos. "Pinto mulheres fofocando na rua ou vagabundos
fumando. Em quase todos meus quadros, caminha um personagem magro
com um livro, o poeta, imagem recorrente por quem tenho um carinho
especial", confessa.
Na tela El poeta, é
possível conhecer esse ícone da produção artística de
"Chatita". Com um chapéu largo e uma bengala caminha,
na ótica da pintora, em uma perspectiva muito maior que uma carroça
puxada por força humana. Predomina, no quadro, a horizontalidade,
com um céu manchado de vermelho e azul e a cidade logo embaixo,
nos mesmos tons. A pintura, como a maioria das realizadas pela
artista argentina, conquista pela delicadeza e simplicidade.
Em La artista, surge
uma moça vestida de branco com um pincel na mão esquerda e uma
paleta na direita . Ela está em frente a uma tela vermelha de
pequenas dimensões e um cavalete preto que a sustenta. Na parte
superior uma meia lua e a paisagem linear de prédios de uma
cidade. A imagem é sutil e metalingüística, podendo ser lida
como uma alegoria autobiográfica, já que a pintora trabalha com
essa mão ou como uma apologia da prática artística entre os
jovens como forma de manter a saudade mental em dia.
Já Niños de la calle,
obra de pequenas dimensões, é inspirada pelo trabalho realizado
na Fundação de Ajuda à Infância (Fai), voltada para o ensino
de arte a crianças de rua. A tela constitui um painel da
realidade que "Chatita" conhece muito bem devido ao seu
trabalho na instituição.
Crianças jogando futebol no centro do
quadro e numerosas cenas em torno, são permeadas por tons de
amarelo, com crianças vestindo camisas vermelhas e azuis. Como a
miséria das crianças de rua é universal, o trabalho comove numa
simples olhada, retratando uma realidade extremamente penosa nos
países latino-americanos.
Doada à coleção
permanente do Museu da Criança, em Tennesse, EUA, Niños perdidos
en la selva mostra um casal em meio uma exuberante floresta, numa
cena que evoca as imagens fantásticas criadas por Rousseau.
Contorcidas, as figuras não chegam a ser fantasmagóricas e
pequenos macacos e flores gigantes ajudam a compor um cosmos
indagador. Folhas amarelas auxiliam a compor esse universo pleno
de mistério, em que a temática das selvas latino-americanas é
trabalhada, com pinceladas largas, de maneira muito pessoal, próxima
ao expressionismo.
El gran sombrero,
exibida no Senado da Nação, é dividida em planos horizontais.
Na parte superior, surge o céu, em linhas rosa, laranja e
violeta. Em seguida, as casas e lojas; entre elas, ao centro, a
que intitula o quadro. Descendo, vê-se a calçada, com uma dezena
de transeuntes, caminhando. Na parte inferior, dois carros antigos
e uma carroça puxada por um homem. As desproporções notórias,
típicas da arte naïf, seguem a imaginação da artista, tanto no
diálogo entre a calçada e a rua como entre as pessoas e os
carros.
"Chatita"
conta ainda alguns detalhes sobre seu processo de criação.
"No outro dia, reparei num homem que puxava uma carroça na
que vendia verduras. O curioso é que usava um guarda-chuva como
se fosse uma sombrinha. Ao vê-lo, peguei um papel e lápis e fiz
um esboço, que logo transformarei num quadro", narra.
A artista descreve com
singeleza sua devoção àquilo que faz. "Amo meus
pequeninos. As personagens que surgem de minha paleta representam
cenas da realidade. São como poemas que emergem da cor e pintam a
vida quotidiana. O movimento da Plaza Urquiza, os jogos na rua, os
passeios noturnos e o poeta convocam cores numa atmosfera
intimista. Eles posam sem perceber e me presenteiam um instante de
sua existência cotidiana para que eu possa expressar meu amor
pela vida", declara. "O sol nasce para todos; a menos
que nos escondamos na própria sombra."
De acordo com o
pensamento de Simônides de que a pintura é poesia muda, as telas
de María "Chatita" Palisa remetem ao que há de melhor
em literatura que encanta adultos e crianças, como os irmãos
Andersen, a argentina María Elena Walsh e a brasileira Maria
Clara Machado. Nos seus quadros, há a sutil sensibilidade que
propicia um mergulho delicado em personagens pequenos, mas que
parecem ter o poder de transformar o mundo.