por Oscar D'Ambrosio


 

 


Céu e Terra de Sidney Lacerda

 

            Céu e Terra são elementos complementares do universo e fundamentais para vida humana, seja no seu aspecto cotidiano ou na esfera simbólica. Ao conceber esta exposição com esse título, o artista plástico Sidney Lacerda oferece a oportunidade de refletir sobre como o ser humano se relaciona com esses elementos.

            No centro da exposição, dois módulos feitos de madeira, fórmica e espelho geram um mundo em que imagens se repetem infinitas vezes num jogo em que os limites entre o real e o imaginário são questionados a cada instante. Cada um deles une duas placas de compensado, cada uma do tamanho de uma porta, por meio de dobradiças.

            Colocados de modo a formar um sutil labirinto, eles permitem que as pessoas passem no meio e tenham, assim, uma visão renovada do espaço. As partes dos módulos para o lado de fora da forma constituída, que é a do caule de uma árvore, são de fórmica, cobertas de freijó, madeira que, além de remeter a um material orgânico, com grande força vital, própria da natureza, possui desenhos inerentes ao universo, como a repetição de formas fractais e a ordenação caótica de elementos.

            De fora, os módulos parecem ser apenas de madeira. No entanto, ao se participar do jogo proposto, observa-se que cada um deles tem uma face interna colorida, em fórmica. Uma delas é vermelha e a outra, azul. Temos assim uma cor quente, relacionada à terra, à vida e ao fogo; e uma mais fria, voltada para associações com o céu,  a água e um movimento mais espiritualizado e interiorizado.

            As outras duas placas do lado interno da estrutura são recobertas com espelhos. Isso gera a repetição infinita das imagens e das cores. Quando a pessoa entra no labirinto, ela ganha a repetição da imagem e se perde nesse jogo. As cores dispostas nas extremidades, pelo ludismo proposto, também se multiplicam e reaparecem em diversas posições.

            Temos então um labirinto de imagens e de cores a ser percorrido pelo visitante. Seja uma criança ou um iniciado em artes plásticas, ele terá o mesmo prazer de passar pelos módulos articulados, entrando num microcosmo em que não há limites para a imaginação e onde o jogo visual se faz muito presente.

            Forma-se então, com os módulos, um tríptico. As cores levam à reflexão sobre a própria função da pintura na arte contemporânea, a madeira estabelece uma ligação com a natureza, e os espelhos têm o papel de realizar conexões múltiplas com o objeto refletido.

            As pinturas que acompanham a exposição trabalham justamente o vermelho e o azul, a terra e o céu. Possibilitam o rico diálogo entre aquilo que se vê e aquilo que é sugerido. Afinal, entre o céu e a terra estão os homens, com toda sua riqueza e todo o seu universo de contradições, visível em espelhos, quadros e madeira, elementos que remetem à própria força vital da existência.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA – Seção Brasil).

 

 

 



 

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