César
Romero
Um
curador do Brasil
Há em
César Romero uma curiosa ambivalência. Pintor, psiquiatra, fotógrafo
e crítico de arte, consegue levar essas várias facetas de
maneira independente, como se elas não se entrelaçassem. Poucos
são aqueles que tentaram relacionar, por exemplo, a sua faceta de
médico com a de artista.
A sua
trajetória funciona como a prática de um curador, entendido em
seus sentidos mais densos do termo. Por um lado, ele, em sua
proposta estética de ter como ponto de partida temas de caráter
popular, oferece uma alternativa plástica de cura cultural de um
país globalizado.
Por
outro, é um curador no sentido de selecionar imagens. Realiza
isso quando escreve sobre arte, quando a pratica em suas
fotografias ou quando cria obras visuais. Há, em todas essas
atividades, acima de tudo, uma busca permanente da sabedoria
existente na vivência com a arte que está nas ruas de Feira de
Santana e Salvador, na Bahia, ou em outra localidade qualquer.
As
manifestações estéticas de Romero são um desejo plástico de a
arte curar a vida. É por intermédio das cores absorvidas desde
criança que ele atinge esse diálogo fecundo entre o que a
cultura popular oferece e aquilo que ele transmuta plasticamente
para a tela.
Mas
não tenha a ilusão que o artista é apenas um colorista, embora
esse elemento desempenhe um importante papel no conjunto do
trabalho. Há ali uma visão de mundo muito própria. Não se
trata apenas de uma herança nordestina, mas sim de uma poética
repleta de plasticidade, principalmente quando a cor se mescla à
ilusão de movimento que as “faixas emblemáticas”
proporcionam.
Intensidade
cromática e mistério simbólico unem-se num resultado que é
muito mais do que arte brasileira. Trata-se de uma fala,
lentamente urdida ao longo de um processo de amadurecimento artístico,
que gera um desafio visual perante uma sociedade brasileira que
vive o eterno conflito de ter que prestar contas sobre a sua
origem.
O
caminho de Romero é universal, porque não se limita a dar uma
resposta brasileira. Se, de fato, estreou na pintura com uma
igreja vermelha, passando depois a mostrar o casario barroco de
Salvador (1967/69), foi com a série de imagens de santos
barrocos, vistos como garotos-propaganda da sociedade de consumo
(1970/77), que mostrou que, perante o mundo, ele, como artista, não
podia ficar plasticamente calado.
Entre
1978/85, selos comemorativos, de tom satírico, acentuavam a visão
crítica de mundo. Assim, datas inexistentes no calendário,
comemorações absurdas e a valorização de fatos cotidianos
ganharam o status de
arte. Isso significava, no fundo, enxergar a sociedade e o mundo
de outro jeito, o do artista, o do curador.
Em
termos estéticos, as paisagens com faixas emblemáticas
(1978/1986) são um marco. Duas linguagens se unem na proposta de
dar dinamismo e cor ao material pictórico. Ali nasce a matriz de
um trabalho que começa a encantar justamente pelo ferrenho desejo
de oferecer respostas estéticas a questões culturais e artísticas.
Obras
subseqüentes, que têm como base as imagens dos tamboretes da
Festa do Largo da Bahia (1980/86), e as platibandas emblemáticas
(1981/96), surgidas a partir de frontispícios de casas do
interior baiano, marcam a continuidade de uma imersão nas raízes
baianas, brasileiras e arquetípicas.
Essa
energia criadora catalisa-se nos Enigmas (1991/2000), símbolos
afro-brasileiros colocados numa perspectiva em que a cor e as
formas tornam-se cada vez menos símbolos e mais pintura. As
massas de cor, as texturas e a imagem enquanto grafismo ganham
relevância estética e formal.
Produzidas
entre (1985/2005), as faixas emblemáticas são a síntese do
exercício de cura/curadoria exercido por César Romero.
Independentes das paisagens, elas ocupam toda a tela em
reviravoltas plenas de liberdade. Nascido em Feira da Santana, em
18 de outubro de 1950, revela neste trabalho como parte da expressão
popular para chegar a uma visão particular de mundo.
Manifestações
populares, como as festas do largo, rituais afro-brasileiros, o
negro, o carnaval, a cor tropical, a capoeira e o dia-a-dia do
povo são os principais alimentos visuais dos entrelaçamentos
imagéticos de César Romero. A arte que resulta daí não é
meramente baiana ou brasileira, mas universal no sentido que propõe
uma cura de cada indivíduo e do mundo.
Perante
cada faixa emblemática, cores, símbolos e ondulações atingem
uma dimensão renovada. Pensamentos libertam-se no espaço das
ondas das faixas e formas e fundos começam a ser diluídos,
prevalecendo uma dimensão de movimento reforçada pelo caráter
ondulatório de cada imagem, que alerta para o constante fluir da
existência. Assim, César Romero, curador de imagens, cura as
almas brasileiras e da humanidade.
Oscar
D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e Mestre em Artes
pelo Instituto de Artes da Unesp. Autor, entre outros, de Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) e Contando
a arte de Peticov (Editora Noovha América).