por Oscar D'Ambrosio


 

 


César Romero

 

            Um curador do Brasil

 

            Há em César Romero uma curiosa ambivalência. Pintor, psiquiatra, fotógrafo e crítico de arte, consegue levar essas várias facetas de maneira independente, como se elas não se entrelaçassem. Poucos são aqueles que tentaram relacionar, por exemplo, a sua faceta de médico com a de artista.

            A sua trajetória funciona como a prática de um curador, entendido em seus sentidos mais densos do termo. Por um lado, ele, em sua proposta estética de ter como ponto de partida temas de caráter popular, oferece uma alternativa plástica de cura cultural de um país globalizado.

Por outro, é um curador no sentido de selecionar imagens. Realiza isso quando escreve sobre arte, quando a pratica em suas fotografias ou quando cria obras visuais. Há, em todas essas atividades, acima de tudo, uma busca permanente da sabedoria existente na vivência com a arte que está nas ruas de Feira de Santana e Salvador, na Bahia, ou em outra localidade qualquer.

As manifestações estéticas de Romero são um desejo plástico de a arte curar a vida. É por intermédio das cores absorvidas desde criança que ele atinge esse diálogo fecundo entre o que a cultura popular oferece e aquilo que ele transmuta plasticamente para a tela.

Mas não tenha a ilusão que o artista é apenas um colorista, embora esse elemento desempenhe um importante papel no conjunto do trabalho. Há ali uma visão de mundo muito própria. Não se trata apenas de uma herança nordestina, mas sim de uma poética repleta de plasticidade, principalmente quando a cor se mescla à ilusão de movimento que as “faixas emblemáticas” proporcionam.

            Intensidade cromática e mistério simbólico unem-se num resultado que é muito mais do que arte brasileira. Trata-se de uma fala, lentamente urdida ao longo de um processo de amadurecimento artístico, que gera um desafio visual perante uma sociedade brasileira que vive o eterno conflito de ter que prestar contas sobre a sua origem.

            O caminho de Romero é universal, porque não se limita a dar uma resposta brasileira. Se, de fato, estreou na pintura com uma igreja vermelha, passando depois a mostrar o casario barroco de Salvador (1967/69), foi com a série de imagens de santos barrocos, vistos como garotos-propaganda da sociedade de consumo (1970/77), que mostrou que, perante o mundo, ele, como artista, não podia ficar plasticamente calado.

            Entre 1978/85, selos comemorativos, de tom satírico, acentuavam a visão crítica de mundo. Assim, datas inexistentes no calendário, comemorações absurdas e a valorização de fatos cotidianos ganharam o status de arte. Isso significava, no fundo, enxergar a sociedade e o mundo de outro jeito, o do artista, o do curador.

            Em termos estéticos, as paisagens com faixas emblemáticas (1978/1986) são um marco. Duas linguagens se unem na proposta de dar dinamismo e cor ao material pictórico. Ali nasce a matriz de um trabalho que começa a encantar justamente pelo ferrenho desejo de oferecer respostas estéticas a questões culturais e artísticas.

            Obras subseqüentes, que têm como base as imagens dos tamboretes da Festa do Largo da Bahia (1980/86), e as platibandas emblemáticas (1981/96), surgidas a partir de frontispícios de casas do interior baiano, marcam a continuidade de uma imersão nas raízes baianas, brasileiras e arquetípicas.

            Essa energia criadora catalisa-se nos Enigmas (1991/2000), símbolos afro-brasileiros colocados numa perspectiva em que a cor e as formas tornam-se cada vez menos símbolos e mais pintura. As massas de cor, as texturas e a imagem enquanto grafismo ganham relevância estética e formal.

            Produzidas entre (1985/2005), as faixas emblemáticas são a síntese do exercício de cura/curadoria exercido por César Romero. Independentes das paisagens, elas ocupam toda a tela em reviravoltas plenas de liberdade. Nascido em Feira da Santana, em 18 de outubro de 1950, revela neste trabalho como parte da expressão popular para chegar a uma visão particular de mundo.

Manifestações populares, como as festas do largo, rituais afro-brasileiros, o negro, o carnaval, a cor tropical, a capoeira e o dia-a-dia do povo são os principais alimentos visuais dos entrelaçamentos imagéticos de César Romero. A arte que resulta daí não é meramente baiana ou brasileira, mas universal no sentido que propõe uma cura de cada indivíduo e do mundo.

Perante cada faixa emblemática, cores, símbolos e ondulações atingem uma dimensão renovada. Pensamentos libertam-se no espaço das ondas das faixas e formas e fundos começam a ser diluídos, prevalecendo uma dimensão de movimento reforçada pelo caráter ondulatório de cada imagem, que alerta para o constante fluir da existência. Assim, César Romero, curador de imagens, cura as almas brasileiras e da humanidade.

 

            Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp. Autor, entre outros, de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) e Contando a arte de Peticov (Editora Noovha América).

 

 

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Faixas emblemáticas
acrílica sobre tela
100 cm x 100 cm - Década de 2000


César Romero

 

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