Cesar Carvalho
A defesa do ser humano
A natureza é o ponto principal de inspiração da maioria
dos artistas. Frente ao que consideramos o mundo real, eles geram
recriações variadas, sob infinitos pontos de vista. Há ainda
aqueles que encontram na defesa da natureza uma de suas principais
motivações e, posteriormente, desenvolvem novas visões do mundo
a partir dessa consciência.
Muitas vezes, perante atividades cotidianas, repetidas por
anos, surge um “clic” que os leva a transformar materiais com
os quais convive diariamente em autênticas obras de arte. É na
fusão entre a defesa do meio ambiente e a capacidade de
criação, que se expressa o talento de César Carvalho.
Nascido em Salvador, BA, em 18 de dezembro de 1952, o
artista lembra que desenhava e pintava desde criança, sendo
sempre o vencedor dos concursos no colégio que tinham como tema o
Dia da Árvore. Isso não bastou, porém, para que Carvalho
dedicasse sua vida à arte. Trabalhou como técnico em mecânica
– atividade que ainda exerce – e foi justamente em meio à
sucata que encontrou o start de suas criações.
A data divisória de águas foi 1990. Depois de passar anos
dispensando peças velhas de suspensão de automóveis que
passavam pela oficina, Carvalho percebeu que poderia utilizá-las
para a feitura de obras de arte e, ao mesmo tempo, denunciar os
maus tratos com a ecologia.
Surgiram assim os primeiros trabalhos com sucata. Foram 19
esculturas em ferro com formatos de esqueletos de animais, como
tamanduá-bandeira, jacaré e dinossauro. O passo seguinte foi a
exposição “O Fim – os animais nascem, crescem e o homem mata”,
ambientada numa cenografia que dava a idéia de que aquilo que se
via era o resto da explosão de uma bomba química.
Os esqueletos de animais dão a plena sensação de
apresentarem ao espectador “o dia seguinte” de um ataque
nuclear. Despossuídos de carne, elas são estruturas que vagam a
esmo, em busca de seus órgãos internos em um mundo árido. O
alerta, embora lançado há mais de dez anos, permanece,
infelizmente, muito atual, principalmente após os atentados
contra os EUA desferidos em setembro de 2001.
Ao trabalhar com esculturas de menores proporções em ferro
com sucata de motores, Carvalho revela outra faceta do seu
talento. Obras como Caravela apresentam uma maior leveza no
resultado final, que se acentua em obras como Direção, Raio ouro
e Movimento.
Crista e Asa, por sua vez, trabalham com a noção de vazio,
estabelecendo formas que podem ser atravessadas pelo ar e parecem
flutuar à espera do vento. Obter tal resultado com um material
como o ferro exige extrema noção estética e cuidado para que a
relação entre peso/ leveza e vazio/ cheio se integre e complete.
O ferro é ainda combinado com a resina em esculturas como
Espada e Pássaro. É possível novamente encontrar a
característica da leveza e, principalmente, movimentos
ascensionais de cunho verticalizante que propiciam um diálogo
entre a matéria profana e os sentimentos divinos.
Pinturas a óleo também integram o mundo artístico de
César Carvalho. Ele lembra que a sua primeira pintura, em 1972
foi Ruínas, uma casa de pedra. A temática foi progressivamente
se ampliando para nus femininos plenos de sensualidade e telas de
temática social como Discriminação racial global.
O melhor momento, todavia, é atingido em Flagelos da seca,
visão expressionista de uma família de retirantes estilizados em
sua magreza, que caminham em meio a um céu em tonalidades quentes
de amarelo, vermelho e laranja e de um solo inclemente castigado
pelo calor.
A arte de Cesar Carvalho, em suas variadas manifestações,
é um talentoso tributo de amor ao ser humano. Seja em defesa da
natureza, contra o racismo ou alertando para o drama da seca,
revela extrema criatividade, bem maior do artista na sua eterna
luta para domar os materiais e lhes dar a forma que julgue mais
adequada dentro de seus pressupostos ideológicos e estéticos.
Oscar D’Ambrosio é jornalista, integrante da Academia
Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp).