por Oscar D'Ambrosio


 

 


Celso Martins Paduanello
Imagens do interior


A maioria dos pintores naïfs demonstra um forte vínculo com as suas origens. É o caso do paulista Celso Martins Paduanello. Suas telas, com traços simples e precisos e cores vibrantes, mostram facetas de um Brasil em que as pessoas colhem jabuticaba, catam coco, conduzem boiadas e celebram as festas juninas com intensa alegria.
Nascido em São João da Boa Vista, SP, em 27 de junho de 1963, Celso Martins Paduanello residiu em Águas da Prata até 1991 e hoje mora em Poços de Caldas, MG, onde trabalhou como assistente contábil da unidade local da Rhodia-ster. Nesse percurso, aprendeu a ter amor às coisas simples da terra e as imagens que cria evocam esse universo, como colheitas de café. São imagens em que predominam linhas horizontais, que compõem estruturas visuais harmônicas.
Quanto às suas origens artísticas, Paduanello ressalta que seu pai, já falecido, pintou paisagem no início dos anos 1970 e lembra que três de seus irmãos desenham e um faz esculturas em madeira. Mas só ele se voltou para a arte naïf. E o filho talvez siga seus passos na pintura. "Ele começou a desenhar sozinho aos 4 anos, usando lápis de cor ou giz de cera. Hoje, com 7 anos, sob minha orientação, ele já pintou duas telas. E tem muito adulto que não desenha igual", afirma o pintor.
Corujismo à parte, Paduanello talvez veja no filho uma continuação de si mesmo, pois, aos seis anos, ele já desenhava na escola, realizando caricaturas dos professores, em grafite, para alegria dos colegas. Seu primeiro prêmio como pintor foi recebido, em 1974, com 11 anos, em um concurso de cartazes.
Era o indício de uma carreira que tinha tudo para se desenvolver, mas Paduanello só começou a mexer com tintas em 1984. Recebendo orientações de amigos, queria seguir um estilo acadêmico. No ano seguinte, realizou a primeira exposição, no centro recreativo de sua cidade natal; no entanto, o trabalho e as obrigações cotidianas o levaram a se afastar das telas e pincéis, ficando cinco anos sem produzir.
Mesmo assim o trabalho de Paduanello não deixou de ser visto. Em 1987, participou do IV Salão Poços-Caldense de Belas Artes, com um trabalho em grafite sobre papel e, no ano seguinte, da XII Exposição de Artes Plásticas São João da Boa Vista, com um pastel sobre papel. "Sempre tive facilidade para desenhar com grafite, tanto fisionomias, como paisagens ou naturezas mortas", diz o pintor.
Em 1990, o pintor paulista voltou a pintar e, graças ao artista plástico Sadi, residente em Águas da Prata, conheceu a estética naïf. Ele transferiu a Paduanello seus conhecimentos sobre essa estética e passou a incentivar o jovem artista. "Usando minha vocação natural, passei a pintar com a liberdade de imaginação própria do naïf, encontrando assim meu estilo nas artes plásticas", afirma. "Eu me identifiquei muito com o naïf, porque não há uma preocupação com sombras, profundidade e perspectiva. O pintor é livre como uma criança, que pega o lápis pela primeira vez e faz o que quer. É liberdade total de expressão".
A segunda exposição de Paduanello aconteceu em 2000, no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal de Poços de Caldas. Foram nove quadros, todos em tinta acrílica sobre tela, inspirados no cotidiano das pequenas cidades e na fantasia do artista. Além disso, ele exibe suas telas todos os finais de semana no Espaço Cultural da Prefeitura de Poços de Caldas e, eventualmente, envia obras para um marchand da cidade de Aguaí, próxima a Campinas. "Meu sonho mesmo era poder viver só de pintura, mas isso é muito difícil aqui no Brasil. Pinto meus quadros depois do trabalho ou nos finais de semana", conta.
O próprio artista considera seu trabalho bem colorido e sem preocupação com técnica. Desse modo, pinta suas paisagens, festas populares e plantações do interior do País. Fã de ficção científica, e dos músicos Tom Jobim, Toquinho, Fagner e Zé Ramalho, Paduanello, em seus trabalhos, revela intensa poeticidade, retratando o mundo que esses artistas da música tematizam.
Em Colhendo jabuticabas, por exemplo, surgem duas pessoas junto à arvore, mas o que chama mais a atenção é a presença da lua e as diminutas casas. Recanto feliz encanta pelo intenso colorido, com árvores, casas, plantações, montanhas e céu compondo imagens que transmitem tranqüilidade.
Conduzindo a boiada apresenta o rebanho na parte inferior do quadro, enquanto uma plantação ocupa o centro e o fundo mostra uma enorme lua que começa a se fundir com a linha do horizonte. Carro de boi apresenta uma estrutura semelhante, pois o elemento que intitula o quadro também está na parte inferior, enquanto todo o universo rural é desenvolvido em faixas horizontais, que dão grande estabilidade ao quadro.
Paduanello também celebrou os cinco séculos de Brasil com o quadro Brasil 500 anos, em que índios, um ao lado do outro, observam a nau portuguesa aportando no País, Novamente, o quadro transmite calma, uma característica marcante das telas do pintor paulista. Fenômeno semelhante ocorre em Colhendo coco, onde a mesma sensação de tranqüilidade é passado ao observador do quadro, embora com menor número de elementos e maior exploração dos espaços vazios, na praia, no ar e no céu.
Ao tratar de Festa junina, Paduanello obtém o mesmo efeito. Os noivos, os balões, os convidados, a igreja e as casas do povoado se articulam numa composição em que predomina a estaticidade. Não há conflitos de cores ou de ações. A tela agrada justamente pelo seu poder de construir imagens plenas de paz.
Colhendo café é mais um exemplo da habilidade de Paduanello em trabalhar com poucos elementos, compondo-os de maneira a ressaltar a diversidade do ambiente rural e a possibilidade de eles se integrarem com espontaneidade. Nesse sentido, o pintor paulista realiza um trabalho exemplar, pois as imagens que cria estabelecem um universo idílico e harmonioso que mostra toda a beleza idealizada da zona rural.
Paduanello transforma o universo rural que conhece bem em telas plenas de harmonia e equilíbrio. Há nele construções imagéticas bem realizadas e um convidativo jogo de cores. Predominam os planos à distância, o que aumenta a poeticidade de seu trabalho, pois convida justamente a um mergulho nas lembranças do interior brasileiro, um universo em que, idealmente, predominam colheitas felizes, boiadas movendo-se harmonicamente e festas populares repletas de cor e alegria, numa atmosfera de sonho encantado.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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