por Oscar D'Ambrosio


 

 


Celia Custarella

 

            Invasões de luz

 

            Quando se busca a essência de um trabalho plástico, é necessário conhecer o seu criador e vice-versa. Esse pensamento, às vezes recusado por aqueles que acreditam que uma obra de arte pode ser o começo e o fim de tudo, ajuda a entender como cada artista realiza o seu caminho.

A aquarelista Celia Custarella apresenta uma obra marcada pela onipresença da luz. Dos seus trabalhos mais antigos aos atuais, mantém-se a inquietação da investigação das possibilidades de diálogo entre as cores, as imagens e as formas no ato de aparecerem no espaço do papel.

            Um de seus temas preferidos, a árvore, pode ser muito mais que um assunto de pintura quando vislumbrado numa perspectiva em que esse referente concreto deixe de ser o objetivo maior da pintura para se tornar algo a ser desconstruído e invadido pelas luzes com seu potencial de revelar e esconder.

            A aquarela não é a arte de colorir desenhos, mas de se utilizar de camadas e velaturas para construir um novo mundo, regido justamente pela luz, pela cor e pelas atmosferas. As árvores podem ser o começo de uma jornada em que o resultado final depende da mão de cada pintor.

            Não há dúvidas de que Celia consegue captar as nuances que a natureza oferece em sua milenar onipresença. Cabe a ela pesquisar até onde puder o potencial da luz enquanto um caminho plástico, uma jornada coberta por marrons e verdes, mas que não ignora, se necessário for, a presença do azul ou de uma cor qualquer.

            As luzes trazem uma gama de possibilidades quase infinita. A maneira de entrada delas na pintura constitui uma decisão plástica, uma forma de construir um trabalho em que surja algum elemento diferenciador pela capacidade de elas manifestarem a sua onipresença.

            Cada nova luz pode surgir pela discrição, pela sugestão ou mesmo por um fino raio de luz, tão delicado que chama toda a atenção a sobre si. Luzes iluminam a vida e dão às árvores tonalidades, mas também podem invadir e destruir esses elementos naturais.

            A grande indagação não é se a luz é importante. Isso se torna evidente a cada pintura. O questionamento essencial está em perceber como cada nova luz abre um leque de diálogos com aquilo que chamamos realidade. E, dando um passo ainda mais denso, pode-se observar que cada luz tem valor em si mesma, tornando-se irrelevante se o ponto de partida é a árvore ou uma figura humana.

            As invasões de luz na aquarela de Celia Custarella apontam para um universo próprio. Permitem a discussão de qual é a essência da arte e qual é a importância da luz nesse mundo por ela instaurado. Assim, a atividade criativa cumpre o seu papel. Parte do mundo conhecido, estabelece uma supra-realidade e nos devolve a ele, renovados e enriquecidos.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

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Caderno O caminho
aquarela sobre papel - 28, 5 x 36 cm 2005

Celia Custarella

 

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