Celia
Custarella
Invasões de luz
Quando se busca a essência
de um trabalho plástico, é necessário conhecer o seu criador e
vice-versa. Esse pensamento, às vezes recusado por aqueles que
acreditam que uma obra de arte pode ser o começo e o fim de tudo,
ajuda a entender como cada artista realiza o seu caminho.
A
aquarelista Celia Custarella apresenta uma obra marcada pela onipresença
da luz. Dos seus trabalhos mais antigos aos atuais, mantém-se a
inquietação da investigação das possibilidades de diálogo entre
as cores, as imagens e as formas no ato de aparecerem no espaço do
papel.
Um de seus
temas preferidos, a árvore, pode ser muito mais que um assunto de
pintura quando vislumbrado numa perspectiva em que esse referente
concreto deixe de ser o objetivo maior da pintura para se tornar algo
a ser desconstruído e invadido pelas luzes com seu potencial de
revelar e esconder.
A aquarela
não é a arte de colorir desenhos, mas de se utilizar de camadas e
velaturas para construir um novo mundo, regido justamente pela luz,
pela cor e pelas atmosferas. As árvores podem ser o começo de uma
jornada em que o resultado final depende da mão de cada pintor.
Não há dúvidas
de que Celia consegue captar as nuances que a natureza oferece em sua
milenar onipresença. Cabe a ela pesquisar até onde puder o potencial
da luz enquanto um caminho plástico, uma jornada coberta por marrons
e verdes, mas que não ignora, se necessário for, a presença do azul
ou de uma cor qualquer.
As luzes
trazem uma gama de possibilidades quase infinita. A maneira de entrada
delas na pintura constitui uma decisão plástica, uma forma de
construir um trabalho em que surja algum elemento diferenciador pela
capacidade de elas manifestarem a sua onipresença.
Cada nova
luz pode surgir pela discrição, pela sugestão ou mesmo por um fino
raio de luz, tão delicado que chama toda a atenção a sobre si.
Luzes iluminam a vida e dão às árvores tonalidades, mas também
podem invadir e destruir esses elementos naturais.
A grande
indagação não é se a luz é importante. Isso se torna evidente a
cada pintura. O questionamento essencial está em perceber como cada
nova luz abre um leque de diálogos com aquilo que chamamos realidade.
E, dando um passo ainda mais denso, pode-se observar que cada luz tem
valor em si mesma, tornando-se irrelevante se o ponto de partida é a
árvore ou uma figura humana.
As invasões
de luz na aquarela de Celia Custarella apontam para um universo próprio.
Permitem a discussão de qual é a essência da arte e qual é a
importância da luz nesse mundo por ela instaurado. Assim, a atividade
criativa cumpre o seu papel. Parte do mundo conhecido, estabelece uma
supra-realidade e nos devolve a ele, renovados e enriquecidos.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).