por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Catharine Gati

 

            A lírica do movimento

 

            Existem no mundo da arte certos preconceitos que vão ganhando corpo e se cristalizando. Quando se busca a origem deles, as respostas poucas vezes são convincentes. É exatamente isso o que ocorre com as artes que têm o papel como suporte. Desenho e gravura, nessa ótica, são vistos como formas menores de manifestação artística perante universos considerados nobres, como o da tinta a óleo.

            As gravuras da artista plástica Catharine Gati mostram como esse tipo de pensamento carece de fundamento. Seu trabalho de modo algum pode ser considerado inferior ao de um pintor que desenvolva sua poética sobre o linho, por exemplo. A questão central não é a técnica utilizada para desenvolver um trabalho, mas a capacidade mobilizadora de um artista.

É nesse aspecto que Catharine oferece  momentos de intensidade visual. Suas imagens parecem fluir com desenvoltura na superfície do papel e pouco importa se a figura sugerida é a de um homem, ou de uma mulher e se essa imagem surge isolada ou rodeada de outros traços.

            A obra da gravurista se dá muito no universo das formas e dos diálogos que elas sugerem. A maneira de trabalhar a superfície permite momentos de encantamento, como o que ocorre em Haikai I e II, em que existe a idéia subjacente de que cada trabalho possui uma espontaneidade que só é conquistada com esforço.

            O grande segredo da arte é fazer que o difícil pareça fácil, ou seja, aparentemente cri-se a ilusão de grande simplicidade, mas atingir esse nível, principalmente nos melhores momentos, só se torna factível com o exercício constante e o aprendizado técnico que, no caso de Catharine, se dá pelo desenho.

            Isso se faz muito presente nas gravuras em que a artista se vale das imagens de casulos ou mesmo de pés. O assunto, embora evidenciado à nossa frente, é de menor importância, perante a pergunta que fascina: como a artista chega a esse resultado? Quais são os procedimentos que a norteiam?

            O fato de perguntas sobre o processo do fazer artístico surgirem no ato de contemplar o trabalho de Catharine Gati indica que a sua lírica é justamente a do movimento: não só o sugerido pela imagem impressa, mas, principalmente, pela dinâmica interior que cada observador sente ao contemplar o seu poético trabalho, que traz uma mistura deliciosamente difícil de definir entre o rigor formal e a delicadeza da simplicidade.  

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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Hai-kai II
gravura
água tinta - 2006

Catharine Gati

 

 

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