por Oscar D'Ambrosio


 

 


Carroceiros em imagens

 

            Quando seis artistas plásticos se reúnem para desenvolver um tema comum, espera-se que o assunto possa ser colocado em novas dimensões. É o que ocorre na exposição “Carroceiros”, na Casa Caiada, de 14 a 28 de abril de 2007, em São Paulo, SP. Cada um deles dá a sua visão desse  autêntico personagem, geralmente do sexo masculino, entre 41 e 55 anos, que não completou o ensino fundamental.

Anônimos personagens urbanos, são percebidos por poucos no vai-e-vem da metrópole. Espalham-se pelas ruas, puxando suas carroças – que podem funcionar também como moradias –, muitas vezes acompanhados de vira-latas. Só na capital paulista, são 20 mil profissionais, responsáveis, em parte, pelo fato de o Brasil ser o país que mais recicla alumínio do mundo.

Os artistas desta mostra dão a essas múltiplas facetas uma visão enriquecedora. Alexandre Bernardes trabalha com pintura sobre papel reciclado. Sua técnica mista é própria desse universo do reaproveitamento e profusão de materiais e se diferencia pela forma como trabalha os vazados e pelo fato de colocar o dourado justamente na figura do carroceiro, valorizando a atuação desse profissional em meio à metrópole agressiva.

Avelino, por sua vez, coloca na tela, de forma impressionista, suas visões  da integração do personagem escolhido como tema dentro da cidade. Embora tenha partido de fotos, as composições realizadas incluem elementos de imaginação, com curioso destaque para a delicada solução imagética no retratar os cães que geralmente acompanham os carroceiros.

Luci Torres desenvolve a técnica do acrílico sobre papel destacando, com uma paleta próxima a de Flávio de Carvalho, na expressividade, o próprio movimento do carroceiro no ato de carregar peso pela cidade. Num dos trabalhos, a força parece brotar toda do peito, como se fosse uma espécie de Hércules grego a conquistar seu espaço no Monte Olimpo.

Max Bueno oferece duas visões complementares do tema. Em uma das imagens, o carroceiro surge próximo o seu instrumento de trabalho, cabisbaixo, abatido, reflexivo, derrotado. Na outra, o personagem surge, de costas, olhando para uma rua feita em tom acinzentado, num clima bem mais lírico e poético, como se houvesse uma esperança num futuro qualquer.

Regina de Barros, única escultora do grupo, trabalha com um material propositalmente precário e rústico, valendo-se da repetição de formas retorcidas para criar todo um mecanismo visual de tensão em que os caminhos dos carroceiros são alegorizados, inclusive com o próprio título do trabalho: “O lixo meu nicho”.

Ricardo Sanzi também faz duas obras que se integram. Numa delas, coloca o carroceiro em primeiro plano. Ele surge carregando a cidade em seu carrinho. Na outra, a cidade é colocada em primeiro plano e o carroceiro surge como personagem que participa dela, levando material a ser reciclado para ganhar o próprio sustento.

Em todos os trabalhos, brota com força a idéia de que o carroceiro, em seu trabalho diário, desempenha um papel a ser cada vez mais valorizado. Se visto cada vez menos como marginal e mais como um profissional, ele terá seu lugar como cidadão assegurado. Os artistas aqui reunidos, cada qual a seu modo, ressaltam, portanto, o poder do carroceiro de se integrar à sociedade e, nesse sentido, dão a sua humilde contribuição para uma melhor discussão do tema.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 



 

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