Carmézia
Emiliano
A arte de ver
Observar uma obra de arte
é um exercício de liberdade do olhar. Quanto mais fiel a um padrão
ou limitada a certos
conceitos, a pessoa pode perder a grandeza de um trabalho plástico.
Saber ver significa buscar o novo a cada instante e manter a humildade
e a ingenuidade do frescor do olhar.
A obra de
Carmézia Emiliano exige esse prazer associado a uma liberdade total
de preconceitos. Não é tarefa fácil, numa sociedade em que os rótulos
se espalham como pragas de gafanhotos. Antes de mesmo dizer se apreciam
ou não um trabalho, existe, para muitos, uma obrigação didática de
classificação que pode reduzir a alegria do olhar a uma dimensão próxima
do zero absoluto.
Essas
considerações se fazem necessárias para que a pintura de Carmézia
Emiliano seja vista enquanto obra artística. O fato de ser uma
pintora índia não a torna mais ou menos importante. O essencial está
naquilo que se vê – e essa capacidade de ver será mais produtiva
quanto mais fiel a si mesma.
Se o
observador olhar a pintura de Carmézia apenas como o resultado da
trajetória de uma índia Macuxi pintora que, antes de mudar-se para a
capital, passou anos de sua vida na Maloca do Japó, em Normandia,
Estado de Roraima, pode se perder na dimensão antropológica. O dado
é importante, claro, assim como o ano de seu nascimento, 1960, como
contribuição à visualização, mas não pode ser o elemento
direcionador do ato de ver.
A temática
ligada a mitos e festas presente nas obras em óleos sobre tela também
não pode passar despercebida, mas não define a questão da importância
da pintura da artista. Ela leva para a tela o que vê e vive, assim
como os artistas paulistanos retratam o movimento da metrópole e
muitos do interior paulista e do Nordeste se debruçam sobre plantações
e colheitas de todos os tipos de produto.
Há em
Carmézia um peculiar aproveitamento do espaço. Ao não ter
comprometimento com o realismo, compõe suas cenas de temática indígena
ou de animais da Amazônia com uma
lógica própria. Fiel a si mesma, reinventa o que vê com uma
liberdade de composição e de proporção que valoriza os elementos
que julga necessários em cada trabalho.
Agraciada
com o Prêmio Buriti da Amazônia de Preservação do Meio Ambiente,
em 1996, na categoria revelação, e com o prêmio aquisição das
duas obras enviadas à Bienal Naïfs do Brasil, edição 2006,
organizada pelo SESC Piracicaba (SP), Carmézia comporta um desafio.
Progressivamente,
ao travar contato com o mundo da arte e conhecer outras obras e
pintores – já que o seu nível de referência é hoje bastante
reduzido –, terá que assimilar essas novas informações e valores
ao seu atual domínio técnico e plástico. Nesse momento, a artista
precisa falar mais alto, de modo que a pintora índia seja mais
importante que a índia pintora.
Se
Carmézia se colocar cada vez mais como pintora, independendo da
etnia, verá o deslumbrar de sua capacidade de composição percorrer
os mais variados campos visuais. Assim, o mencionado aproveitamento do
espaço que a artista tem hoje poderá cada vez mais encontrar
assuntos ricos em imagens.
Nesse
sentido, ser pintora, para a artista de Roraima, é um desenvolvimento
natural de sua capacidade de ver e manusear os pincéis com tinta a óleo.
Cada imagem que ela cria é um universo. Vê-lo é um exercício
pessoal da mencionada liberdade do olhar. Se o observador não colocar
a biografia de Carmézia ou a temática indígena em primeiro plano
– e olhar a pintura – descobrirá uma artista jovem, talentosa,
que pode nos surpreender positivamente a cada momento e que o País
merece conhecer melhor.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra
a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção
Brasil).