por Oscar D'Ambrosio


 

 


Carmézia Emiliano

 

            A arte de ver

 

            Observar uma obra de arte é um exercício de liberdade do olhar. Quanto mais fiel a um padrão ou limitada a certos conceitos, a pessoa pode perder a grandeza de um trabalho plástico. Saber ver significa buscar o novo a cada instante e manter a humildade e a ingenuidade do frescor do olhar.

            A obra de Carmézia Emiliano exige esse prazer associado a uma liberdade total de preconceitos. Não é tarefa fácil, numa sociedade em que os rótulos se espalham como pragas de gafanhotos. Antes de mesmo dizer se apreciam ou não um trabalho, existe, para muitos, uma obrigação didática de classificação que pode reduzir a alegria do olhar a uma dimensão próxima do zero absoluto.

            Essas considerações se fazem necessárias para que a pintura de Carmézia Emiliano seja vista enquanto obra artística. O fato de ser uma pintora índia não a torna mais ou menos importante. O essencial está naquilo que se vê – e essa capacidade de ver será mais produtiva quanto mais fiel a si mesma.

            Se o observador olhar a pintura de Carmézia apenas como o resultado da trajetória de uma índia Macuxi pintora que, antes de mudar-se para a capital, passou anos de sua vida na Maloca do Japó, em Normandia, Estado de Roraima, pode se perder na dimensão antropológica. O dado é importante, claro, assim como o ano de seu nascimento, 1960, como contribuição à visualização, mas não pode ser o elemento direcionador do ato de ver.

            A temática ligada a mitos e festas presente nas obras em óleos sobre tela também não pode passar despercebida, mas não define a questão da importância da pintura da artista. Ela leva para a tela o que vê e vive, assim como os artistas paulistanos retratam o movimento da metrópole e muitos do interior paulista e do Nordeste se debruçam sobre plantações e colheitas de todos os tipos de produto.

            Há em Carmézia um peculiar aproveitamento do espaço. Ao não ter comprometimento com o realismo, compõe suas cenas de temática indígena ou de animais da Amazônia com  uma lógica própria. Fiel a si mesma, reinventa o que vê com uma liberdade de composição e de proporção que valoriza os elementos que julga necessários em cada trabalho.

            Agraciada com o Prêmio Buriti da Amazônia de Preservação do Meio Ambiente, em 1996, na categoria revelação, e com o prêmio aquisição das duas obras enviadas à Bienal Naïfs do Brasil, edição 2006, organizada pelo SESC Piracicaba (SP), Carmézia comporta um desafio.

Progressivamente, ao travar contato com o mundo da arte e conhecer outras obras e pintores – já que o seu nível de referência é hoje bastante reduzido –, terá que assimilar essas novas informações e valores ao seu atual domínio técnico e plástico. Nesse momento, a artista precisa falar mais alto, de modo que a pintora índia seja mais importante que a índia pintora.

Se Carmézia se colocar cada vez mais como pintora, independendo da etnia, verá o deslumbrar de sua capacidade de composição percorrer os mais variados campos visuais. Assim, o mencionado aproveitamento do espaço que a artista tem hoje poderá cada vez mais encontrar assuntos ricos em imagens.

Nesse sentido, ser pintora, para a artista de Roraima, é um desenvolvimento natural de sua capacidade de ver e manusear os pincéis com tinta a óleo. Cada imagem que ela cria é um universo. Vê-lo é um exercício pessoal da mencionada liberdade do olhar. Se o observador não colocar a biografia de Carmézia ou a temática indígena em primeiro plano – e olhar a pintura – descobrirá uma artista jovem, talentosa, que pode nos surpreender positivamente a cada momento e que o País merece conhecer melhor.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 
 

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Parixara
óleo sobre tela
60 x 80 cm - 2006

Carmézia Emiliano

 

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