por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

 

Carlos Scaranci

 

            A arte da surpresa

 

            No mundo globalizado em que as idéias se disseminam rapidamente e onde predomina uma estética do vale-tudo, em nome de um pluralismo, é saudável a presença de artistas plásticos que dialogam com a tradição, colocando-a em uma perspectiva que pode ser surpreendente sem a postura altiva de ser inovadora.

            Esse é o caso das obras de Carlos Scaranci. Nascido em São Paulo, SP, em 1957, cursou Comunicação (Jornalismo) na PUC-SP (1976-1980) e Artes Plásticas (Pintura e Gráfica) na Academia de  Belas Artes de Roma, Itália (1988–1992). É ainda Mestre em Educação Artística pelo Instituto de Educação da Universidade de Londres, Inglaterra (2005-2006).

            O desafio é transformar esse conhecimento adquirido na teoria e sua prática profissional, que inclui contribuições gráficas e animações para programas de televisão e telejornalismo em uma produção plástica de qualidade, seja em fotografia, escultura, pintura, desenho, instalação ou trabalho digital.

            Um aspecto de sua obra que salta aos olhos é a preocupação com o urbano, colocado numa perspectiva em que o inusitado ganha destaque. Um paradigma nesse sentido é a pintura The clown is back, na qual o personagem  é colocado em primeiro plano num cenário que inclui índices da presença da indústria e mesmo um homem de costas, talvez uma alusão ao universo capitalista.

ainda um cão, aparentemente dominado pela loucura, que parece deslocado da cena. Reside nele a ambigüidade entre o fato de ser considerado o “melhor amigo do homem”, mas também ser portador de uma importante fatia de irracionalidade e imprevisibilidade.

            As melhores obras de Scaranci trabalham com uma estrutura que foge do binarismo. Mesmo quando ele divide a tela estabelecendo áreas urbanas aparentemente mais comportadas, elas criam uma atmosfera fantástica com ressonâncias futuristas e surreais onde a surpresa é estabelecida de diversas formas.

            A presença de cães e mulheres nos diferentes ambientes introduz um clima muito próximo ao realismo fantástico, ou seja, é criada uma atmosfera fictícia, mas tão articulada em si mesma que se torna perfeitamente plausível graças à técnica apurada no ato de instaurar esse mundo próprio.

            A formação universitária erudita se faz presente nas numerosas alusões a diversos artistas. São constantes as referências a ícones da história da arte universal, como a tela Almoço na relva, de Manet, e da brasileira, como Volpi. Assim, Scaranci funciona como depósito da tradição ocidental habilmente relida e recriada.

            O deslocamento das pessoas do centro da tela ocorre em várias ocasiões. Trata-se de um recurso que lembra, em parte, o talento do pintor e aquarelista norte-americano Edward Hopper no sentido de transformar o próprio espaço como protagonista da pintura. Analogamente, o artista brasileiro obriga a uma reflexão sobre o mundo contemporâneo e o vazio existencial que o ameaça.     

            A principal característica da arte de Carlos Scaranci está no diálogo que ela oferece entre o ser humano e o meio. Eles não parecem estar juntos, harmonizados. Convivem lado a lado, mas numa relação conflitante, como mundos paralelos, justapostos, imersos em múltiplas contradições que as criações do artista paulistano destacam.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

           

 

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 The clown is back
óleo sobre tela 40 x 30 cm 2006

Carlos Scaranci

 

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