Carlos Saraiva
As paisagens mentais
O mestre espanhol Pablo
Picasso já alertava que "A arte torna-se uma mentira que nos
faz ver a realidade". Em poucos casos a máxima é tão
verdadeira quanto na pintura do português Carlos Saraiva. Em suas
telas, a realidade é apenas o ponto de partida para uma distorção
pictórica e visual que obriga o fruidor a ver o mundo circundante
com novos olhos.
Nesse processo, quando
o observador tira os olhos da tela, percebe que a fatia que
consegue captar do mundo é ínfima. Apenas ampliando seus
sentidos, como ocorre por meio da arte, ele consegue captar
filigranas de sonho e de fantasia num mundo que tantas vezes se
revela árduo e intransponível à sensibilidade e à inteligência.
Nascido em Lisboa,
Portugal, em 9 de setembro de 1957, Saraiva, filho de um oficial
do exército português, viajou pelas províncias ultramarinas
lusas, até o falecimento do pai, em 1967. Acumulou assim
passagens de três anos na Índia e cinco anos em Angola, além de
períodos passados no Egito, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé
e Príncipe.
Saraiva viajou ainda
pelos Estados Unidos, Finlândia, Espanha, França, Itália e Tunísia,
acumulando um amplo repertório. Embora demonstrasse talento para
o desenho, ele confessa que nunca pensou em ser artista plástico.
Talvez por isso, sua carreira começou apenas, em 1982, em
Portugal.
Oito anos depois, casou-se com uma
brasileira, passando a morar no Brasil, em Mogi das Cruzes, SP,
definitivamente, a partir de 1995. Paralelamente ao seu trabalho
com as tintas, Saraiva é professor de artes marciais (Karate-do).
"Ele é minha filosofia de vida. Procuro nele o equilíbrio e
a energia necessárias para toda a minha conduta e minha carreira
artística, principalmente no que diz respeito à
criatividade", afirma.
Nas primeiras exposições,
quando o artista apresentava um trabalho mais figurativo e com
grande apelo a questões ligadas à natureza, ele teve como maior
incentivador o dramaturgo e romancista português Romeu Correia,
que escreveu: "O verde e o castanho escuro estão sempre
presentes em sua obra, lembrando o afeto pelo reino vegetal e pela
terra-mãe."
Correia define Saraiva como
"criador de paisagens mais mentais que observadas". A
afirmação permanece atual, embora o artista realiza hoje um
trabalho mais conceitual, enraizado e vivido pelas experiências
pessoais, geralmente levadas à tela em pinceladas gestuais e rápidas.
"São descargas emanadas em momentos aleatórios. Não há
projetos pré-definidos e a fluidez dos traços é orientada para
uma conclusão através de estímulos", diz. "À medida
que vou pintando, componho as cores e traços, procurando uma
harmonia satisfatória."
O próprio Saraiva
relaciona seus pincéis com outras artes, como as partituras.
"Presumo que esse processo seja semelhante ao vivido por
aquele que compõe música", declara. E também com a
literatura: "Depois de concluir a obra, faço uma releitura
do trabalho e quase sempre escrevo algo sobre o que fiz."
Brota de todo esse
compromisso artístico com a qualidade, a beleza e a expressão um
estilo contemporâneo, que Saraiva chama de "expressionismo
gestual (abstrato figurativo e puro)", que tem como objetivo
primordial a simplificação do real em busca de elementos
essenciais. Fixa-se assim uma postura crítica em relação ao
real, que rejeita qualquer simplismo.
O próprio Saraiva reconhece três
etapas de seu trabalho. Inicialmente, figurativo e preciso, com
recurso à cópia, passou para uma representação da natureza,
com realce à cor e ao movimento e ênfase ao traçado e as técnicas.
Atualmente, o traço do artista, mais solto e espontâneo, permite
captar flashes das vivências e ocorrências mais marcantes, além
de permitir um maior processo de pesquisa e experimentação.
O segredo da arte de
Saraiva está em seu poder de acrescentar sempre algo à imagem ou
ao sentimento que é o ponto de partida de seu trabalho. Nesse
processo, deixa-se de lado aquilo que é facilmente percebido num
primeiro momento. Busca-se um mergulho no cotidiano das pessoas e,
para isso, para gerar uma interação, torna-se indispensável,
oferecer um algo a mais.
Um exemplo é a tela Nostalgia,
que recebeu o Troféu Lúcio Bittencourt 2000 pela Sociedade de
Cultura Latina no Brasil. O céu, em amarelo, com um sol pujante,
as montanhas em verde salpicado de marrom e os traços das três
cores, que sugerem a existência de uma cidade com algumas áreas
arborizadas, compõem uma imagem original de uma paisagem,
obrigando o espectador a refletir sobre aquilo que vê.
O quadro, exibido na Bienal do Alto
Tietê, realizada no Memorial do Alto Tietê, em 2001, evento que
reuniu artistas de cidades como Mogi das Cruzes, Suzano,
Guararema, Arujá, Ferraz de Vasconcelos e Poá, revela o talento
de Saraiva em tornar imagens aparentemente simples e econômicas
em densas reflexões sobre o ser/ parecer.
A naturalidade presente nas telas de
Saraiva corresponde ao ideal picassiano de transportar o
observador de artes plásticas a novas paragens por intermédio de
imagens. Para o artista português, o chamado real e as suas emoções
são o mote de um mundo bem mais importante que se esconde entre
as aparências.
Cada quadro é uma paisagem mental que
gera novas dimensões de análise. O que está na tela não é o
referente concreto, mas o ultrapassa. Ver o mundo pelos traços de
Saraiva é, portanto, mergulhar numa nova realidade. Suas cores e
formas apontam sempre para outra coisa, para a porta entreaberta,
para os grãos de areia que escapam entre os vãos dos dedos.
Apontam assim para o intangível e tocam na essência de cada um
de nós.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).