por Oscar D'Ambrosio


 

 


Carlos Gorriarena

 

            Um pintor que vê

 

            É fácil apresentar um pintor por aquilo que conquistou em sua trajetória, seja em termos de exposições individuais, participação em coletivas ou premiações em seu país e no exterior. O difícil é entrar no universo criativo de um artista sem se perder em elogios vazios.

            Nascido em Buenos Aires, em 1925, e falecido em 16 de janeiro de 2007, em La Paloma, Uruguai, Carlos Gorriarena oferece todas as armadilhas possíveis para que o elogiemos constantemente. A questão essencial é não perder o senso crítico e encontrar o que há nele que encanta desde o primeiro olhar. O desafio é atingir esse objetivo com alguma objetividade e racionalidade que valorize a nossa opinião.

            A pintura de Gorriarena, exposta na Galeria Thomas Cohn, de 25 de março a 22 de abril de 2006, em São Paulo, SP, com seus traços expressionistas e sua forma peculiar de utilizar a tinta nos chama pela forma do tratamento da cor. Elas costumam ser intensas, valorizando, assim, as figuras retratadas. Mas isso, por si só, não tornaria seu trabalho tão imponente.

            Há ainda a gestualidade desses personagens, principalmente das figuras femininas, que são apresentadas de modo a nos desafiar. As prostitutas  com seus vestidos decotados e bocas grosseiramente pintadas surgem em ambientes igualmente decadentes, em atmosferas que parecem atingir a essência da obra do artista: a percepção do trágico da vida. 

            Sim, Gorriarena é um pintor que vê. É um artista que sabe ver a alma das pessoas, de uma país e da humanidade. E isso não é retórica. Isso aparece como resultado plástico, seja na imagem de um militar em posição de sentido ou na prostituta junto ao seu mundo de camas e sofás.

            Há no pintor a alma do tango, naquilo que isso significa de melhor, ou seja, a capacidade de transformar a amarga consciência do existir em arte. E o desafio não é pequeno. Surge o risco da melancolia vazia ou do exagero melancólico. Gorriarena foge dos dois extremos. Com uma mescla bem temperada, dá tratamento de qualidade pictórica à agonia humana.

            Rostos levemente deformados, cores fortes, figuras reconhecíveis mas transportadas a outra dimensão trazem uma crítica ao mundo cotidiano, mas sem a frieza objetiva, por exemplo, de boa parte da arte nórdica ou mesmo de alguns representantes germânicos ou belgas. Latino e “caliente” em sua expressão artística, os seres que pinta nos comovem e chamam ao diálogo.

            E isso não é simples de ser feito com pincéis e tintas. Cada tela do artista argentino propõe uma conversa com o observador, que não sairá ileso dessa sessão no divã. Uma boa pintura vale mais que um discurso psicanalítico quando gera naquele que olha um quadro um profundo silêncio.

            Não se trata aqui de uma postura de admiração cálida e contemplativa, mas de discussão visceral e participativa. A pintura de Carlos Gorriarena não admite o silêncio. Exige comprometimento e não comporta elogios vazios. Demanda um olhar próximo, íntimo, indagador.

Suas imagens ficam na mente porque falam ao nosso corpo e a nossa alma. São eternas, porque foram construídas com traços e cores fortes de alguém que sabe ver a humanidade e a devolve, como poucos, na forma de arte da melhor qualidade e expressividade.

 

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp/São Paulo/Brasil), integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

 
 

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Luces amarillas
acrílica sobre tela - 190 x 150 cm 2000

Carlos Gorriarena

 

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