Carlo
Cury
A arte que indaga
Existem artistas que
desenham baseados na linha e os que precisam de massas de tinta
para realizar o seu trabalho. Alguns preferem a superfície,
enquanto outros só se satisfazem com o volume. Há ainda aqueles
que dedicam a sua carreira a realizar uma interminável pesquisa
das potencialidades dos materiais e das próprias possibilidades
de expressão.
O artista plástico
Carlo Cury pertence a esse último grupo. Nascido em Piraju,
interior de São Paulo e formado em Arquitetura, desde criança
exerceu, com menos consciência do que agora, a função de criar.
O desenho era mais que uma diversão, mas uma forma de se
relacionar com o mundo.
Em seu trabalho plástico,
Cury fala a linguagem das transparências. A tinta surge em
camadas finas e todo excesso é tirado em busca da expressão mais
precisa. Trata-se de um diálogo com os materiais constante, que
permite inúmeras possibilidades, seja pela adição ou pela
subtração de materiais.
No primeiro caso,
folhas de prata ou pedaços de camisa são adicionados à tela. As
colagens são elementos quase sempre presentes, de forma mais ou
menos explícita. Assim, cada trabalho estabelece uma relação
com o universo que extrapola a tela e se relaciona com o interior
de cada observador.
Com o segundo recurso,
a subtração, a tela pode ser recortada, furada ou raspada. As
transparências já mencionadas chegam ao extremo, pois surge o
jogo entre as texturas e camadas de tinta e a ausência do
suporte. Nascem assim elos entre
ter/não ter e ver/ser visto.
O resultado dessa técnica,
além do ludismo, é uma obra desafiadora, que parte de uma temática
para explorar a potencialidade dos materiais. A
recusa a soluções simplistas é uma constante e exige
grande humildade de Cury perante aquilo que deseja trabalhar. Por
isso, a pesquisa surge como prática constante.
Cada tela é um exercício,
uma somatória de forças interiores em nome de uma pesquisa em
que a cor assume grande relevância. Estruturas geométricas
ganham destaque, mas não significam falta de humanidade ou dureza
de composição. Pelo contrário, são uma linguagem que o artista
explora ao máximo.
Na
busca perene de um universo colorístico regido pela delicadeza,
pelo diálogo construtivo e pela responsabilidade criativa perante
o mundo e perante si mesmo, Carlo Cury mantém a procura da
qualidade como norte de sua prática artística e existencial. Daí
surgem telas que indagam com a precisão de uma lâmina afiada e
encantam com o refinamento da nobre seda.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes
(IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É
autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha
América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado
de São Paulo).