A Capela Sistina
Prelúdio de uma
Jornada Poético-Pictórica
Se existem
lugares em que a arte se aproxima de Deus, um deles é a Capela
Sistina. Esta dependência do Palácio do Vaticano, em Roma,
atinge o absoluto graças aos magníficos afrescos pintados por
Michelangelo, Perugino, Ghirlandaio e Botticelli, entre outros
artistas do Renascimento.
Temas do Antigo e
do Novo Testamento são o ponto de partida das imagens imortais da
Capela. Seu nome é uma homenagem ao Papa Sisto IV, que ordenou a
sua construção em 1475. Os trabalhos se prolongaram até 1483 e,
atualmente, a Capela é usada para as reuniões do Colégio dos
Cardeais destinadas a eleger os novos Papas e também para cerimônias
da Semana Santa
O projeto da
Capela Sistina, segundo o arquiteto e teórico italiano Giorgio
Vasari, foi de Baccio Ponteli; porém, nas notas de pagamento,
figura o nome do florentino Giovannini de Dolci. Polêmica à
parte, o importante é que externamente o edifício parece uma
fortaleza, deixando evidente que a função da Capela seria apenas
a de uso interno dos moradores do Palácio do Vaticano,
principalmente do Papa.
Ao que tudo
indica, as dimensões parecem ter sido inspiradas nas do templo de
Salomão, descrito na Bíblia, e o teto abobadado era
originariamente desprovido de qualquer adorno pictórico. Ainda
sob o papado de Sisto IV, começaram as decorações das paredes.
Pedro Perugino, Cosimo Roselli, Sandro Botticelli, Domenico
Ghirlandaio, professor de Michelangelo, e Luca Signorelli pintaram
quadros da vida de Moisés e de Jesus Cristo, além de uma série
de Papas entre as janelas, seis no alto de cada parede lateral.
Entretanto, em
maio de 1508, o Papa Júlio II, sobrinho de Sisto IV, encomendou a
Michelangelo o afresco que hoje decora o teto da Capela. O artista
florentino aceitou o desafio pleno de dúvidas, pois
considerava-se mais um escultor do que pintor, preferindo os
blocos de mármore de Carrara aos pincéis.
A obra foi
terminada em outubro de 1512, sendo o resultado de um processo
muito doloroso. No plano físico, a posição incômoda em que o
artista tinha que pintar, sobre andaimes, todo retorcido e com
gotas de tinta prejudicando-lhe a visão, causava cansaço. Além
disso, segundo alguns historiadores e críticos de arte,
Michelangelo sofria veladas ameaças de que seria substituído
pelo jovem pintor Rafael, então em ascensão, se o seu trabalho não
agradasse ou não correspondesse aos desejos do Papa.
Mas o resultado
foi magnífico, superando qualquer expectativa. Michelangelo
representou, seguindo uma ordenação teológica, desde a Criação
do Universo até a Embriaguez de Noé, incluindo mais sete episódios
do Gênesis, além de sete profetas, cinco sibilas, que teriam
anunciado a vinda de Cristo, e quatro cenas nos cantos
representando façanhas de heróis do povo de Israel: Davi
vencendo Golias, Judite matando Holofernes, Ester denunciando as
perseguições de Amã aos judeus e o episódio em que, picados
por serpentes venenosas, aqueles que tivessem fé poderiam se
curar olhando para uma serpente de bronze, colocada no alto de um
poste por Moisés.
O primeiro
projeto que começou a ser pintado por Michelangelo, contudo, era
bem mais modesto, limitando-se a representações dos 12 Apóstolos.
Porém, não demorou muito para o artista perceber que o espaço a
ser preenchido exigia uma obra colossal. Com liberdade de criação
e assessoria teológica do próprio Júlio II, Michelangelo
conseguiu realizar o seu intento, pintando uma síntese da Origem
do Universo e do Homem.
Todo o teto é
ocupado por uma composição unitária. São 40 m de comprimento e
13 m de largura subdivididos em nove áreas centrais. A disposição
das figuras não é aleatória. Um dado nesse sentido é o fato do
profeta Jonas estar representado sobre a parede do altar, pois
simboliza exatamente Cristo ressuscitado.
Segundo a Bíblia,
Jonas ficou três dias no ventre de uma baleia antes de ser lançado
à praia de Nínive, cidade em que não queria pregar, enquanto,
Jesus, analogamente, ressuscitou no terceiro dia após a sua morte
na Cruz. A analogia torna-se ainda mais evidente com a posterior
pintura do Juízo Final pelo próprio Michelangelo na parede atrás
do altar. No afresco, Cristo ocupa justamente o local central,
travando um diálogo teológico com Jonas logo acima. Ambos
caracterizam-se pela trindade (ficaram mortos três dias) e pela
ressurreição.
Quanto às
paredes da Capela, Leão X ordenou a feitura de tapeçarias com
cenas envolvendo os Apóstolos. Os desenhos foram realizados por
Rafael e o resultado final está hoje conservado na Pinacoteca do
Vaticano, tendo sido exposto pela primeira vez na Capela em 1519,
no dia de Santo Estevam.
Não se pode
deixar ainda de referir ao talento de Michelangelo na execução
do Juízo Final. Em 1533, vinte e um anos após a decoração do
teto da Capela, Clemente VII, da família Médicis, tradicional
pelo poder em Florença e pela prática do mecenato, fez a
encomenda ao artista florentino.
Mas nada foi
feito até que Paulo III, da família Farnese, no ano seguinte,
confirmasse o interesse pela obra, destinada a decorar a enorme
parede sobre o altar. Tratava-se de um desafio considerável. A
responsabilidade era imensa para um artista que, já com 60 anos,
via-se mais uma vez obrigado a deixar o cinzel e o martelo de suas
amadas esculturas pelos pincéis abandonados há 20 anos.
Ao contrário do
que ocorreu com o teto da Capela, a escolha do tema não foi
problemática. Desde o início da Idade Média, o tema do Juízo
Final costumava ocupar a parede de entrada das Igrejas. A
dificuldade é que o espaço a ser pintado era a parede dos
fundos. Isto obrigou Michelangelo a cobrir duas janelas da
arquitetura original, dois afrescos de Perugino e figuras que ele
mesmo havia realizado quando decorara o teto.
Com essas
modificações, a parede ficou 200 m2, vazio preenchido
por 391 figuras, muitas em tamanho superior ao natural. Iniciada
em 1535, a obra foi concluída em 31 de outubro de 1541. No mesmo
dia, Paulo III ordenou a rápida retirada dos andaimes para
celebrar um Ofício aos pés do extraordinário trabalho.
Maravilhado, o crítico
Vasari, ao olhar aquelas figuras com formas e rostos distorcidos,
viu, "pensamentos e emoções que, melhor do que ninguém,
ele (Michelangelo) soube pintar". De fato, a obra fugia aos
ditames clássicos da Renascença, apontando para o Maneirismo
italiano e o posterior Barroco, expressão estilística de seres
humanos cada vez mais dilacerados entre o sagrado e o profano.
Por essas enigmáticas
coincidências em que a vida imita a arte, um dos maiores
representantes do Barroco italiano é exatamente outro pintor também
chamado Michelangelo. Todavia, seu sobrenome não era Buonarroti,
como o escultor florentino, mas Merisi. Este talentoso artista,
porém, ficou mais conhecido como Caravaggio, nome da aldeia de
onde a sua família era originária.
Mestre das luzes,
mas também talentoso com as formas como o seu homônimo,
Caravaggio, expõe em suas telas uma agonia de existir e uma
turbulência capazes de gerar obras de arte ímpares. Nessa ótica,
Michelangelo e Caravaggio levam o fruidor dos seus trabalhos,
sejam esculturas ou pinturas, à transcendência, expondo, seja
nos temas, nos traços, nas cores, nas formas ou nas luzes, o
sublime e o amargo da existência humana.
Pelo que foi dito
até aqui, fica evidente que a Capela Sistina reúne obras
magistrais da pintura do Renascimento e do patrimônio artístico
da humanidade. Além disso, a temática abordada, seja no teto, no
Juízo Final ou nas pinturas laterais, propõe ao observador uma
visão cristã do mundo com ampla significação em uma dimensão
física e simbólica até então nunca atingida e, sob certos
aspectos, insuperável mesmo em nossos dias.
A jornada poética
a que estamos convidando o leitor tem o intuito de penetrar em
algumas de suas facetas, propiciadas pelas pinturas, pelo passado
da Capela e pela sua significação presente. Fatos e figuras históricas,
profetas, sibilas e episódios bíblicos são relacionados durante
33 poemas (justamente a idade da morte de Jesus), que não
pretendem a perfeição estilística ou formal, mas sim constituir
um agradável e educativo mergulho no denso universo da Capela
Sistina, um local divino em que a fé, o conhecimento teológico e
a sensibilidade se conjugam em mística, misteriosa e sagrada
harmonia.
I- Sisto IV
Tio de Júlio II,
iniciou
a construção da
Capela Sistina.
Como todo Papa,
era humano.
Dizem que
outorgou
a familiares
favores e cargos oficiais
e que praticou a
simonia,
comprando e
vendendo privilégios sagrados.
Poucos se lembram
disso.
Foi a Capela que
sonhou
que o consagrou
para a
eternidade.
Guarda um teto
divino,
criado pelo
florentino Michelangelo,
um artista com mãos
de anjo.
II – Júlio II
Dividia-se entre
a espada e
os livros
sagrados.
Mas sabia que a
imortalidade
está na arte.
Foi patrono de
Michelangelo
e o estimulou a
pintar
o teto da Capela
Sistina,
obra acima das
palavras.
Quem se lembraria
do sacerdote
se o escultor
florentino
não tivesse
feito
um manto celeste?
III -
Michelangelo
Era escultor
e não pintor,
mas pintava
como um escultor.
Suas formas
revelam volumes
suas cores são
tangíveis.
Não queria
pintar,
mas,
no teto da Capela
Sistina,
encontrou sua
obra épica.
Maravilhou o
mundo
sem se
satisfazer.
Queria esculpir
a própria vida,
não pintá-la.
IV- Rafael
Rafael pintava
como Rafael.
Não era
Michelangelo
e,
quando tentou sê-lo,
o pincel
desafinou.
Cada um tem seu
estilo
e o de Rafael era
o do bom moço.
Michelangelo era
a agonia
transformada em
gente.
Rafael era o clássico
domínio
da arte
renascentista.
Não se pode
pedir de um homem
mais ou menos do
que ele é.
Rafael era um
homem da Renascença,
um pintor que
pincelava poesia.
V- Pintura e
escultura
Esculpir
é transformar mármore
em gente,
fazendo nascer,
do bloco imenso e
pesado,
a figura
adormecida.
O escultor
é um parteiro de
formas.
Pintar
é transformar
cores e traços em gente,
fazendo nascer,
das paredes com
rachaduras,
uma alegoria
inimaginável.
O pintor
é um poeta das
tintas.
VI- O trabalho
.
Não é fácil
criar uma alegoria.
Quatro anos são
muitas horas
a lidar com
tintas.
O pescoço
esticado,
as costas
curvadas,
os olhos
salpicados,
a ansiedade,
o receio de
jamais terminar...
A visão
prejudicada,
o dedo de Deus
tocando Adão.
Michelangelo fez
um teto divino,
vivendo
imerso
no inferno.
VII- A serpente
de bronze
O povo escolhido
não raras vezes
deixava Deus de
lado.
Adorava bezerros
dourados ou outras divindades.
Deus castigava.
Certa vez, enviou
a morte na forma de serpentes venenosas.
Moisés foi o
responsável pela fabricação do antídoto:
uma serpente de
bronze,
colocada no alto
de um poste.
Quem a olhasse
se salvava das
picadas letais.
Quem insistisse
em desafiar o
poder divino,
fenecia
com dores
lancinantes.
VIII- A morte de
Amã
Foi em Susa, Pérsia,
que a judia Ester
se tornou rainha.
Porém, o maior
desafio
era proteger seu
povo
de Amã,
o grão-vizir
perseguidor de
judeus.
Amã preparou uma
forca
para Mardoqueu,
pai adotivo de Éster.
Mas Éster
revelou ao rei a trama.
E Amã
foi pendurado
no cadafalso que
mandara erguer.
IX- Judite e
Holofernes
Os judeus
derrotaram os assírios
graças a uma
mulher,
uma viúva
chamada Judite.
Heroína,
não hesitou
em seduzir
o general rival
Holofernes.
Em seguida,
o indefeso
militar
conheceu as
trevas.
Judite matou
em nome do povo.
Através de um
corpo,
salvou
uma nação.
X- David e Golias
As batalhas são
sempre desafios.
O grande ameaça
o pequeno.
A armadura não
respeita a simplicidade.
O vitorioso
nunca espera
conhecer uma derrota.
O aparentemente
indefeso sabe:
o medo é fatal.
Nas lutas entre
rivais desiguais,
o que vale é a
psicologia.
Se um ri,
convencido da superioridade,
o outro
racionaliza as possibilidades.
Assim,
o fraco fica
forte
e o forte é
derrotado pelo fraco.
A aparência é
mais uma vez derrotada.
XI- Sibila líbia
O norte da África
comporta
enigmas e
segredos.
A sibila
os decifra.
Não há caos em
que ela não penetre.
Não existe luz
que não busque atingir.
A sibila
conhece o futuro
e não teme
as conseqüências.
O poder sagrado
não receia
o profano e efêmero
saber temporal.
XII- Sibila pérsica
O Oriente Médio
também tinha
suas mulheres
sagradas.
A sibila da Pérsia
dizia
o que muitos
sentiam.
O papel dos seres
sagrados
é cristalizar
as verdades não
manifestas
do inconsciente
coletivo.
Todos sabem ou
desconfiam
e não
verbalizam.
A sibila, por sua
vez,
fala
e assombra.
XIII- Sibila cuméia
Perto de Nápoles,
na mais antiga
colônia grega na Itália,
havia um
importante santuário.
Em sua caverna,
a sibila
realizava
profecias.
A cidade de Cumae
abrigava
o santuário e a
sibila,
a sibila e o
santuário.
Como separar
um local sagrado
de sua sacerdotisa?
Pela divina língua
da sibila,
são ditas
verdades sobre
os homens e seus
destinos.
XIV- Sibila eritréia
Local seco e
quente,
próximo ao Mar
Vermelho,
a Eritréia
era
uma província ao
norte
da atual Etiópia.
Lá também havia
sibilas,
prontas a
vaticinar caminhos
e a desvendar
insondáveis
pesadelos.
Cada sibila sabe
o que diz,
mas interpretar
a voz da razão
é
um perene
desafio.
XV- Sibila délfica
O Oráculo de
Delfos,
consagrado
ao solar deus
grego Apolo,
era o reduto da
sabedoria helênica.
A sibila
respondia a todos,
sempre com
enigmas.
Assim, Édipo
não percebeu
que,
ao tentar fugir
da profecia,
caminhava para a
confirmação do oráculo.
Quando a verdade
não pode ser dita
claramente,
usam-se metáforas.
E nem todos as
decifram.
XVI- Jonas
Ficou três dias
no ventre de uma
baleia.
E ressurgiu para
a vida
na praia em que
se negava a pregar.
Tentou fugir de
seu destino
mas não pode
reagir ao seu chamado.
Como Cristo,
demorou três dias
para renascer.
Algo os iguala.
Uma missão
precisava ser cumprida.
Quanto antes
melhor.
Ressurgindo das
trevas,
mostraram:
a luz existe.
Basta crer e
lutar por ela.
XVII- Jeremias
Profetizou
a conquista de
Judá pela Babilônia
e
a destruição de
Jerusalém.
Avisou:
sem fé,
perde-se o
sustentáculo
do corpo e da
alma;
e
quem deixa de
lado a tradição
em nome do vazio
existencial
vê os caminhos
se estreitarem.
A nitidez se
esvai
perante as dúvidas.
Verdades e
mentiras se confundem.
As superstições
dominam,
ocupando os espaços
do inexplicável.
XVIII- Daniel
Esteve cativo na
Babilônia,
mas interpretava
sonhos e realizava profecias.
Era diferente,
tão diferente
que escapou ileso
da cova dos leões.
Os reis do mundo
animal
pouco ou nada
puderam perante
o homem
diferente,
protegido pelo
Deus dos homens.
Salvar-se foi um
milagre vivo na memória presente.
Quando novamente
os leões
se ajoelharão
perante um homem?
XIX- Ezequiel
Deportado para a
Babilônia,
previu
a destruição de
Jerusalém
e
a restauração
de Israel.
Suas palavras,
frases e raciocínios
clamavam
a santidade de
Deus
e
a necessidade da
vida espiritual.
Ver adiante
e mais longe
é uma dádiva.
Mas a maior de
todas
é saber
utiliza-la.
XX- Isaías
Amigo e
conselheiro de reis,
condenava as
injustiças sociais.
Queria igualdade
entre os homens
e
paz entre os
povos.
Sabia que Deus
é o Deus de
todas as nações.
Se castiga,
é para levar ao
arrependimento.
E, ao perdoar,
a divindade
atinge sua glória suprema.
É no perdão
que Deus
mostra que é
Deus.
É no ato de
pedir perdão e no arrependimento
que o homem
se valoriza como
homem.
XXI- Joel
Na era messiânica,
a efusão do espírito
de Deus
estaria sobre o
povo escolhido.
As nações
seriam julgadas
de acordo com o
seu comportamento.
Ao fazer previsões,
viu que o que
ninguém antes vira.
Falou com coragem
e desprendimento.
Não se
preocupava em
agradar os
poderosos.
Tinha consciência
de que a palavra
não nasceu
para ser usada em
vão.
XXII- Zacarias
Prenuncia
o nascimento
de Israel.
A capacidade
de saber antes
também provoca
dor.
É um privilégio,
uma benção,
mas contém
o eterno terno
receio
de ser um falso
profeta.
Na fé, a melhor
resposta.
O profeta comunga
com os anjos;
e a palavra de
Deus
está em suas
palavras.
XXIII- Separação
das luz das trevas
As trevas
são a resistência
do inconsciente.
Impedem o homem
de pensar com clareza.
São o universo
dos instintos.
As trevas
são a morada do
desconhecido.
Impõem o medo.
São o escuro
inverno da mente.
A luz traz
a consciência
renovadora,
a busca
incessante.
da verdade.
Onde há dúvidas,
procuram-se
caminhos.
O horizonte
aparece
mesmo para os
mais aflitos.
XXIV- Criação
do sol, da lua e dos planetas
O universo se
expande
em todas as direções.
As espécies são
infinitas.
Os limites
desaparecem.
Cada criatura
homenageia o
Criador a seu modo.
É parte Dele.
Somos todos
partes de um todo
nem sempre
claramente
compreensível.
Somos todos
criaturas,
seres criados por
algum motivo.
Foge ao nosso
entendimento
o porquê.
Mas isso faz
parte
de todo jogo da
existência.
XXV- Separação
da terra das águas
O solo e o mar
permeiam a vida.
Piso forte e
sinto o calor da terra.
Mergulho fundo e
sinto o clamor do mar.
Amar o mar e a
terra que me cercam
é um destino já
escrito.
Temê-los também.
Podem surpreender
o menos avisado.
Podem matar o
orgulhoso da própria força.
Jamais os
esquecemos em sonhos.
Aparecem lentos e
serenos,
movediços e
revoltos.
Aparecem
e podem
nos fazer
desaparecer.
XXVI- Criação
de Adão
Com um mero tocar
de dedos,
criou-se o sonho
e o medo.
Cada homem passou
a vagar
sem saber qual
exatamente
o seu sentido.
A viagem
vivencial começava
e a jornada não
era fácil
como podia
parecer.
Os dedos
produziram arte, violência e vingança.
De tudo um pouco,
mas,
mesmo na maior
das crises,
não se perderam
os olhos verdes
da esperança.
XXVII- Criação
de Eva
De uma parte do
homem,
surge a mulher,
uma parte do todo
ou
o todo de uma
parte?
A dúvida resiste
à retórica e
aos poetas.
Torna-se uma
esfinge
criadora de
enigmas
e devoradora de
falsidades.
Integrados pelo
tempo,
homem e mulher
caminham
pela mesma
jornada
vocacionada ao
amor.
XXVIII- Tentação
e expulsão do Paraíso
O fruto proibido
é muito mais do
que um fruto.
É o próprio
interdito,
símbolo da
pureza perdida.
Perder a fé
é como perder a
alma.
Não há mais
identidade.
Resta apenas a
sombra do que se foi.
O medo
desconhecido surge.
O pudor nasce.
A inocência não
existia
antes de o homem
provar o pecado
da
árvore
proibida.
XXIX- Sacrifício
de Noé
Na saída da
Arca,
animais domésticos,
aves e répteis
foram mortos
em honra ao
Senhor.
Um mundo novo
começava.
Um novo homem
deveria seguir o
seu caminho.
Será que
estamos mais
puros do que antes?
Será que
o ser humano
aprendeu a lição?
Olho ao meu redor
e
duvido.
XXX- O dilúvio
Choveu 40 dias.
A terra foi
varrida
com uma
intensidade jamais vista.
A água purifica
e renova.
Apenas alguns
flutuaram,
salvos na Arca
sagrada.
A água tudo
transforma.
Nada deixa como
antes.
Ocorrem mudanças
em nível
físico,
psicológico,
existencial.
A chuva parou.
O mundo era
outro.
XXXI- A
embriaguez de Noé
Findo o dilúvio,
Noé plantava.
Colhendo uvas,
conhece a
embriaguez.
Fica nu,
fora de si,
entusiasmado com
o conhecimento de Dionísio.
Há quem olhe,
há quem o cubra.
A bebida
transforma
em impura a
pureza dos líquidos.
A bebida
perde
a razão
Baco chega ao êxtase.
Noé alerta:
o homem é falível.
XXXII- Juízo
Final
O mais barroco
dos renascentistas
deixou sua
obra-prima.
As claras distinções
entre
Céu e Inferno
perderam os
alicerces.
Almas sofridas
preenchem
a vista
e não se sabe
bem
quem
se salvou
e quem
foi condenado.
O gesto de Cristo
salva
e
condena.
Predomina a
incerteza
e
o espanto
do observador:
qual será,
Michelangelo,
o destino da
minha alma?
XXXIII-
Caravaggio
Chamava-se
Michelangelo Merisi.
Nasceu
provavelmente em Milão,
mas sua família
era da aldeia de Caravaggio.
Daí o nome que o
consagrou.
Tinha o talento
de Michelangelo,
seu senso de
observação
e intensidade
dramática.
Entretanto,
preferiu a luz
ao desenho e à
cor.
Constitui a
plenitude do barroco italiano,
contrastando
luz e sombra.
Sem ornamentos,
criou a luz
barroca,
prevista nos traços
do profético e sábio
mestre
da Capela
Sistina.