por Oscar D'Ambrosio


 

 


Caminhos de papel

 

            O objetivo desta exposição é a discussão do próprio papel como suporte. Inventado na China há mais de 2 mil anos, ele sofre alguns preconceitos ligados, por exemplo, à sua conservação, que são fruto de um  pensamento eurocêntrico que tende a considerar nobre apenas a pintura em óleo sobre tela.

As obras aqui reunidas geram no observador numerosos questionamentos, motivando uma reflexão sobre o mundo circundante e mobilizando internamente os indivíduos. A técnica sobre papel, assim, aliada ao pensamento, oferece discussão de problemas tanto técnicos quanto existenciais.

            Aline Hannun utiliza suas cores fortes para compor um cenário idílico, repleto de harmonia. Seu trabalho enfoca paisagens marcadas por cores em tonalidades fortes, que estabelecem uma atmosfera de sonhos. Variações desse tema sugerem o domínio de diferentes técnicas, constituindo novas possibilidades de leituras do mundo.

            Clara Marinho cria, sobre o papel, o seu próprio caminho, em imagens que mostram como as jornadas individuais sobre um material podem ser das mais diversas formas. O essencial é verificar como um percurso tanto pode ser realizado sobre uma imagem concreta, como progressivamente destruído, sugerindo novas conotações. 

            Lú Salum utiliza a técnica na qual é especialista, a encáustica, conhecida também como pintura a fogo, porque os pigmentos de cor são diluídos em cera quente, com um gesto bastante expressivo e a busca de um jogo de cores e uma estrutura visual em que o papel e a técnica andam lado a lado, num diálogo mútuo. 

            Rita Bassan se vale do preto e branco para estabelecer seu pensamento plástico. Poucos elementos sobre o papel podem sugerir atmosferas desde que distribuídos em nome do equilíbrio e da busca de uma configuração interna que valorize os seus próprios elementos, conjugando vigor no traço com lirismo.

            A figura humana, a economia de trações e o uso da linha breve para dar respostas plásticas a questionamentos visuais motiva Sandra Scaffide. O trabalho com silhuetas, sombras e plantas mostra que existe um grande desafio na maneira de lidar com os brancos que o papel oferece. Saber quando usá-los é tão importante quanto pintar.

            Silvia Fischetti desenvolve um trabalho marcado pela pesquisa visual. A escolha como assunto de janelas entreabertas, na técnica do giz papel, proporciona a oportunidade de explorar transparências e possibilidades visuais em que as estruturas de composição podem ser destruídas e reconstruídas infinitamente.     

            Cada artista manifesta, com a técnica escolhida, um gesto, uma marca digital, um movimento da mão e uma visão de mundo, ou seja, um raciocínio visual, um caminho plástico. Além da sua qualidade intrínseca, a exposição tem o mérito de trazer o uso do papel como suporte, um universo com múltiplas possibilidades de exploração, que depende, acima de tudo, de dois elementos: a técnica e a criatividade, atributos que as seis artistas reúnem neste projeto e potencializam para trabalhos futuros. 

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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