por Oscar D'Ambrosio


 

 


Sônia Menna Barreto

 

Caleidoscópio de seleções horizontais e verticais

 

Pintar nunca pode deixar de ser um prazer. Quando isso ocorre, torna-se uma obrigação tediosa, que se perde a força motriz do ato criativo, que está em ver cada trabalho como se fosse o primeiro a ser realizado, pleno de expectativas, medos e – por que não? – frustrações.

            Sônia Menna Barreto mantém essa característica em suas produções mais recentes, onde busca o estabelecimento de uma forma muito peculiar de pensamento de adição e de subtração de pintura. Ela consegue incorporar a idéia do giclée à de produção renovada de imagens previamente impressas.

            Trata-se de uma intervenção realizada sobre imagens derivadas de uma mesma pintura inicial impressa com jato de tinta. Esse processo de trabalho inaugura um pensamento nos procedimentos da artista, pois exige um pensar sobre mecanismos de seleção das imagens que se deseja preservar, daquelas que sofrem interferências e daquelas que serão acrescentadas.

O giclée ganha, portanto, uma outra dimensão. Cada reprodução passa a ter um aspecto único e, muito mais do que uma imagem, temos o expressar de um sentir perante a própria obra criada. Existe então uma maneira de conceber a arte em dois eixos: o horizontal e o vertical.

No primeiro, existe a preocupação com o todo, ou seja, trata-se de uma discussão sintagmática em que cada elemento se relaciona com os outros no sentido de estabelecer uma proveitosa harmonia em termos de cores, formas e elementos. É nas relações e elos entre as figuras apresentadas e os seus cenários que as intervenções ganham valor em cada caso.

Em termos de verticalidade, discute-se o paradigma, ou seja, as seleções se dão no interior de cada imagem. Se é escolhido um arlequim, por exemplo, entre outras possibilidades do sintagma, o passo seguinte está em pensar como ele será em termos de posição, cores e seus elementos plásticos intrínsecos.

Na interação entre os dois eixos, a obra de Sônia Menna Barreto passa a ganhar uma nova perspectiva motivadora. As interferências em cada giclée são obras únicas, séries dentro de uma mesma matriz que as gerou como ponto de partida. Isso significa que a obra originalmente pintada e depois reproduzida ganha uma continuidade expressa em imagens que inevitavelmente serão comparadas às originais em busca de semelhanças, diferenças e aproximações.

Instaura-se o lúdico associado ao talento plástico. Após realizadas as escolhas formais e concretizada a realização esmerada, o resultado aponta instigantes  e caleidoscópicas possibilidades. Trata-se de um intenso caminhar por uma vereda em que cada obra é única pelo processo recebido e se alia a suas irmãs que lhe servem de matriz. Conversa assim no ineditismo do vertical e na riqueza do diálogo horizontal com suas irmãs de criação.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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