Sônia Menna Barreto
Caleidoscópio de
seleções
horizontais e
verticais
Pintar
nunca pode
deixar de
ser
um
prazer.
Quando
isso ocorre, torna-se uma
obrigação
tediosa,
já
que se perde a
força
motriz do
ato
criativo,
que está
em
ver
cada
trabalho
como se fosse o
primeiro a
ser realizado,
pleno de
expectativas,
medos e –
por
que
não? –
frustrações.
Sônia Menna
Barreto mantém essa
característica
em
suas
produções
mais
recentes,
onde
busca o
estabelecimento de uma
forma
muito
peculiar de
pensamento de
adição e de
subtração de
pintura.
Ela consegue
incorporar a
idéia do giclée à de
produção renovada de
imagens previamente impressas.
Trata-se de
uma
intervenção realizada
sobre
imagens derivadas de uma
mesma
pintura
inicial
impressa
com
jato de
tinta.
Esse
processo de
trabalho inaugura
um
pensamento
nos procedimentos da
artista,
pois exige
um
pensar
sobre
mecanismos de
seleção das
imagens
que se
deseja
preservar, daquelas
que sofrem
interferências e daquelas
que
serão acrescentadas.
O giclée
ganha,
portanto, uma
outra
dimensão.
Cada
reprodução
passa a
ter
um
aspecto
único e,
muito
mais do
que uma
imagem, temos
aí o
expressar de
um
sentir
perante a
própria
obra
criada. Existe
então uma
maneira de
conceber a
arte
em
dois
eixos: o
horizontal e o
vertical.
No
primeiro, existe a
preocupação
com o
todo,
ou seja, trata-se de uma
discussão sintagmática
em
que
cada
elemento se relaciona
com os
outros no
sentido de
estabelecer uma
proveitosa
harmonia
em
termos de
cores,
formas e
elementos. É nas
relações e
elos
entre as
figuras apresentadas e os
seus
cenários
que as
intervenções ganham
valor
em
cada
caso.
Em
termos de verticalidade, discute-se o
paradigma,
ou seja, as
seleções se dão no
interior de
cada
imagem. Se é escolhido
um
arlequim,
por
exemplo,
entre outras possibilidades do
sintagma, o
passo
seguinte está
em
pensar
como
ele será
em
termos de
posição,
cores e
seus
elementos
plásticos
intrínsecos.
Na
interação
entre os
dois
eixos, a
obra de Sônia Menna Barreto
passa a
ganhar uma
nova
perspectiva motivadora. As
interferências
em
cada giclée
são
obras únicas,
séries
dentro de uma
mesma
matriz
que as gerou
como
ponto de
partida.
Isso significa
que a
obra
originalmente
pintada e
depois reproduzida
ganha uma continuidade
expressa
em
imagens
que inevitavelmente
serão comparadas às
originais
em
busca de
semelhanças,
diferenças e
aproximações.
Instaura-se o
lúdico
associado ao
talento
plástico.
Após realizadas as
escolhas
formais e concretizada a
realização esmerada, o
resultado aponta
instigantes e caleidoscópicas
possibilidades. Trata-se de
um
intenso
caminhar
por uma
vereda
em
que
cada
obra é
única
pelo
processo recebido e se alia a
suas irmãs
que
lhe servem de
matriz.
Conversa
assim no
ineditismo do
vertical e na
riqueza do
diálogo
horizontal
com
suas irmãs de
criação.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da UNESP, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).