Cacosta
O intenso poder da imagem
Vigor. Talvez seja essa a palavra que
melhor define a pintura do artista plástico Cacosta. Suas telas
traçam um amplo painel da cultura negra com um estilo
caracterizado por cores marcantes, que se articulam para construir
imagens que permitem vislumbrar como a sociedade está repleta de
personagens marginalizados, que podem ser encontrados tocando um
instrumento musical no morro ou pedindo esmola em qualquer
esquina.
A música é justamente um ponto de
partida para numerosas telas. Em algumas, como Inocência musical,
é possível visualizar diversos instrumentistas em cor azul sobre
um fundo laranja. Nas laterais, crianças brincando com pião e
com bexiga observam tudo. O som parece chegar aos ouvidos do
observador, que se encanta com uma atmosfera alegre e de
virtuosismo.
A voz do morro, por sua vez, apresenta
homens tocando, numa visão romântica da importância da música
como elo de comunicação entre as pessoas. Em outra tela,
intitulada Ode ao feminino, é um quarteto de mulheres, em tons
derivados do amarelo, que se comunica com o som de instrumentos
como o violoncelo e o violino.
Cacosta desenvolve um intenso trabalho
com grupos. Em Rainha mãe, por exemplo, sobre um fundo de um
verde intenso e um sol/lua vermelho (a), três mulheres vestidas
de baiana compõem um universo mágico.
A figura central surge socando um
pilão, enquanto a da esquerda observa atentamente e a da direita
dorme, descansando a cabeça no joelho da poderosa imagem
matriarcal central.
O resultado é um diálogo entre as
três figuras repletas de poesia e lirismo, marcas também
presentes em Negra Odara, imagem forte de uma única figura
feminina de braços cruzados com uma flor na mão direita.
Além de seu trabalho com conjuntos de
imagens, Cacosta desenvolve obras de amplo poder expressivo quando
se debruça sobre figuras solitárias. Elas costumam adquirir uma
força épica, como se fossem representantes de um desejo
sobre-humano de sobrevivência numa sociedade que teima em deixar
os negros como cidadãos de segunda categoria.
A música e a marginalização do
negro são temas que se intercruzam em telas como “Sanfonia”
da esmola, em que um instrumentista aparece sentado numa guia de
calçada, solitário, com a latinha ao lado esperando a doação
dos transeuntes. A sonoridade imagética contrasta com a
miserável condição social.
A exclusão social surge ainda em
imagens como Des-“graçados” e Na calada da noite. Em ambas
predomina a cor azul e o clima de miséria, dor e falta de
oportunidade. No primeiro quadro, aureolas cercam a família que
protagoniza o quadro, enquanto no segundo o sofrimento aparece com
mais força pela imagem da figura da esquerda cobrindo os olhos da
luz, da chegada de alguém ou talvez da incômoda presença do
observador.
Um dos quadros mais pungentes no
sentido de despertar a consciência social é Até quando...?,
tela em que uma pessoa sentada, apoiada num bastão, contempla de
frente o observador com mão direita estendida, pedindo esmola. O
fundo azul contribui para criar um mundo mágico, em que a
situação, infelizmente corriqueira nas grandes cidades, ganha
uma dimensão mística.
Clóvis Affonso Costa – o verdadeiro
nome de Cacosta – nasceu em 9 de dezembro de 1956, no Rio de
Janeiro, estudou Música na Universidade Estácio de Sá, RJ, e
Filosofia no Instituto de Ciências Filosóficas do Mosteiro de
São Bento, em São Paulo, SP, e, desde 1994, está radicado em
Ourinhos, SP.
Cacosta pinta a partir de 1995.
Autodidata, começou copiando um quadro de Monet e, graças ao
contato com o pintor Adélio Sarro, conheceu a obra de Portinari,
que se tornou uma fonte de referência e de inspiração. Essa
influência, bem marcante em algumas telas de acentuado teor
social, é ultrapassada, por exemplo, nas pinturas que trabalham
com divindades ligadas ao candomblé. Cada uma delas é
apresentada com suas cores e símbolos próprios, numa autêntica
aula de pesquisa e conhecimento pictórico que brota das raízes
negras do artista.
A preocupação social transparece em
telas como A sua porta, em que um mendigo surge com uma sacolinha
na mão esquerda e um cachorro vira-lata ao seu lado, e Lá se
vão os sonhos, em que meninos em uma favela soltam um balão com
o desenho do mapa do mundo.
Destacam-se algumas telas pela
intensidade das imagens, como Epifania negra¸ em que a figura
central retira de si a pele branca, reconhecendo-se como negra,
Ascendendo, que mostra um menino com bola de futebol e chuteiras
– suas possibilidades de subir de vida – e Transubstanciar,
tocante composição em rosa e azul na qual três pessoas (uma com
bengala, outra num balanço e uma terceira paraplégica)
visualizam o seu potencial de libertação do sofrimento numa
lagarta que está no chão e que poderá se transformar numa bela
borboleta, como a que surge pousada na corda do balanço.
A delicadeza também integra o
universo pictórico de Cacosta. Um dos maiores exemplos disso é
Eternamente, em que um casal surge de braços entrelaçados num
gesto de intenso carinho e de confiança no futuro e fé de que
poderão construir algo juntos. Tons de azul e lilás auxiliam a
compor esse ambiente de integração entre corpos e almas.
Com suas formas arredondadas e
coloridas, Cacosta emociona. Seja em uma Santa Ceia numa
perspectiva visual diferente ou nas imagens de crianças e homens
e mulheres de rua, suas telas são repletas de intensidade. Por
mais sofridos que suas personagens sejam, há nelas a força
revolucionária e de liderança de Zumbi e a crença em uma
esperança de liberdade de qualquer opressão.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é
autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp