por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Cacosta

 

O intenso poder da imagem

 

Vigor. Talvez seja essa a palavra que melhor define a pintura do artista plástico Cacosta. Suas telas traçam um amplo painel da cultura negra com um estilo caracterizado por cores marcantes, que se articulam para construir imagens que permitem vislumbrar como a sociedade está repleta de personagens marginalizados, que podem ser encontrados tocando um instrumento musical no morro ou pedindo esmola em qualquer esquina.

A música é justamente um ponto de partida para numerosas telas. Em algumas, como Inocência musical, é possível visualizar diversos instrumentistas em cor azul sobre um fundo laranja. Nas laterais, crianças brincando com pião e com bexiga observam tudo. O som parece chegar aos ouvidos do observador, que se encanta com uma atmosfera alegre e de virtuosismo.

A voz do morro, por sua vez, apresenta homens tocando, numa visão romântica da importância da música como elo de comunicação entre as pessoas. Em outra tela, intitulada Ode ao feminino, é um quarteto de mulheres, em tons derivados do amarelo, que se comunica com o som de instrumentos como o violoncelo e o violino.

Cacosta desenvolve um intenso trabalho com grupos. Em Rainha mãe, por exemplo, sobre um fundo de um verde intenso e um sol/lua vermelho (a), três mulheres vestidas de baiana compõem um universo mágico.

A figura central surge socando um pilão, enquanto a da esquerda observa atentamente e a da direita dorme, descansando a cabeça no joelho da poderosa imagem matriarcal central.

O resultado é um diálogo entre as três figuras repletas de poesia e lirismo, marcas também presentes em Negra Odara, imagem forte de uma única figura feminina de braços cruzados com uma flor na mão direita.

Além de seu trabalho com conjuntos de imagens, Cacosta desenvolve obras de amplo poder expressivo quando se debruça sobre figuras solitárias. Elas costumam adquirir uma força épica, como se fossem representantes de um desejo sobre-humano de sobrevivência numa sociedade que teima em deixar os negros como cidadãos de segunda categoria.

A música e a marginalização do negro são temas que se intercruzam em telas como “Sanfonia” da esmola, em que um instrumentista aparece sentado numa guia de calçada, solitário, com a latinha ao lado esperando a doação dos transeuntes. A sonoridade imagética contrasta com a miserável condição social.

A exclusão social surge ainda em imagens como Des-“graçados” e Na calada da noite. Em ambas predomina a cor azul e o clima de miséria, dor e falta de oportunidade. No primeiro quadro, aureolas cercam a família que protagoniza o quadro, enquanto no segundo o sofrimento aparece com mais força pela imagem da figura da esquerda cobrindo os olhos da luz, da chegada de alguém ou talvez da incômoda presença do observador.

Um dos quadros mais pungentes no sentido de despertar a consciência social é Até quando...?, tela em que uma pessoa sentada, apoiada num bastão, contempla de frente o observador com mão direita estendida, pedindo esmola. O fundo azul contribui para criar um mundo mágico, em que a situação, infelizmente corriqueira nas grandes cidades, ganha uma dimensão mística.

Clóvis Affonso Costa – o verdadeiro nome de Cacosta – nasceu em 9 de dezembro de 1956, no Rio de Janeiro, estudou Música na Universidade Estácio de Sá, RJ, e Filosofia no Instituto de Ciências Filosóficas do Mosteiro de São Bento, em São Paulo, SP, e, desde 1994, está radicado em Ourinhos, SP.

Cacosta pinta a partir de 1995. Autodidata, começou copiando um quadro de Monet e, graças ao contato com o pintor Adélio Sarro, conheceu a obra de Portinari, que se tornou uma fonte de referência e de inspiração. Essa influência, bem marcante em algumas telas de acentuado teor social, é ultrapassada, por exemplo, nas pinturas que trabalham com divindades ligadas ao candomblé. Cada uma delas é apresentada com suas cores e símbolos próprios, numa autêntica aula de pesquisa e conhecimento pictórico que brota das raízes negras do artista.

A preocupação social transparece em telas como A sua porta, em que um mendigo surge com uma sacolinha na mão esquerda e um cachorro vira-lata ao seu lado, e Lá se vão os sonhos, em que meninos em uma favela soltam um balão com o desenho do mapa do mundo.

Destacam-se algumas telas pela intensidade das imagens, como Epifania negra¸ em que a figura central retira de si a pele branca, reconhecendo-se como negra, Ascendendo, que mostra um menino com bola de futebol e chuteiras – suas possibilidades de subir de vida – e Transubstanciar, tocante composição em rosa e azul na qual três pessoas (uma com bengala, outra num balanço e uma terceira paraplégica) visualizam o seu potencial de libertação do sofrimento numa lagarta que está no chão e que poderá se transformar numa bela borboleta, como a que surge pousada na corda do balanço.

A delicadeza também integra o universo pictórico de Cacosta. Um dos maiores exemplos disso é Eternamente, em que um casal surge de braços entrelaçados num gesto de intenso carinho e de confiança no futuro e fé de que poderão construir algo juntos. Tons de azul e lilás auxiliam a compor esse ambiente de integração entre corpos e almas.

Com suas formas arredondadas e coloridas, Cacosta emociona. Seja em uma Santa Ceia numa perspectiva visual diferente ou nas imagens de crianças e homens e mulheres de rua, suas telas são repletas de intensidade. Por mais sofridos que suas personagens sejam, há nelas a força revolucionária e de liderança de Zumbi e a crença em uma esperança de liberdade de qualquer opressão.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp

 

 

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"Até quando...?"

O.S.T -  100x80  cm - sem data

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