Caciporé
Torres
A escultura como borboleta
Quando se pensa na arte da escultura, muitos lembram automaticamente
de trabalhos clássicos como a Vitória de Samotrácia, a Vênus de
Milo, O pensador e O beijo, de Rodin, e o Davi ou o Moisés, de
Michelangelo. Outros, com um referencial mais contemporâneo, citarão
nomes como Alexander Calder, Carl Andre e Sol LeWitt.
Ao se refletir, porém, sobre a escultura brasileira, entendendo essa
arte como uma maneira de representar imagens plásticas em relevo
total ou parcial, com diversas técnicas de trabalhar os materiais,
como a cinzelação, a fundição, a moldagem ou a aglomeração de
partículas para a criação de um objeto, não se pode deixar de lado
a colaboração fundamental de Caciporé Torres.
Não se
trata aqui de arrolar as exposições individuais e internacionais ou
os numerosos prêmios do artista. A questão é o que há de mobilizador
no trabalho deste escultor nascido em Araçatuba, SP, em 10 de março
de 1935, mas radicado em São Paulo, SP.
Seu
trabalho, seja em aço cortado, soldado e pintado ou em bronze ou –
ainda – com outros materiais e suportes, apresenta a mesma característica
das obras feitas por Hefesto, nome grego
do deus romano Vulcano, vinculado ao labor
dos ferreiros e de todos aqueles que, de uma forma ou de outra, lidam
com as forjas: o rigor aliado à paixão.
Caciporé
consegue, nessa fusão entre o saber e o ser dar a suas esculturas uma
leveza essencial. Isso ocorre, de forma mais visível, em obras como Vitória,
na qual asas vermelhas surgem a ganhar o
espaço. Há ali, além de um movimento ascensional
sugerido, a presença de uma bem pensada assimetria, que impede
o desequilíbrio e gera o mencionado efeito de conquista do espaço.
Bandeira,
negra e vermelha, por sua vez, om seus
poucos mais de 2 metros de altura, cria uma espécie de portal, em que
os blocos são dispostos de modo a dar a noção de domínio
plástico do universo circundante. A
combinação do material com as cores contribui decisivamente
para estabelecer formas que se tornam agradáveis ao olhar e levam o
observador a e indagar como elas foram feitas.
Obras em
bronze, como O caminho e A
origem de tudo, apresentam uma faceta em que o trabalho se dá
mais na forma de blocos. No entanto,
isso não significa rusticidade ou a existência de um peso
insuportável de ser carregado. Há nelas uma suportável e
encantadora humanidade, em que a matéria é apropriada, trabalhada e
devolvida ao observador.
Obras como
Coluna etrusca ou A
lasca apontam
justamente para a facilidade de Caciporé
trabalhar com a verticalidade. Há em seus trabalhos um diálogo
permanente com essa forma de ver o mundo. É como se elas quisessem
– e de fato pudessem – se descolar da terra e do mundo, criando
uma nova atmosfera, quase uma nova dimensão.
Nesse
sentido, Butterfly
1 é exemplar, pois consegue talvez realizar o desejo de numerosos
escultores: o de dar ao seu ponto de partida material uma nova angulação
e termos denotativos e conotativos, ou seja, o aço (matéria-prima
inicial) torna-se a matriz da construção de mensagens simbólicas.
Na
escultura citada, esse tipo de análise torna-se ainda mais relevante,
porque é do frio aço que surge a escultura repleta de vivacidade e
dinamismo. Assim como a feia larva fica guardada no casulo, o metal
apresenta-se como a “residência” inicial da imagem construída
que evoca justamente o resultado final: a bela borboleta livre para
voar.
É
significativo que, entre a obra de Caciporé,
por exemplo, esteja uma Homenagem
a Miró em azul. Parece que ambos
compartilham o mesmo ludismo, entendo este
como disposição para
sempre enfrentar o desafio artístico com um sorriso de prazer no
rosto e na alma.
A
responsabilidade criativa do artista pode ser observada na maneira
como lida com as formas e as cores, inclusive nos seus trabalhos
dimensionais. A produção não se torna um ato de dor ou sofrimento,
mas de lúdica busca de resultados plásticos cada vez melhores, que
satisfazem ao público, mas acima de tudo ao próprio artista, cioso
de seu processo criativo.
A
obra escultórica de Caciporé
Torres, portanto, caracteriza-se por um ludismo
criativo associado a um esmero técnico colocado à prova em cada novo
trabalho. Dar sensibilidade e humanidade a cada nova peça é um
desafio enfrentado com a leveza de uma borboleta em busca do vôo
inicial após passar pela dura experiência de estar pressa e limitada
ao seu casulo. Tal qual o magnífico inseto, as esculturas do artista
paulista renascem a cada olhar que para elas lançamos e ampliam a
capacidade de voar de nossa imaginação.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi
(Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo).