por Oscar D'Ambrosio


 

 


Cabral

 

            O lirismo da descontinuidade

 

            Enquanto muitos artistas e críticos de arte se debatem sobre questões teóricas que envolvem a discussão dos limites entre a representação figurativa ou abstrata nas artes plásticas, existem pintores que dão uma dimensão estética a essa preocupação. Para Cabral, por exemplo, a figura é, sim, essencial, mas ele a decompõe de uma maneira ímpar.

            De 25 de outubro a 4 de novembro de 2005, na exposição Pinturas 1995-2005, no Renot Escritório de Arte, em São Paulo, SP, é possível verificar como esse artista, nascido em Marília, SP, em 25 de outubro de 1948, dá ao seu trabalho uma dimensão épica, entendendo essa palavra como a narrativa grandiosa de uma atividade artística.

Antônio Hélio Cabral se vale da tinta a óleo com um vigor que assombra desde o primeiro olhar. Seu resultado plástico é contundente, porque as camadas são espessas. A textura impressiona quando nos aproximamos da tela e, nesse instante, perde-se a visibilidade de que ali está uma forma humana.

De perto, parece que se está perante uma pintura abstrata. No entanto, quando nos afastamos, surgem, construídos pela cor e pelo gesto, esboços de pessoas, quase fantasmas a nos chamar para uma conversa, a nos atrair para uma observação mais atenta. E, nessa aproximação física, a forma se dilui novamente.

A motivação da pintura de Cabral ultrapassa o figurativo/abstrato. A indagação do seu trabalho está na construção/desconstrução. Por um lado, existe a pessoa, mas ele a destrói pela justaposição de camadas e por uma gestualidade vigorosa. Há um exercício de retirar matéria da tela e, ao mesmo tempo, de justapor matéria sobre o suporte.

O resultado são olhos que observam, rostos destruídos a nos espreitar, gritos de dor e furtivos e encantadores personagens em variadas cores. O domínio do amarelo, azul e vermelho, muitas vezes combinado com o negro e o branco, permite a criação de formas agoniadas.

Os seres que Cabral cria falam a poética da descontinuidade. Isso significa que nunca oferecem aquilo que se espera. Eles quebram a expectativa do amante das artes. Quando se espera, numa olhada rápida, uma forma harmoniosa, surge uma espécie de monstro das trevas e, paradoxalmente, quando as cores parecem apontar para um figura mais agressiva, surge, em meio à matéria maltratada em composições bem definidas, uma forma mais plácida.

Os jogos entre perto/longe, abstrato/concreto e violência/placidez definem a criação de Cabral. Seu lirismo descontínuo quebra expectativas e sempre oferece mais do que parece num primeiro momento. A sua inquietação artística encanta e convida a infinitas revisões de cada quadro. Sua descontinuidade revela uma coerência artística de dez anos de pintura dedicados a desconstruir o humano para revelá-lo mais intensamente.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

 

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160 x 100 cm óleo sobre tela 1996

Cabral 

 

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