por Oscar D'Ambrosio


   

Cabaças pintadas

 

A utilização do desenho como ponto de partida para a criação de imagens em cabaças foi o mote para a produção exposta na 1ª Mostra do Projeto de Artes Visuais, realizada de 30 de julho a 6 de agosto de 2005, na Casa Caiada 35, em São Paulo, SP. A mostra reúne, na calçada, cabaças pintadas por 14 crianças entre 8 e 16 anos. O evento inclui ainda fotos de Rose Passos e obras bidimensionais dos jovens sobre o Parque Siqueira Campos, mais conhecido como Trianon, e o seu entorno que serviram de inspiração poética para o resultado obtido com as cabaças.

É interessante verificar o próprio sentido da cabaça como objeto artístico. Fruto do gênero do melão ou da abóbora, sua casca grossa o torna útil para os seres humanos. Após a retirada da polpa macia, serve como jarro de água ou, se preenchido com sementes secas, pode ser utilizado como chocalho musical.

Segundo um mito africano da região da atual República Popular de Benin, o universo é considerado como uma esfera semelhante a uma cabaça e o horizonte fica na união das metades do fruto, local em que o céu e o mar se encontram. A Terra é vista como algo plano que flutua dentro dessa grande esfera. A lenda conta que, quando Deus criou o universo, a sua primeira preocupação foi formar a Terra, unindo bem a cabaça. Foi uma cobra divina que se enrolou à volta do nosso planeta, mantendo-o firme.

A cabaça ou porongo, cujo nome científico é Lagenaria vulgaris, é uma planta trepadeira, da família das Cucurbitaceae, presente no norte e nordeste do Brasil e plantada em quase todo o território português. É também chamada em algumas regiões brasileiras de cuitê ou cuité, cabaça-amargosa, cabeça-de-romeiro, cabaça-purunga, cabaço-amargoso, cocombro, cuia e taquera.

O fruto é colhido mais cedo ou mais tarde segundo o tamanho da vasilha que se quer fazer. Depois de retirado o miolo, lava-se bem e deixa-se secar. Presente na vida cotidiana indígena, foi assimilada pelos colonizadores portugueses e espanhóis, desde recipiente a berimbau.

Todas essas informações se fazem presentes, de forma mais ou menos explícita, de acordo com cada trabalho, nas imagens que observamos, pois as crianças partiram para a confecção de suas cabaças pintadas a partir de desenhos de observação do Parque Trianon e do seu entorno. Esse local, significativamente, também tem muita história para contar.

Inaugurado em 3 de abril de 1892, um ano depois da Avenida Paulista, insere-se no processo de urbanização da cidade de São Paulo do período. O parque ganhou ares de jardim europeu e conta, até hoje, com vegetação tropical remanescente da Mata Atlântica.

O responsável pelo projeto paisagístico foi o francês Paul Villon, e o nome Trianon surgiu porque havia, em frente ao parque, onde hoje se situa o Museu de Arte de São Paulo (Masp), um clube com esse nome. Existia ainda ali um belvedere, construído em 1916. Projetado por Ramos de Azevedo, foi demolido em 1950.

Por muitos anos, o parque e o clube foram palco de muitas festas, bailes e eventos culturais da alta sociedade que passou a morar na região. Em 1924, foi doado à Prefeitura da cidade e, em 1931, recebeu o seu nome oficial em homenagem ao tenente Antônio Siqueira Campos, paulista de Rio Claro, herói do Movimento Tenentista de 1924.

A partir de 1968, na gestão do prefeito Faria Lima, o parque passou por várias mudanças que tiveram a assinatura do paisagista Burle Marx e do arquiteto Clóvis Olga. Atualmente, o Parque Trianon abriga, além da única reserva remanescente de Mata Atlântica da região, a estátua do Fauno de Victor Brecheret, um viveiro de aves, fontes, chafarizes e locais de recreação infantil, sendo uma ilha natural grudada na incessante Avenida Paulista.

Com mais de 48 mil m2, o Parque reúne árvores como cedro, pau-ferro, sapopemba, jequitibá-branco, jatobá, tapiá-guaçú, palmito, sapucaia, açoita-cavalo, bico-de-pato, chichá, pau-de-tucano e vinheiro. Isso sem contar aves como rolinha, periquito, pica-pau, joão-de-barro, bem-te-vi e sabiá-laranjeira, entre outras.

É desse universo que cada criança retirou a imagens que, após serem trabalhadas como desenhos, resultaram em cabaças pintadas e expostas ao público, acompanhadas de visões artísticas e fotografias que mostram a região que foi o estopim do trabalho e dos registros do processo de criação dos jovens.

O conjunto aponta como o desenhar é o ponto de partida da arte e como ela pode estar associada a superfícies bidimensionais ou tridimensionais. Isso se reforça quando o trabalho se inicia num local pleno de história como o Parque Trianon, e a cabaça, como ampla riqueza simbólica, serve como suporte de uma manifestação plena que enche os olhos de beleza e o organismo do prazer sadio de ver que árvores em um jardim público podem ser a profícua marca inicial de um contato com o universo da reflexão artística.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes (IA) da Unesp, campus de São Paulo, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

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