por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 
 

 

Brinde de Marina de Falco

 

            O prazer de beber um bom vinho é o mesmo de observar atentamente uma obra de arte. Ambos têm em comum o desfrute de momentos únicos repletos de magia e encantamento. Nas duas atividades, o saber está associado à prática e à busca constante por novas formas e expressão para os cinco sentidos.

            A presente série de monotipias de Marina de Falco toma o brinde como assunto do desenvolvimento de uma pesquisa visual. O guache é a matéria-prima. Ao se trabalhar com ele sobre uma placa de vidro é possível atingir as mais variadas combinações.

            Com rapidez, o papel é colocado sobre o vidro, gerando reproduções que são únicas e não podem ser repetidas. Daí vem o nome de monotipia, ou seja, a captação de um instante único. O processo de criação é rápido e são necessárias muitas impressões para atingir os resultados esperados.

            A presente série toma a taça como um de seus principais temas. Ela surge de diversas formas, ora mais evidente, ora mais escondida; ora mais fina, ora mais bojuda; e, principalmente, com diferentes experimentações de cor. É construída assim toda uma dinâmica, em que cada obra ajuda a formar o conjunto, mas tem vida própria.

              Seja nas expressões mais sutis e delicadas ou naquelas marcadas por traços mais espessos e por um gestual mais evidenciado, Marina de Falco possibilita entender a taça como um objeto plástico que tem um valor intrínseco que pode ser ainda valorizado pelo seu conteúdo.

            O fato de a taça aparecer geralmente sozinha acentua o processo de a artista conceber o objeto como algo que está muito além de seu valor de uso. Há nela um elevado valor de troca, ou seja, sentimentos, memórias afetivas e percepções caminham junto ao próprio ato de brindar pela vida.

            A presença de elementos como uma garrafa e uma mulher valoriza a idéia do brinde como momento de agregação entre as pessoas ou apenas de um ser com ele mesmo. A taça, nesse aspecto, funciona como um receptáculo da vida, uma fonte de prazer e de vivência marcada pela renovação.

            Assim como beber um vinho é uma experiência única, cada monotipia porta essa mesma emoção. Há nelas um respirar renovado sobre a própria existência. Ver as obras de Marina de Falco leva a um devir pleno de fascinação somente possível nas melhores taças, mais refinados vinhos e densas obras de arte.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

 

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