por Oscar D'Ambrosio


 

 


POSSIBILIDADES DE PARCERIAS ENTRE BRASIL E HOLANDA

 

INTRODUÇÃO

HISTÓRIA

INFLUÊNCIA

LITERATURA COLONIAL

PÚBLICO DE LEITORES

QUANTOS LÊEM

QUEM

BAIXAS TIRAGENS

PRODUÇÃO ELITIZADA

VALOR SOCIAL DA LEITURA

PERSPECTIVAS

LIVRARIAS

FREQÜÊNCIA DAS LIVRARIAS

DISTRIBUIÇÃO DO LIVRO

MERCADO LIVREIRO

CONCENTRAÇÃO DE MERCADO

TIPOS DE EDITORA

SITUAÇÃO DO MERCADO

PREÇO

POLÍTICAS PÚBLICAS

INSTITUIÇÕES

                        Academia Brasileira    

                        Câmara Brasileira do Livro

BIENAIS DO LIVRO

                        Bienal Internacional de São Paulo

                        Bienal do Rio de Janeiro

                        Bienal Internacional do Livro de Pernambuco

                        Bienal do Livro de Minas

                        Bienal Internacional do Livro do Ceará

                        Bienal Nacional do Livro de Natal

                        Bienal do Livro São José do Rio Preto

                        Bienal Nacional do Livro da Paraíba

AVALIAÇÃO DAS BIENAIS E FEIRAS DO LIVRO

                        Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)

                        Festival Internacional de PoesiaDois Córregos

                        Festival da Mantiqueira – Diálogo com a Literatura

ROMANCES TRADUZIDOS EM PORTUGAL

LIVROS HOLANDESES NO BRASIL

AUTORES HOLANDESES QUE MERECEM TRADUÇÕES

PANORAMA DA PRODUÇÃO BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

                        História de uma espera

                        Traição: um jesuíta a serviço do Brasil holandês

                        Guerra, açúcar e religião no Brasil dos holandeses

                        Provos: contracultura em Amsterdam

PROJETO BILÍNGÜE

COPA DA LITERATURA BRASILEIRA

POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

NOVAS MÍDIAS
            SITES BRASILEIROS NA HOLANDA

BLOGS

LITERATURA E ARTES VISUAIS

                        Johann Gütlich

                        George Gütlich

LITERATURA E CINEMA

CINEMA E OFICINA LITERÁRIA

CONVÊNIO

SÍNTESE DAS SUGESTÕES

O AUTOR


 

 

            POSSIBILIDADES DE PARCERIAS BRASIL – HOLANDA

 

            INTRODUÇÃO

            As ligações culturais entre a Holanda e o Brasil provêm do século XVII com a presença holandesa no Nordeste que deixou muitas marcas históricas. Atualmente a Holanda é um dos principais poderes econômicos da Europa. Também é um dos maiores investidores estrangeiros no Brasil, mas, apesar da forte presença de empresas holandesas no Brasil, como a Shell, ABN-AMRO, Philips e C&A, existe no país uma falta considerável no que diz respeito a pessoas que dominam a língua e conhecem a cultura holandesa.

            Outro fator a ser levado em conta na aproximação entre a Holanda e o Brasil é que, embora entre 1819 e 1940 tenham entrado no Brasil 4,8 milhões de imigrantes – 60% deles no Estado de São Paulo –, a colônia holandesa é muito pequena. Os pioneiros imigrantes holandeses mais formalizados que se têm notícias no século XX chegaram a terras brasileiras apenas em maio de 1948.  Em São Paulo, por exemplo, a capital cultural do País, contam apenas cerca de 5 mil pessoas, concentradas no Bairro do Jardim Paulista.

 

            HISTÓRIA

            A relação entre Brasil e Holanda, portanto, tem suas raízes no período colonial. Por duas vezes, na Bahia (1624 a 1625) e em Pernambuco (1630 a 1654), os holandeses tentaram fixar residência no Brasil, fundando fortificações, cidades, museus e centros de ciência e arte. Gerou-se até um sentimento de que eles teriam sido melhores colonizadores para o Brasil que os portugueses.

            Essa hipótese nunca será verificada, mas, de qualquer modo, a miscigenação de holandeses com índios, mamelucos, mulatos e negros, geraram os olhos verdes de boa parte dos imigrantes de origem nordestina, principalmente pernambucana que vivem hoje em São Paulo.

            O local onde a cultura holandesa é melhor lembrada está no interior do Estado de São Paulo, no centro de cultivo de flores chamado Holambra, que se tornou cidade em 31 de dezembro de 1991, com uma denominação que mescla Holanda, América e Brasil. O lugar é responsável por significativa parte da exportação nacional de flores e recebe mais de 200 mil visitantes a cada ano.

 

INFLUÊNCIA

            Embora fracassada, a tentativa da Holanda de se estabelecer no Brasil no Nordeste, deixou um importante resquício arquitetônico: as pontes e os canais de Recife, que marcaram a presença holandesa no Brasil. Os holandeses também são mencionados na literatura de cordel, nas tradições ligadas ao ciclo açucareiro e em elementos de confeitaria e laticínios.

            Poucos sabem ainda que uma palavra de uso comum no Brasil tem sua origem na Holanda. O vocábulogás”, ao contrário do que muitos pensam, não vem do alemão, mas da Holanda, sendo cunhado a partir da palavracaos”, no começo do século XVII, pelo químico flamengo Jan Baptista van Helmont.

 

            SUGESTÃO 1

            Fomentar o ensino de língua holandesa no Brasil. Isso pode ser feito, por exemplo, por intermédio de Michel Armand Koopmans. Radicado no Brasil desde 2006, após terminar o mestrado em língua e cultura portuguesa na Universidade de Utrech, natural de Den Helder, ele emigrou em 2006 para o Brasil. Estudou língua e literatura holandesa na Universidade de Amsterdã entre 1998 e 2000.

Em Portugal, estudou língua portuguesa na Universidade do Porto (2001) e na Universidade de Coimbra (2003). Em 2004, passou um semestre estudando na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na área de Letras Vernáculas.
Professor de holandês formado pelo instituto de línguas IPFEL, no Porto, em 2002, tem ministrado aulas particulares e em grupo do idioma desde então. Reside no Rio de Janeiro. Contatos: (21) 2570 3605 e (21) 9981 8557 ou pelo e-mail:
makoopmans@gmail.com

 

            LITERATURA COLONIAL

            O fato é que a literatura holandesa é pouco conhecida no Brasil, pois poucas obras foram traduzidas. Isso se torna mais premente em relação aos textos dos primeiros viajantes que acompanharam Maurício de Nassau quando da invasão holandesa no Nordeste brasileiro. Entre eles, estão Marcgrave, Piso e Laet, dos quais não se encontra edições em língua portuguesa.

            Cabe pontuar que, na introdução do livro Olinda conquistada, do Reverendo Baers, o historiador Alfredo de Carvalho afirma que “nenhuma fase da história nacional possui tão abundante literatura como o atribulado período da dominação holandesa no Brasil Oriental”.

Ele acrescenta ainda que G. M. Asher relaciona, no seu A bibliographical and historical essay (1854), mais de 200 publicações referentes ao Brasil, que encontrou na seção denominada Bibliotheca Duncaniana da Real Biblioteca da Haia. Informa ainda que “continuamente se descobrem novas espécies que escaparam ao operoso investigador”.

 Outro dado relevante é que a historiografia do período da invasão holandesa (1630-1654) é um dos mais vastos dos cinco séculos da História do Brasil, segundo o historiador José Honório Rodrigues, autor de Historiografia e bibliografia do domínio holandês no Brasil (Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro; Departamento de Imprensa Nacional, 1949).

            Ressalte-se que a grande maioria dos relatos produzidos por holandeses sobre o Brasil está focada unicamente ao período conhecido como a Segunda Invasão Holandesa, ou seja, a ocorrida em 1630, em Pernambuco. Sobre a primeira, a de 1624, na Bahia, o único documento que resta é um pequeno texto do holandês João Gregorio Aldenburck.

Intitulado Relação da conquista e perda da cidade de Salvador, foi publicado originalmente em Coburgo, cidade natal do escritor, em 1627.  A vida do autor é um mistério, pois sabe-se apenas que iniciou seus estudos na Universidade de Iena, mas não os concluiu, já que preferia o mundo das aventuras ao dos estudos.

            Em 1623, Aldenburck alistou-se na expedição de invasão do solo brasileiro, que se deu no ano seguinte. Ele participou da ocupação de Salvador, então capital da colônia, e escreveu sobre os hábitos e costumes que via. Ao voltar para a Europa com a expulsão dos holandeses, o aventureiro escritor junta-se ao exército do rei Cristiano IV, da Dinamarca, para lutar na Guerra dos Trinta Anos. Permanece em combate por quatro meses, retornando para onde nasceu com o objetivo de publicar sua jornada no Brasil.

            O esforço valeu a pena. O texto foi incluído nos grandes livros publicados na Alemanha sobre jornadas e aventuras. Em 1634, ocorreu a tradução ao latim e somente em 1930 foi realizada sua reedição. Em 1938 Clemente da Silva Nigra, no volume 26 dos Anais do Arquivo Público da Bahia, publicou pela primeira vez em português  uma tradução parcial desta obra.

            No início do século XXI, coube ao poeta Florisvaldo Matos cantar, num tom épico-lírico, versos sobre a invasão holandesa à baía de Todos os Santos. O material está disponível no volume Mares anoitecidos (Imago Ed./ FCBa, 2000).

 

            SUGESTÃO 2

            Elaborar um projeto de tradução da literatura dos viajantes portugueses que vieram ao Brasil  com Maurício de Nassau. Isso pode se tornar numa coleção com edições anuais, por exemplo.  A fonte primordial está na seção denominada Bibliotheca Duncaniana da Real Biblioteca da Haia.

 

PÚBLICO DE LEITORES

Qualquer tentativa de realizar parcerias entre Brasil e Holanda na área literária  exige um melhor entendimento do mercado de livros. É animador verificar que, nos últimos anos, o Brasil comemora a queda crescente dos índices de analfabetismo e que a Associação Nacional dos Livreiros constatou que, de 2006 para 2007, a venda de livros cresceu 15% motivada principalmente pelos novos e jovens leitores

Os principais motivos desse aumento seriam, ao que tudo indica, a isenção de alguns impostos sobre o livro e o maior poder aquisitivo das classes C e D, que passaram a comprar mais livros, principalmente para as suas crianças.  Soma-se a isso que muitos colégios terminaram com a prática de que todo mundo tinha que ler o mesmo livro. O estímulo a que cada estudante leia o que deseja, ao que tudo indica, aumentou a vontade de ler.

Segundo pesquisas patrocinadas pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL – http://www.snel.org.br), Câmara Brasileira do Livro (CBL – http://www.cbl.org.br) e Associação Brasileira dos Fabricantes de Papel e Celulose (http://www.bracelpa.org.br), o público de leitores, no Brasil, chega a 26 milhões de pessoas.  

Esse número é equivalente aos leitores somados de Espanha e Portugal, ou 11% a mais do que os leitores existentes na França. Parece muito, mas representa apenas 30% dos 86 milhões de leitores em potencial (pessoas com mais de 14 anos, que são alfabetizadas, segundo os dados do IBGE) existentes no país.

Desses 26 milhões de pessoas que afirmam se interessar pela literatura, apenas 17,2 milhões têm acesso efetivo ao livro; e nove milhões de pessoas não lêem porque não têm dinheiro para gastar com livros ou moram em cidades onde não existem livrarias e bibliotecas. Entre os que vivem nos grandes centros metropolitanos, os motivos alegados para não ler são falta de tempo e dinheiro.

 

QUANTOS LÊEM

            Um dado preocupante é que, segundo a CBL, apenas 25% dos brasileiros, com idades entre 15 e 64 anos, têm habilidade plena de leitura. Dentro da mesma faixa etária, 8% são analfabetos absolutos; 30%, capazes de entender informações simples; e 37% lêem e entendem textos curtos. Outro dado é que 74% dos pais ou responsáveis por estudantes brasileiros nunca ou raramente lêem livros e, enquanto na França cada habitante , em média, sete livros por ano, no Brasil o número é de apenas 1,8.

            Se por um lado, o mercado livreiro está crescendo, no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que mediu o desempenho de 250 mil estudantes de 15 anos em 32 países, os brasileiros ficaram em último lugar. O aumento do consumo do livro, portanto, não está associado a uma elevação do padrão e da qualidade da leitura. A esperança está, nessa linha de raciocínio, no investimento no segmento do público infantil.

 

            QUEM

            Entre os leitores efetivos, aqueles que lêem ao menos um livro em três meses, 51% são homens contra 49% de mulheres. Eles chegam a 30% dos letrados, algo como 25,8 milhões de brasileiros, com destaque para os grupos mais jovens, mais letrados e mais endinheirados.

            Entre pessoas com curso superior, o livro é presença quase quatro vezes mais comum que entre os brasileiros cuja referência escolar se situa entre a 1ª e a 4ª série do ensino fundamental. Situação similar ocorre quando se comparam os mais ricos aos mais pobres: a presença do livro é quase três vezes superior entre os primeiros. A conclusão é evidente: quanto mais freqüenta o banco escolar, mais o cidadão necessita de leitura.

            Escolaridade, nível socioeconômico e até hábitos dos pais influenciam na formação de leitores. Por isso, o Brasil  tem de melhorar as condições de acesso ao livro se quiser multiplicar sua base de leitores. Aproximadamente 47% dos entrevistados têm no máximo dez livros em casa, e o número de exemplares que repousam sobre a estante de dois terços dos brasileiros não passa de 25.

            Esse dado precisa ser cruzado com a informação de que, no Brasil, o acesso gratuito ao livro é limitado. A rede pública de bibliotecas ronda hoje as 4.600 unidades - menos de uma biblioteca por município, segundo números da Secretaria do Livro e da Leitura do Ministério da Cultura (http://www.cultura.gov.br). E caberia a ela irrigar uma vastidão de potenciais leitores das classes mais baixas. Para isso, é indispensável ampliar e renovar o acervo constantemente.

 

            SUGESTÃO 3

            Um caminho para difundir a literatura holandesa é verificar a possibilidade de editar alguns textos importantes, preferencialmente voltados para os jovens, e distribuí-los gratuitamente pelas bibliotecas públicas. Uma tiragem de 5 mil exemplares em edição de bolso seria recomendável.

 

BAIXAS TIRAGENS

Existem dois Brasis que se refletem no mundo do livro: uma elite sofisticada, com índices de leitura semelhantes aos do Primeiro Mundo, e um grande contingente de pessoas mal alfabetizadas, que não lêem pelos mais diversos motivos. Desse modo, conclui-se que o livro interessa e atinge apenas a uma pequena faixa da população.

            O livro, enquanto produto, no entanto, se torna competitivo se tiver uma ampla tiragem. A média no Brasil é de 2 mil exemplares por edição. Com poucos pontos de distribuição e desaparecimento de pequenas livrarias, a possibilidade de fazer uma grande tiragem é reduzida. A conseqüência é o aumento do preço do livro.

Nas grandes cadeias livreiras, por exemplo, livros de pequenas editorasque não dão retorno comercial,  não são nem aceitos. O mercado tende assim a virar a indústria do best seller, em que os livros de venda lenta, de autores mais sofisticados, encontram cada vez menos espaço. A preservação das pequenas livrarias, nesse universo, não é romantismo, mas preocupação com a pluralidade e diversidade de títulos, de características, de idéias e de pequenos editores.

 

PRODUÇÃO ELITIZADA

Portanto, as tiragens são baixas, e o custo unitário é alto. Com baixas vendas, as tiragens continuam baixas e a produção se elitiza. Em paralelo, há centenas de cidades brasileiras onde os possíveis leitores não encontram sequer um local onde possam pegar emprestado ou comprar livros.

Sendo o livro visto como algo caro e supérfluo, a biblioteca pública, desempenharia um papel fundamental na sua popularização, pois significa exemplares gratuitos na mão do povo e o acesso efetivo do público de baixo poder aquisitivo ao hábito da leitura.

 

VALOR SOCIAL DA LEITURA

Embora uma parcela de 60 milhões de brasileiros letrados não tenha tempo, dinheiro ou vontade de ler livros, 89% deles reconhecem que a leitura é importante e pretendem incentivar os filhos a ler. O investimento nos novos leitores é, sem dúvida, o caminho do futuro.

Entre as idades de 14 e 19 anos, 45% dos brasileiros lêem regularmente, um índice que cai progressivamente em função da idade, que apenas 24% mantêm o hábito quando passam dos 40 anos. Isso tem certamente relação com o fato de os índices de permanência e aprovação nas escolas públicas aumentaram muito nos últimos dez anos.

Um complicador é que parte dos jovens alfabetizados, conforme foi ressaltado,  não consegue compreender frases longas, embora decifre o significado isolado das palavras. Afinal, saber ler não é suficiente para ter-se familiaridade ou convívio permanente com a leitura. Não basta, portanto, ter novos alfabetizados se eles apenas assinam o próprio nome e lêem frases curtas.

 

            PERSPECTIVAS

            A informação que 61% dos brasileiros associam a leitura ao prazer é animadora, assim como a de que 62% lêem livros, com maior ou menor freqüência. Isso equivale a dizer que cerca de 53,3 milhões de pessoas leram ou consultaram algum exemplar. Esse último percentual em Portugal é de 53%.

            Haveria então um enorme mercado a ser explorado, pois apenas 20% dos brasileiros foram responsáveis pela compra, em média, de 5,92 livros não-didáticos por ano. Restaria, portanto, atingir os demais 80% de brasileiros que lêem, mas não consomem. Essa tentativa vem sendo feita com  a entrada no mercado brasileiro de grandes empresas espanholas.

            Dados como que 78% apreciam o livro e 89% vêem nele um meio de transmissão de idéias devem, no entanto, ser vistos, com ressalvas, pois existe um poderoso estereótipo de que ler é positivo. Isso pode levar as pessoas a dizer, em pesquisas, que lêem apenas para passar uma imagem socialmente favorável. De qualquer modo, haveria nelas – o que é positivo –  uma represada vontade de ler.

 

            LIVRARIAS

A partir dos dados de distribuidoras, sabe-se que o número de “pontos de venda” no país ultrapassa os 2.200, sendo pelos menos 1.800 deles livrarias, ou seja, espaços comerciais que dedicam ao livro uma atenção prioritária ou muito significativa. A metade fica no Estado de São Paulo, cuja capital tem aproximadamente 200 livrarias, vindo depois o Estado do Rio de Janeiro, com 150 livrarias. Isso comprova que o mercado editorial se concentra na região Sudeste do País.

Esse dado, todavia, diz pouco em termos absolutos. O que conta é saber quantas pessoas uma livraria serve em média. No Brasil, uma livraria atende, em média, 84.500 pessoas, enquanto, na Argentina, por exemplo, esse dado beira a 50 mil pessoas e, nos EUA, 15 mil. Além disso, cidades com quase cem mil habitantes não têm nenhuma livraria ou bibliotecas decentes.  

            Enquanto São Paulo se caracteriza pelas grandes livrarias, como a Cultura ou a Fenac, o Rio de Janeiro tem seu ponto forte com numerosos locais de grande qualidade, mais alternativos, como a Leonardo da Vinci, a Padrão, a Argumento, a Letras e Expressões, a Timbre, a Malasartes, a Dantes e a Travessa do Centro.

            A questão financeira é complexa. O livro não é simples de ser trabalhado. São 20% da produção que sustentam os outros 80%. Uma livraria existe se consegue trabalhar esses 20%, que são os livros de venda rápida, aqueles que quando vai ser paga a duplicata da editora, o dinheiro da venda está em caixa. Com os outros 80%, o pagamento é feito com o título ainda na estante.

            As editoras ganham, em síntese, cada vez mais sobre cada vez menos livros. A saída para a sobrevivência, em consonância com a situação, vem sendo investir onde o retorno parece menos frágil, ou seja, publicar os medalhões consagrados; apostar em autores internacionais e, assim, atrofiar cada vez mais a boa literatura que se faz no Brasil.

 

FREQÜÊNCIA DAS LIVRARIAS

Os números sobre a distribuição de livros indicam, ainda, que a demanda por leitura não é sólida o bastante para permitir livrarias capazes de se sustentar por todo o País. Um problema para isso seria que o mercado livreiro está privado de um segmento de grande importância econômica, responsável pela criação de novos leitores: os livros didáticos, vendidos diretamente pelas editoras ao Estado.

É possível, por exemplo, que uma pessoa que tenha começado a ser alfabetizada em escola pública na década de 1990 nunca não haja entrado numa livraria até a pós-graduação, pois, a partir do ensino fundamental na escola pública, ela recebe diretamente do governo os livros de cada ano letivo, incluindo-se não-didáticos, como por exemplo clássicos da literatura e infanto-juvenis.

Se o ensino médio for realizado numa escola particular, isso não muda muito, pois é cada vez mais comum comprar os livros necessários na própria escola. As editoras negociam diretamente com as instituições de ensino preços mais baratos para grandes remessas.

Na preparação para o vestibular, o cursinho oferece apostilas de português, física, literatura ou qualquer outra matéria com o preço das mensalidades. Na faculdade, seja graduação ou pós-graduação, a principal fonte de leitura são capítulos fotocopiados de livros e apostilas customizadas. Ao concluir os estudos, portanto, essa pessoa, com cerca de 30 anos, nunca precisou entrar numa livraria, onde são vendidas as obras de literatura.  

 

DISTRIBUIÇÃO DO LIVRO

A distribuição é uma guerra diária de todos contra todos. Grandes editoras compram espaços nas livrarias e convivem com uma alucinante rotatividade de lançamentos. As editoras médias, por sua vez, precisam dar descontos elevados para conseguir que os seus livros fiquem nas lojas. Quanto às editoras pequenas, só conseguem algum espaço, mínimo, se tiverem acordo com uma distribuidora, que pode até ser uma editora ou um grupo de editoras ou, ainda, apenas distribuidora.

Nesse contexto, a principal dica para os novos autores é utilizar a internet para divulgar o seu trabalho e o seu nome. Se quiser realmente ter o seu livro impresso, tentar editoras grandes num primeiro momento trata-se geralmente de jornada infrutífera.

É melhor buscar formas de parceria com editoras médias ou pequenas que tenham canais de distribuição apresentados de forma transparente. Se houver resposta positiva comercialmente, haverá também alguma visibilidade, e os olhos das grandes editoras poderão se voltar para a direção dele.

 

            SUGESTÃO 4

            Se a idéia é divulgar a literatura holandesa no Brasil em livrarias comerciais, é preciso elaborar uma estratégia que não leve em conta apenas a produção do livro, mas, principalmente, a sua distribuição. Torna-se essencial pensar como esse livro pode chegar aos mais jovens. A decisão mais sábia parece ser trabalhar com material de baixo custo e ampla tiragem. A busca de temas adequados para esse público também é fundamental

 

 

MERCADO LIVREIRO

Comprando direto das editoras, o governo federal retira das livrarias a venda de cerca de 25% de toda a produção de livros. Ocorre ainda a mencionada venda direta dos livros às escolas feita pelas editoras e a compra direta nas editoras dos livros para as bibliotecas.  Esses três fatores associados impedem o crescimento das livrarias no País.

A Câmara Brasileira do Livro encomendou um estudo que mostra um cenário hipotético em que a metade das compras do governo é feita na rede de livrarias brasileiras. Isso, em cinco anos, levaria a quintuplicar o número de pontos de venda de livros.

Se compararmos o mercado livreiro do Brasil com o de outros países, um detalhe chama a atenção: o Brasil tem o terceiro programa governamental de compras de livros do mundo, com aproximadamente 176 milhões de exemplares adquiridos por ano. Apenas China e EUA têm programas mais generosos que o do governo brasileiro. Outro dado preocupante é o baixo consumo da população, pois o volume de compras do brasileiro equivale a apenas 30% dos americanos e 34% dos chineses.

 

CONCENTRAÇÃO DO MERCADO

O mercado vive ainda uma preocupante concentração. As grandes cadeias conseguem das editoras vantagens muito superiores às das livrarias independentes. Uma pequena fatia de 3% é vendida com desconto, mas é justamente o quemais retorno para os livreiros e editores: os best-sellers.

Com mais vantagens, as cadeias conseguem dar descontos ao consumidor final, gerando tráfego nessas lojas e diminuindo o retorno das livrarias menores. Além disso, os mencionados descontos geram preços médios maiores para o conjunto dos livros ofertados, reduzem os estoques e, por conseqüência, a variedade de títulos em cada livraria.

Enquanto as editoras buscam um retorno médio entre os best-sellers e os de venda mais lenta, nas grandes cadeias livreiras impera o best-seller de giro rápido. O modelo de negócio do mercado editorial brasileiro funciona, portanto, com base no prazo e nos descontos dados pelos editores aos livreiros, que não contam com outras fontes de financiamento.

Um caminho possível é recolocar as livrarias no circuito das compras governamentais para escolas e bibliotecas e estabelecer incentivos fiscais e creditícios para as pequenas e médias livrarias para que elas possam, de fato, se transformar nos centros culturais que poderiam ser.  

 

            TIPOS DE EDITORA

            Há basicamente três tipos de editoras no Brasil: 1) editoras grandes, que publicam os best-sellers internacionais e autores nacionais consagrados, como a Companhia das Letras (www.companhiadasletras.com.br); 2) editoras médias, que publicam livros em parceria com o próprio autor ou com instituições estatais ou privadas e fazem pouquíssimas apostas de bancar o custo integral de um livro, como ocorre com a Editora do Sesc (www.sescsp.org.br), ou boa parte das produções das editoras universitárias nacionais, como a Editora da Universidade de Brasília (www.editora.unb.br); e 3) editoras pequenas, que publicam livros financiados pelo autor, como a Scortecci (www.scortecci.com.br).

            A tendência é chegar a dois modelos apenas: as de catálogo amplo e as pequenas, de catálogo específico, como a Cosac Naify (www.cosacnaify.com.br), na área de artes visuais, como ocorre na França. Isso pode favorecer o surgimento de novos autores, mas também ocorre numa lógica de pensar a longo prazo. Por isso, as grandes editoras não compram livros, mas autores completos, como fez a Objetiva que, ao fechar contrato com o grande sucesso que é Paulo Coelho, trouxe com ele inclusive os livros dele publicados por outras editoras.

 

            SITUAÇÃO DO MERCADO

            Em 2005, a venda de 75% da editora Objetiva (www.objetiva.com.br/), uma das maiores do país, que publica o Dicionário Houaiss e o escritor Luis Fernando Verissimo, para o grupo espanhol Prisa-Santillana, presente em mais de 20 países e dono do jornal El Pais, entre outras publicações, movimentou o mercado brasileiro. O negócio envolveu cifras da ordem de R$ 20,4 milhões.

Outro fato importante foi a compra de metade da editora Nova Fronteira pela Ediouro, que havia adquirido o catálogo e a marca da antiga editora Agir e tinha sob suas asas a Relume-Dumará. Chegou-se inclusive a falar da formação de um pequeno conglomerado pela Ediouro (www.ediouro.com.br/).

            A boa notícia é que nunca se publicou tanto. Há, no País, 400 lançamentos por mês, embora seja muito discutível a relevância de todos esses títulos. A Record, uma das maiores lançadoras, coloca aproximadamente 28 títulos novos mensalmente na praça, sem contar suas editoras, como José Olímpio, Bertrand Brasil, Civilização Brasileira e Best Seller, e os selos Difel, Nova Era e Rosa dos Tempos (www.record.com.br).

A Ediouro (mais Relume e Agir) põe 25 títulos, assim como a Rocco (www.rocco.com.br). A Objetiva e a Nova Fronteira (que detém um dos catálogos mais sólidos do país, com obras completas de nomes como Thomas Mann e João Guimarães Rosa e autores importantes atuais, como João Ubaldo Ribeiro, que recebeu o Prêmio Camões de Literatura, o mais importante em língua portuguesa em 2008) lançam sete títulos cada por mês. O panorama aponta para dois fatores: há mais espaço para novos autores e se lança mais do que as pessoas conseguem ler.

            De modo geral, pode-se dizer que, de um lado, há ações para formar catálogos sólidos, de títulos importantes, de longo prazo, que não saiam muito em um momento, mas que vendam por muito tempo; e, do outro, existe a busca por grandes lançamentos, os chamados front lists, que vendem muito no lançamento, mas que são efêmeros. A lógica é a da super-oferta. A mídia e as livrarias precisam da novidade; e, conforme foi apontado, o pensamento geral é que 20% dos lançamentos de impacto sustentam os 80% restantes.

 

PREÇO

Vale lembrar que 13% dos apreciadores de livros afirmaram que se eles fossem mais baratos leriam mais. Se levarmos em conta a renda média do brasileiro, o livro é um verdadeiro artigo de luxo, mas, se comparados aos preços de outros mercados, são compatíveis dentro da média internacional. O vilão apontado no mercado editorial é a tiragem. Afinal, quanto mais livros de um mesmo título forem produzidos, mais barato cada exemplar sairá para o consumidor.

O problema é que nãopúblico que justifique tal medida. Se o número de pessoas que consomem livros crescer, as tiragens aumentarão. A editora L&PM (www.lpm.com.br) solucionou essa equação com livros de bolso. A tiragem média de cada um dos cerca de 500 títulos lançados pela editora nesse segmento é de 10 mil exemplares. O resultado é que a coleção de bolso corresponde a aproximadamente 70% do faturamento anual de cerca de R$ 12 milhões da editora.

            A profissionalização do setor livreiro é apontada como a solução mais viável para atrair os leitores existentes e gerar novos. Isso deveria ocorrer em todos os seus processos, desde a escolha de uma obra a ser publicada até a estratégia a ser adotada nos pontos de venda, passando pela logística que isso exige.

 

POLÍTICAS PÚBLICAS

Cabe lembrar que no Brasil a receita com livros ainda é pequena se comparada com o mesmo setor em outros países. A empresa britânica Random House, do Grupo Bertelsmann, por exemplo, tem uma receita anual da ordem de R$ 6.413 milhões, enquanto todas as editoras brasileiras juntas não atingem a casa dos R$ 2.477 milhões.

Os livros brasileiros, embora não sejam caros demais numa comparação internacional, tem um preço elevado para o poder aquisitivo do brasileiro. Seu preço médio é de U$ 1 a 3, próximo ao da China e Rússia, abaixo da França, México e Argentina (US$ 6 a 8), Espanha, Grã-Bretanha e Itália (US$ 10 a 13) e EUA, Holanda, Alemanha (US$ 14 a 17).

A questão é que a maior parte da população não tem dinheiro para comprar livros. Desse modo, ela os recebe via doação pelo Estado ou quando freqüenta bibliotecas. O a ser desatado é que quem mais compra livros é a classe média, cujo poder aquisitivo vem diminuindo ao longo dos anos.

Paradoxalmente, as classes mais pobres e mais ricas, que tiveram aumento de renda nos últimos anos, não compram livros, gastando, respectivamente, com comida, utensílios domésticos e roupas, e objetos de luxo. Agrava-se a situação quando se verifica que a classe média é justamente a que gasta mais com novas necessidades, como celular e Internet.

Outro dado importante é que  Brasil ostenta mais de 11,5 milhões de usuários domésticos de Internet e é recordista mundial em navegação doméstica. Isso traz uma vantagem, pois o uso da rede mundial de computadores como instrumento de trabalho, lazer e relacionamento incentiva a prática da leitura e da escrita.

Com a queda na renda, e as novas despesas, a capacidade de compra de livros da classe média caiu. Paralelamente, a formação de novos leitores depende do incentivo familiar e do estímulo da escola. Para reverter essa realidade o governo federal prevê uma série de ações de curto, médio e longo prazos, cujo objetivo é aumentar os índices de leitura dos brasileiros.

Uma medida importante foi tomada em 2005 com a desoneração fiscal. Enquanto diversos países apresentam uma tributação sobre o preço do livro, como China, de mais de 15%, Canadá, 10,1% a 15%, Holanda, 5,1 a 10%, e Espanha, 1 a 5%, o Brasil entrou no grupo de nações como México, Argentina e Coréia, com tributação zero.

As editoras, livrarias e distribuidoras de livros que optarem pelo regime fiscal de lucro real deixam de pagar 6,45% de Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) sobre o livro, mas passam a pagar mais 2,19% de Imposto de Renda.

Tem, portanto, um ganho líquido de 4,26% para alimentar seu capital de giro.   A redução do imposto, no entanto, não chegou ao leitor, pois 30% dos preços dos livros que estavam em catálogo antes da desoneração fiscal aumentaram de preço, 68% se mantiveram e apenas 2% diminuíram.

Outros importantes programas de difusão da leitura, como o Arca das Letras, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que instala bibliotecas em comunidades quilombolas de todo o Brasil, também podem ser usados no futuro como maneiras de divulgar a literatura holandesa publicada em português.

 

INSTITUIÇÕES

Para selar parcerias, algumas instituições são importantes.

 

Academia Brasileira de Letras

            A Academia Brasileira de Letras é uma instituição que foi fundada em 20 de julho de 1897. Composta por 40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta e 20 sócios correspondentes estrangeiros, tem por fim o cultivo da língua e a literatura nacional. Informações: http://www.academia.org.br/

 

            Câmara Brasileira do Livro

            A Câmara Brasileira do Livro (CBL) é uma entidade sem fins lucrativos que visa promover o mercado editorial brasileiro e cultivar o hábito da leitura. A promoção do mercado editorial dá-se em diversas formas, sendo provavelmente a mais conhecida delas o Prêmio Jabuti de Literatura. É também a responsável pela organização das principais bienais do livro, como a Bienal do Livro de São Paulo que está na 20ª edição (2008). Informações: http://www.cbl.org.br/

 

            BIENAIS DO LIVRO

 

Bienal Internacional de São Paulo

            A Bienal Internacional do Livro de São Paulo, evento cultural organizado pela Câmara Brasileira do Livro, reúne várias editoras brasileiras e estrangeiras para apresentar lançamentos e seus títulos. A 19ª edição, ocorrida em 2006, contou com 800.000 visitantes.

            A primeira edição, em 1970, foi decorrência de um projeto que se iniciou em 1951. Com o intuito de introduzir no país a tradição européia das feiras de livros encontradas na França, na Alemanha e na Itália, a CBL promoveu a 1ª Feira Popular do Livro, na praça da República.

            A experiência foi retomada em 1956 e deslocada para o Viaduto do Chá, ponto ainda mais central da capital paulista e de grande fluxo de pedestres. O projeto foi ganhando corpo e novos adeptos. Em 1961, em parceria com o Museu de Arte de São Paulo, foi promovida a 1ª Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas, evento que se repetiu em 1963 e 1965. Eles serviram de ensaio para a 1ª Bienal Internacional do Livro, bancada exclusivamente pela CBL, em 1970.

            A 19ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo recebeu um público recorde de 811 mil em 11 dias de evento, em 20 mil m² e 320 expositores.

 

            Bienal do Rio de Janeiro

            Trata-se de uma bem-sucedida realização cultural e empresarial, tendo o livro como o astro principal. Em 1983, nos salões do Hotel Copacabana Palace, numa área de cerca de 1 mil m², foi montada a I Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Dois anos depois, o cenário foi transferido para o São Conrado Fashion Mall.

Em 1987, a Bienal do Livro chegou ao Riocentro, com 15 mil m², para tornar-se o acontecimento editorial mais importante do País nos anos ímpares e um evento cultural de mobilização nacional. A Bienal do Livro supera todas as expectativas de público, vendas e mídia e atinge um crescimento anual de 30%. Seus números ultrapassaram, em 2007, os 63 mil visitantes, 170 mil estudantes e venda de 2,3 milhões de livros.

 

            Bienal Internacional do Livro de Pernambuco

            A VI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco ocorreu de 5 a 14 de outubro de 2007 no Centro de Convenções de Pernambuco. É o terceiro maior evento literário do gênero no Brasil atrás apenas das Bienais do Rio de Janeiro e São Paulo. Seu diferencial foi abrir espaço e fomentar a participação do público universitário, dando acesso preferencial a eles nas palestras oferecidas.

            A Programação Cultural teve como eixo temáticoLiteratura: Diálogos e Interfaces”, englobando as ligações da literatura com as diversas formas artísticas, seja como matriz ou como subsídio, como ocorre com as adaptações de textos para o cinema, o teatro ou as interpretações de obras literárias que se transmutam em pinturas e exprimem, em cores, os sentimentos outrora escritos, dando novo vigor e amplitude à obra literária em si.

Foi, portanto, dado o foco macroscópico da literatura e da sua relação com as outras artes. Com uma programação rica em palestras, lançamentos de livros, exibição de filmes e apresentações culturais, a Bienal colocou o fazer literário no eixo central das discussões, ao focar a literatura sob o aspecto de seus diálogos e interfaces com outras mídias.

            Para Homero Fonseca, o coordenador de conteúdo da Bienal, esse formato interdisciplinar da literatura, que norteou o eixo temático das palestras, foi uma experiência positiva. “A interação e a receptividade do público foi muito boa. Acredito que esse formato deva ser levado adiante”, comentou.

 

            SUGESTÃO 5

            Pensar a literatura hoje significa, como bem perceberam os organizadores da Bienal de Pernambuco,  ter sempre em mente a interdisciplinaridade, ou seja, a relação entre diferentes áreas do conhecimento. Livros podem falar de artes visuais, cinema ou teatro sem perder a sua característica  literária. Tudo depende da forma como isso é feito e do projeto editorial envolvido. Quanto mais disciplinas estiverem envolvidas, maiores são as possibilidades de êxito. Essa concepção do fazer literário amplia inclusive a possibilidade de  parcerias com profissionais de outras áreas.

 

            Bienal do Livro de Minas

A primeira edição da Bienal do Livro de Minas ocorreu em 2008. Nos seus 11 dias de realização, mais de 225 mil visitantes circularam pelos pavilhões do Expominas e adquiriram cerca de 500 mil livros. Mais de 130 expositores apresentaram 20 mil títulos nos 12 mil m2 do evento.

O público participou de uma programação cultural variada que contribuiu para a consolidação da festa literária no calendário do Estado. Os espaços Café Literário e Arena Jovem receberam quase 90 personalidades em cerca de 86 sessões de variados estilos, entre debates, bate-papos, encontros literários e atividades lúdicas para crianças.

 

            Bienal Internacional do Livro do Ceará

            Com o tema “A aventura cultural da mestiçagem”, a Bienal Internacional do Livro do Ceará realiza a sua 8ª edição no Centro de Convenções de Fortaleza, entre os dias 12 e 21 de novembro de 2008. A programação vai destacar as manifestações artísticas e culturais de duas comunidades lingüísticas: a portuguesa e a espanhola, bem como de suas influências por mais de 30 países do planeta.

As atrações da Bienal envolvem ainda sessões literárias, com palestras, debates, leituras de poemas, encontros especiais e lançamentos de livros. A 8ª edição do evento é uma iniciativa do Sindilivros em parceria com a RPS Eventos, e conta com a cooperação de entidades como Câmara Brasileira do Livro, Associação Nacional de Livrarias, Academia Cearense de Letras e Câmara Cearense do Livro.

 

            Bienal Nacional do Livro de Natal

            A Bienal Nacional do Livro de Natal durou dez dias em 2007. Foi um dos mais importantes eventos culturais do Estado do Rio Grande do Norte. No processo de seleção de editoras e livrarias que participam do evento, houve o apoio da Câmara Brasileira do Livro.

Para a seleção de temas e de autores convidados, foram consultados a CBL, escritores, jornalistas, intelectuais, artistas e membros de entidades representativas em todo o Estado. Houve a participação de mais de 500 escolas do Rio Grande do Norte , com mais de 60 mil alunos ao longo dos 10 dias de evento.

Foram realizadas mais de 60 atrações culturais e mais de 50 lançamentos e relançamentos de livros. Das 45 atividades que aconteceram no auditório, mais de 23 envolveram escritores, jornalistas e personalidades ligadas a cultura potiguar. De uma lista de 61 convidados, 60% foram do Rio Grande do Norte, numa clara demonstração do respeito da organização para com os autores da terra.

 

            Bienal do Livro São José do Rio Preto

A terceira edição do evento ocorreu em maio de 2008. São José do Rio Preto é a maior cidade do noroeste do Estado de São Paulo. A Bienal teve o apoio da Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto, Secretarias Municipais da Cultura e da Educação e CBL – Câmara Brasileira do Livro.

            Mais de 110 mil visitantes, sendo 36 mil crianças, alunos das escolas municipais, percorreram os 77 estandes de 40 expositores, entre editoras, livrarias e distribuidoras de livros. Foram mais de 600 horas de atividades em uma extensa programação cultural para todo o tipo de público, gostos e idade.

            A grande atração para o público que visita a Bienal é o Salão de Idéias, uma espécie de maratona literária idealizada e organizada pela CBL, que leva à cidade autores de alto nível, renomados nacionalmente, para conversar e debater com o público.

 

            Bienal Nacional do Livro da Paraíba

            A Primeira Bienal Nacional do Livro da Paraíba foi realizada em 2006. Em nove dias de evento, centenas de títulos de obras literárias das mais importantes editoras do País ficaram à disposição do público. Diversos autores locais e nacionais também estiveram presentes na Bienal para debates, sessão de autógrafos e conferências.

            Com a realização da Bienal, a Paraíba se inseriu no circuito nacional de eventos literários. Além da programação organizada por cada estande, que ficou sob a responsabilidade dos expositores, houve atividades culturais paralelas, tanto no palco Estante Viva como no Auditório.

            O palco ficou destinado a apresentações culturais de música, teatro e dança. O local recebeu a demanda das escolas públicas e privadas, que participaram de leitura de contos, entre outras programações. No auditório foram desenvolvidas atividades entre os autores e o público. As manhãs estavam reservadas para apresentação de experiências pedagógicas. À tarde e à noite aconteciam os encontros com autores locais e de fora do Estado.

            Ficaram à disposição do público cerca de 70 mil livros. Foram aproximadamente 50 horas de discussão literária, 30 lançamentos e relançamentos de obras, além de mais de 20 apresentações artísticas.

 

Feira Nacional do Livro e Festival Literário Nacional de Poços de Caldas

Os dois principais eventos culturais de literatura do sul de Minas acontecem no patrimônio histórico de Minas Gerais construído na década de 1930, no Palace Casino. Nos seis primeiros dias de abril de 2008, Poços de Caldas recebeu aproximadamente 50 expositores de todo o país com mais de 30 mil títulos de livros para todos os gostos e bolsos.

Participaram uma das maiores especialistas em lingüística textual do Brasil, Ingedore Villaça Koch, homenageada no evento, MV Bill, Telma Guimarães, Fabrício Carpinejar, Elias José, André Ribeiro, Julio Emilio, Márcia Nehemy Bittar, João Scortecci, Maria Esther Mendes Perfetti, Lino de Albergaria e Walter Alvarenga.

A Feira e o Festival foram uma realização da GSC Eventos com a parceria da Prefeitura Municipal de Poços de Caldas, Secretaria de Educação e Cultura, Turismo, Cia. Bella de Artes, Renovias, Câmara Brasileira do Livro, Sesc e Senac. Informações: (35) 3713-9901 ou www.feiradolivropocosdecaldas.com.br

 

AVALIAÇÃO DAS BIENAIS E FEIRAS DO LIVRO

As Bienais e Feiras do Livro são muito importantes para atrair as pessoas para perto de livros, mas perderam um pouco de seu sentido original. Antes, ia-se por ser agradável e porque fazia sentido economicamente, pois lá se conseguiam os melhores descontos e os preços mais baixos.

Com a chegada das grandes livrarias ao mercado nacional, porém, com os seus constantes descontos e promoções, isto não acontece. Na há mais porque ir a uma Feira do Livro com essa motivação, pois, durante o ano inteiro, pode-se comprar o mesmo livro on-line a um preço comparável ou mais baixo.

Mesmo as sessões de autógrafos não justificam a ida às Feiras, pois as livrarias estão cada vez mais agressivas na promoção e organização desses eventos. Por todos estes motivos, melhores campanhas de marketing e/ou um design dos pavilhões cada vez menos conservadores serão necessários.

Uma alternativa é o modelo do Festival Literário, no qual escritores de vários países confluem a uma cidade ou localidade para falar sobre as suas obras, bem como para interagir com os leitores. Há sessões de autógrafos, palestras e debate, mas, acima de tudo, uma saudável e estimulante troca de idéias na qual é possível o redescobrir de escritores e o conhecimento de novas  correntes de escrita.

            Existe atualmente mais de uma centena de festivais literários em cidades pitorescas espalhadas pelo mundo. O mais famoso de todos, que serve de modelo ao de Parati, realizado no Brasil, é o de Hay-on-Wye, no País de Gales. O criador do evento, Peter Florence, teve a idéia de iniciá-lo em 1988, depois de ganhar uma bolada numa partida de pôquer com amigos. No primeiro ano foram vendidos 2.500 ingressos. Atualmente, recebe mais de 93 mil pessoas.

 

            Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)

            Em agosto de 2003, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) tornou-se a caçula da família de importantes festivais literários como Hay-on-Wye, Adelaide, Harbourfront de Toronto, Festival de Berlim, Edimburgo e Mântua. Com a presença de autores mundialmente respeitados, como Julian Barnes, Don DeLillo, Eric Hobsbawm e Hanif Kureishi, a primeira FLIP estabeleceu um padrão de excelência às edições seguintes.

A Flip é hoje conhecida como uma das principais festas literárias internacionais, sendo aclamada pela qualidade dos autores convidados, pelo  entusiasmo de seu público e pela hospitalidade da cidade. recebeu alguns dos grandes nomes da literatura mundial, como Salman Rushdie, Ian McEwan, Martin Amis, Margaret Atwood, Paul Auster, Anthony Bourdain, Jonathan Coe, Jeffrey Eugenides, David Grossman, Lidia Jorge, Pierre Michon, Rosa Montero, Michael Ondaatje, Orhan Pamuk, Colm Toíbín, Enrique Vila-Matas, Jeanette Winterson, J. M. Coetzee e Marcello Fois.

            Dos brasileiros, estiveram na Flip nomes de destaque, como Ariano Suassuna, Ana Maria Machado, Milton Hatoum, Millôr Fernandes, Ruy Castro, Ferreira Gullar, Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura, Barbara Heliodora, Ruy Castro e Lygia Fagundes Telles, além de ícones da cultura brasileira como Chico Buarque e Caetano Veloso.

            A sexta edição, em 2008, teve um repertório eclético de convidados, como o dramaturgo inglês Tom Stoppard, a psicanalista Elisabeth Roudinesco, o quadrinista Neil Gaiman, a roteirista argentina Lucrecia Marte e o escritor holandês Cees Nooteboom. O evento confirmou assim a sua vocação cosmopolita de discutir todo tipo de idéias manifestadas pela palavra escrita.

            A cada ano a FLIP homenageia um expoente das letras brasileiras. No primeiro ano, em 2003, celebrou o poeta e compositor Vinicius de Moraes (1917-1980). João Guimarães Rosa (1908-1967) foi o homenageado no ano seguinte. Em 2005 foi a vez de Clarice Lispector (1920-1977), em 2006, do baiano Jorge Amado (1912-2001), e, em 2007, do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980). Em 2008, ano do centenário da morte de Machado de Assis (1839-1908), a Flip focou a vida e a obra do escritor carioca.

Enquanto a programação principal acontece na Tenda dos Autores e é transmitida ao vivo na Tenda do Telão, vários outros eventos ocorrem simultaneamente em diversos locais. A Oficina Literária, destinada a jovens aspirantes a escritor, é realizada por grandes autores brasileiros e internacionais.

A Tenda dos Autores e a do Telão receberam, juntas, em 2008, cerca de 35 mil espectadores. Pela primeira vez, as mesas foram transmitidas online, com uma audiência próxima a 4 mil visitas. Também foi criado um blog e postados vídeos no youtube.

também uma programação exclusiva para as crianças – a Flipinha –, em que jovens estudantes de Paraty apresentam o resultado de seus trabalhos inspirados no universo literário e participam de palestras com autores convidados. Na Flipinha, a série de eventos realizados, que resultam de um trabalho educativo desenvolvido ao longo do ano com alunos de 37 escolas da cidade, reuniu vinte autores brasileiros e atraiu cerca de 10 mil crianças.

Os jovens participantes tiveram oportunidade de interagir com autores, ouvir histórias contadas pelos próprios escritores, acompanhar “ao vivocomo se desenvolve o processo de desenho de uma ilustração e aprender a criar bonecos de papel machê e poemas coletivos. Também foram protagonistas de peças de teatro, apresentações musicais e de dança, com a constante inspiração de Machado de Assis.

A FLIP ETC concentrou em sua programação a maior parte das atividades relacionadas a Machado de Assis, incluindo uma mostra de cinema com filmes baseados na obra do escritor, uma exposição do Instituto Moreira Salles com fotografias do Rio de Janeiro na época de Machado, peças de teatro adaptadas a partir de suas obras e abordagens particulares extraídas dos textos machadianos, como a palestraEconomia em Machado de Assis”, do ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco.

O sucesso da Festa também estimulou o desenvolvimento de uma programação de leituras, shows e lançamentos de livros, batizada de Off-Flip. O interesse despertado pela festa literária traz reflexos diretos para a economia da cidade. Durante os cinco dias, Paraty, em 2008, recebeu em torno de 20 mil turistas, que ocuparam pousadas e restaurantes, fizeram compras nas lojas e ateliês, gerando recursos e ampliando o mercado na cidade. A Festa ocupou 230 moradores que trabalharam na sua montagem e realização.

Desde a primeira edição, o crescimento da Festa Literária está intimamente ligado à vida e às necessidades de Paraty. Artistas locais, comerciantes, hoteleiros e donos de restaurantes se envolvem com o evento. Flávio Moura, diretor de programação da Flip 2008, acredita que “a Flip é a melhor porta de entrada de um autor no Brasil”. “Ela é cada vez mais uma chancela fundamental que orienta o que vale e o que não vale a pena ler”, completou.

Informações: http://www.flip.org.br/

 

SUGESTÃO 6

Um dos melhores caminhos para fixar a literatura holandesa é conseguir a participação de escritores, roteiristas ou cineastas na Flip. Para isso, é necessário todo um trabalho de aproximação que passa pela ação de agentes literários e publicação dos romancistas, contistas, poetas, roteiristas e ensaístas holandeses conforme apontado anteriormente

 

            Festival Internacional de PoesiaDois Córregos

            Outra alternativa está nos festivais internacionais de poesia. O município de Dois Córregos, a 288 km da cidade de São Paulo, foi o palco em 2008, da segunda edição do seu. Com o sloganPor um mundo mais poético”, o Festival contou com um extenso programa, que inclui saraus, oficinas culturais e seminários, com a participação de poetas, repentistas e trovadores.

O evento é realizado pelo Instituto Usina dos Sonhos em parceria com a Prefeitura de Dois Córregos, e tem apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), União Brasileira de Escritores (UBE) e Câmara Brasileira do Livro (CBL).  Informações sobre o festival no e-mail contato@usinadesonhos.org.br ou pelo telefone (14) 3652-1061.

 

            Festival da Mantiqueira – Diálogos com a Literatura

            Escritores consagrados estiveram reunidos em maio e junho de 2008 em São  Francisco Xavier, distrito a 59 km de São José dos Campos e a 138  km  de São Paulo, durante três dias. O objetivo é incentivar o prazer a leitura, com atividades gratuitas e abertas, shows musicais, atividades infantis e a participação de estudantes e professores.

            A programação foi realizada em cinco espaços localizados no centro de São Francisco Xavier: a Tenda Mantiqueira Literária (debates), uma livraria (lançamento dos livros e sessões de autógrafos), Espaço Mantiqueira (atividades infantis e os shows),  Espaço Mantiqueira Musical e Bar e Restaurante Photozofia.

            Participaram dos debates com o público os escritores Milton Hatoum, Fernando Morais, Moacyr Scliar, Jorge Caldeira, Nelson Motta, Marçal Aquino, Marcelo Rubens Paiva, Zuenir Ventura, Mário Prata, Marcelino Freire e a diretora de cinema Suzana Amaral. Também foram realizados encontros temáticos intitulados Diálogos Literatura e TV, Diálogos Literatura e Bossa Nova, Diálogos Literatura e Cinema e Diálogos Literatura e História.

           

            ROMANCES TRADUZIDOS EM PORTUGAL

            Antes de avaliar as possibilidades de maior  intercâmbio entre Brasil e Holanda na área de livros, especificamente da literatura, cabe verificar o que existe traduzido para o português da literatura holandesa. Segundo Arie Pos, da Universidade de Coimbra, a literatura holandesa traduzida em língua portuguesa, a partir de 1992, em Portugal, é a seguinte (http://pt.neerlandes.org/literatura_traduzida_em_portugues):

 

AKKER, Magda van den. A China de Gaspar (Het China van Gaspar, 1989). Vert. Maria Alice Vila Fabião. Lisboa: Caminho 1992.


BENALI, Abdelkader. Boda à beira-mar (Bruiloft aan zee, 1996). Vert. Arie Pos. Lisboa: Teorema 2002.


BROUWERS, Jeroen. Vermelho decantado (Bezonken rood, 1981). Vert. Célia  Bernardino & Arie Pos. Lisboa: Teorema 1997.

 

CLAUS, Hugo. A caça aos patos (De Metsiers, 1950). Vert. Ana Maria Carvalho. Porto: Asa 1994.


CLAUS, Hugo. O desgosto da Bélgica (Het verdriet van België, 1983) Vert. Ana Maria Carvalho. Porto: Asa 1997.

 

CLAUS, Hugo. Rumores (De geruchten, 1997). Vert. Ana Maria Carvalho. Porto: Asa 2001.

 

CORNINCK, Herman de. Os hectares da memória (De hectaren van het geheugen, bloemlezing). Collectieve vert. Lisboa: Quetzal 1996.

 

DIS, Adriaan van. Em África (In Afrika, 1991). Vert. Ana Maria Carvalho. Lisboa: Dom Quixote 1998.

 

DIS, Adriaan van. A terra prometida (Het beloofde land, 1990). Collectieve vert. Lisboa: Dom Quixote 2003.

 

DORRESTEIN, Renate. Um coração de pedra (Een hart van steen, 1998). Vert. (uit het Engels) Armando Silva Carvalho. Lisboa: Círculo de Leitores 2003.


DUINKER, Arjen. A canção sublime de um talvez (Het sublieme lied van een misschien, bloemlezing). Vert. Arie Pos. Lisboa: Teorema 2003.

 

ENQUIST, Anna. A obra-prima (Het meesterstuk, 1994). Vert. Carmo Vasconcelos Romão. Lisboa: Temas e Debates 2004.

 

ENQUIST, Anna. O segredo (Het geheim, 1997). Vert. Elsa Trigo. Lisboa: Temas e Debates 2002.


FRANK, Anne. Diário de Anne Frank: versão definitiva (Het achterhuis, 1991). Vert. (uit het Engels) Elsa T.S. Vieira. Lisboa: Livros do Brasil 2003.

 

GERLACH, Eva. Alguns poemas (Enkele gedichten, bloemlezing). Collectieve vert. Lisboa: Quetzal 1996.

 

GLASTRA VAN LOON, Karel . Fruto da paixão (De passievrucht, 1999). Vert. Susana Canhoto & Catarina Pires. Lisboa: Dom Quixote 2004.

 

GRUNBERG, Arnon. O messias dos judeus (De joodse messias, 2004). Vert. Susana Canhoto, Ana Leonor Duarte, Catarina Pires & Arie Pos. Cascais: Bico de Pena 2007.

 

HAASSE, Hella S. Uma ligação perigosa (Een gevaarlijke verhouding, 1976). Vert. Ana Pinto de Almeida & Arie Pos. Lisboa: Teorema 1997.

 

HARTOG, Jan de. O inspector. Lisboa : Estudios Corimp. 1962

 

HERZBERG, Judith. A fábrica de nada (De nietsfabriek, 1997). Vert. David Bracke & Miguel Castro Caldas. Lisboa: Artistas Unidos/Cotovia 2005.

 

HERZBERG, Judith. O que resta do dia. Antologia de poesia com um texto em prosa. Vert. Ana Maria Carvalho. Lisboa: Cavalo de Ferro 2008.

 

HIRSI ALI, Ayaan. Uma mulher rebelde. Lisboa : Presença2007

 

ISEGAWA, Moses. Crónicas Abissínias (Abessijnse kronieken, 1998). Vert. (uit het Engels) Eugénia Antunes. Lisboa: Temas e Debates 2001.

 

JAPIN, Arthur. O preto de coração branco (De zwarte met het witte hart, 1997). Vert. Karen Broothaers, Susana Canhoto & Catarina Pires. Lisboa: Teorema 2003.

 

KASTNER, Jörg. O delírio de Rembrandt: a misteriosa história de um quadro azul. Lisboa : Gótica2006

 

KOMRIJ, Gerrit. Atrás dos montes (Over de bergen, 1990). Vert. Patrícia Couto. Porto: Asa 1997.

 

KOMRIJ, Gerrit. Contrabando. Uma antologia poética (Contrabande. Een bloemlezing poëzie). Vert. Fernando Venâncio. Lisboa: Assírio & Alvim 2005.


KOMRIJ, Gerrit. Um almoço de negócios em Sintra (Een zakenlunch in Sintra, 1996). Vert. Fernando Venâncio. Porto: Asa 1999.

 

KRABBÉ, Tim. A desaparecida (Het gouden ei, 1984). Vert. Ana Leonor Duarte & Arie Pos. Lisboa: Relógio d’Água 2006.

 

LINDWER, Willy. Os últimos sete meses de Anne Frank . Lisboa : Livros de Brasil1992


LOO, Tessa de. As gêmeas (De tweeling, 1993). Vert. Ana Leonor Duarte. Lisboa: Quetzal 2007.

 

MINCO, Marga. A erva amarga (Het bittere kruid, 1957). Vert. Maria Clarinda Moreira. Lisboa: Teorema 1997.

 

MOOR, Margriet de. O virtuoso (De virtuoos, 1993). Vert. (uit het Duits) Fátima Freire de Andrade. Porto: Asa 1997.

 

MULISCH, Harry. Duas mulheres (Twee vrouwen, 1975). Vert. Miguel Poças & Arie Pos. Lisboa: Teorema 1999.

 

MULTATULI. Max Havelaar ou os leilões de café da companhia holandesa de comércio. Porto, Civilização.

 

NOOTEBOOM, Cees. O (des)caminho para Santiago (De omweg naar Santiago, 1992). Vert. Patrícia Couto & Arie Pos. Porto: Asa 2003.

 

NOTEBOOM, Cees. A história seguinte (Het volgende verhaal, 1991). Vert. Ana Maria Carvalho. Lisboa: Quetzal 1993.

 

NOOTEBOOM, Cees. Máscara de neve (Mokusei, 1982). Vert. Ana Maria Carvalho. Lisboa: Quetzal 1995.

 

NOOTEBOOM, Cees. Rituais (Rituelen, 1980). Vert. Patrícia Couto & Arie Pos. Porto: Asa 2000.

 

PALMEN, Connie. As leis (De wetten, 1991). Vert. Maria Alice Fabião. Lisboa: Relógio d’Água 1999.

 

PROVOOST, Anne. A minha tia é uma baleia (Mijn tante is een grindewal, 1990). Vert. Arie Pos. Porto: Afrontamento 2002.

 

RIJNDERS, Gerardjan. Buraco negro. Câncer (Mooi, 1995. Pick-up, 1986. Kanker, 1996). Vert.

 

RONAN, Frank. A comunidade. Lisboa : Gradiva2002

 

ROYEB, Heleen van. A fuga (De ontsnapping, 2006). Vert. M.L. Raven-Gomes. Lisboa: Caderno 2007.

 

SIERENS, Arne. O meu Blackie e outras peças (Mijn Blackie en andere stukken). Vert. Lut Caenen et al. Porto: Campo das Letras 2002.

 

SLAUERHOFF, J.J. O reino proibido (Het verboden rijk, 1932). Vert. Patrícia Couto & Arie Pos. Lisboa: Teorema 1998.

 

THOMÉSE, P.F. A filha-sombra (Schaduwkind, 2003). Vert. Susana Canhoto & Catarina Pires. Lisboa: Dom Quixote 2006.

 

Uma migalha na saia do universo (Een kruimel op de rok van het universum).
Bloemlezing uit de Nederlandse poëzie van de 20ste eeuw. Keuze en inleiding Gerrit Komrij. Vert. Fernando Venâncio e.a. Lisboa: Assírio & Alvim 1997.

 

UYTERLINDE, Judith Quando a gravidez não chega. Cruz Quebrada : Casa das letras : ed. Noticias2005.

 

VAN DIS, Adriaan Em África : romance de viagem . Lisboa : Dom Quixote1998

 

VAN GOGH, Vincent. Cartas de Van Gogh a seu irmão Theo. Lisboa : Aster[s.d.]

 

VAN GULIK, Robert. Os crimes da agulha prateada: Lisboa : Difelcopy.1961

 

VAN GULIK, Robert. Os crimes do sino douradoLisboa : Difel1987

 

VAN GULIK, Robert. Os crimes do lago Chines        Lisboa : Difel1987

 

VAN GULIK, Robert. Os crimes do lago chinesLisboa : Gotica2005

 

VAN GULIK, Robert. Os crimes da estatua dourada. Lisboa : Difelcopy 1987

 

VAN RAAY, Carla A prostituta de Deus . Algés : Difel2007

 

WERDEN, Henk van. A boca cheia de vidros (Een mond vol glas, 1998). Vert. (uit het Engels) Maria João Cordeiro. Lisboa: Temas e Debates 2002.

 

WINTER, Leon de. Serenata (Serenade, 1995). Vert. (uit het Duits) Adélia da Silva Melo. Algés: Difel 1997.

 

            Cabe destacar a importância do tradutor Arie pos para divulgação da literatura holandesa em Portugal. Nascido em Boskoop, em 1958, estudou holandês e Literatura Comparada na Universidade de Leiden. Desde 1989, vive em Portugal, onde trabalha como tradutor literário e professor universitário de literatura holandesa. Traduziu para holandês obras de, entre outros, Fernão Mendes Pinto, Miguel Torga, Jorge de Sena, José Cardoso Pires e poesia de João Cabral de Melo Neto, Camilo Pessanha, Nuno Júdice e Ana Luísa Amaral.

Em português, publicou traduções de vários autores holandeses, entre os quais Jan Huygen van Linschoten, J.J. Slauerhoff, Harry Mulisch, Cees Nooteboom, Jeroen Brouwers, Hella S. Haasse, Anne Provoost e Abdelkader Benali. Para a editora Teorema, traduziu uma antologia de poesia de Arjen Duinker, A canção sublime de um talvez (Lisboa, 2003). Atualmente, prepara uma tradução holandesa de Os Lusíadas de Luís de Camões.


            LIVROS HOLANDESES NO BRASIL

            O problema é que o português falado no Brasil é diferente do de Portugal. Portanto, essas traduções, embora possam ser entendidas, não são lidas com prazer entre os brasileiros Em busca de títulos holandeses publicados entre nós, chegamos à seguinte lista, na qual pode ser também incluído o livro Excursão através da literatura holandesa, de Garmt Stuiveling, que circulou pelo País nos anos 1960 e ainda pode ser encontrado em sebos:

 

BRUIJN, Cor. Lasse Länta, o menino lapão. São Paulo: Brasiliense, 1960

 

HARTOG, Jan de. O capitão: romance. São Paulo: Melhoramentos, 1968.

 

HARTOG, Jan de. O leito nupcial. Tradução: Miriam Mehler e Emílio di Biasi. Biblioteca Célia Helena.

 

HOLLANDER, Xaviera. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1986

 

LOEFF, A. Rutgers van der. Avalanche!. São Paulo: Brasiliense, 1960.

 

NOOTEBOOM, Cees. Paraíso perdido. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

 

WETERING, Janwillem van de. Chuva pesada. Rio de Janeiro: J.Zahar, 1988.

 

            Na célebre série Mar de histórias: antologia do conto mundial, publicada pela Nova Fronteira, em 1999, e organizada e traduzida por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, a Holanda se faz presente com dois autores:  Multatuli e Conrad Busken-Huet. No volume 10, do mesmo ano, há um texto de Louis Couperus.

 

            AUTORES HOLANDESES QUE MERECEM TRADUÇÕES

            Cabe aqui verificar autores holandeses de grande sucesso no seu país de origem e na Europa que são quase desconhecidos por aqui. Um dos principais é Harry Mulisch. Ele completou 80 anos em 29 de julho de 2007 e, apesar de ser apontado como um dos maiores escritores holandeses, com fama também no exterior, é pouco citado no Brasil, sendo autor de livros transformados em filme. É o caso de assalto e A descoberta do Céu, a história de  dois anjos que querem devolver as tábuas originais dos Dez Mandamentos ao céu e se aliam a dois homens para cumprir a tarefa.

            Vale ressaltar também a obra Siegfried, de 2000, onde Mulisch narra uma história em que o ditador nazista Adolf Hitler teria tido um filho com a sua amante Eva Brown. O segredo guardado a sete chaves é descoberto pelo protagonista do livro, um escritor.

Outro nome essencial é Cees Nooteboom. Considerado por críticos como A. S. Byatt e J. M. Coetzee como um dos autores de maior alcance da literatura mundial e  diversas vezes cotado para o Nobel, foi um dos convidados mais aguardados da oitava edição da Festa Literária Internacional de Parati (Flip) e teve um de seus principais livros, Paraíso Perdido, traduzido para o português pela Editora Companhia das Letras.

            A obra começa e termina com o famoso poema de John Milton quetítulo à obra e mistura a mitologia dos anjos com o universo das viagens, tão próprio do autor denominado “holandês voador”. A protagonista do livro é Alma, uma brasileira, moradora dos Jardins e de Maria Bethânia. Ela adora anjos, sonha em conhecer a Austrália e é estuprada na favela de Paraisópolis, na cidade de São Paulo. Resolve partir então numa missão espiritual, tem um breve romance com um aborígene e se torna importante para um crítico literário holandês, o qual a reencontra numa clínica na Áustria.

            Um terceiro escritor que merece atenção Hugo Claus. Falecido em março de 2008, esse escritor belga de língua holandesa foi várias vezes mencionado como possível vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Ele produziu mais de 200 trabalhos como novelista, foi um poeta, artista, dramaturgo e diretor. A divulgação maior de seu nome no Brasil também é um questão a ser melhor discutida.

            Na poesia, um nome fundamental é Arjen Duinker. Considerado um dos poetas mais importantes da Holanda, nasceu em Delft, em 1956. Formado em filosofia e psicologia, publicou, além de um romance, onze volumes de poesia. Em 2001, recebeu o Prêmio Jan Campert pelo livro De geschiedenis van een opsomming (A história de uma enumeração, 2000). A coleção De Zon en de Wereld (O sol e o mundo) ganhou o Prêmio de Poesia VSB 2005 e foi publicado em tradução inglesa na Austrália. A obra de Duinker está traduzida em várias línguas, tendo também constado em várias compilações na França, Portugal, Itália, Irã, Rússia, Reino Unido, China, Finlândia, Croácia e México.

Duinker trabalha, em conjunto com o soprador de vidro Bernard Heesen, no dicionário enciclopédico O Mundo do Soprador de Vidro. Juntamente com a poeta francesa Karine Martel, escreveu En dat? Oneindig/ Et cela? L'infini (E Isso? O Infinito). Em 2007, Arjen Duinker publicou o "quarteto para duas vozes" Starfish, Zeester, Etoile de mer, Estrella de mar (quatro poemas diferentes em quatro línguas diferentes). Atualmente dedica-se a parcerias com o trompetista Eric Vloeimans, o compositor Hans Koolmees e o guitarrista de flamenco Eric Vaarzon Morel. Arjen Duinker continua a residir e a trabalhar em Delft.

           

            SUGESTÃO 7

            A tríade Harry Muslich, Cees Nooteboom e Hugo Claus, mais o poeta Arjen Duinker, poderia ser proposta como uma coleção para alguma das empresas citadas neste mapeamento. A verba para publicação poderia surgir de uma parceria com empresas holandesas no Brasil. Analogamente, autores brasileiros teriam livros publicados na Holanda.

 

 

            SUGESTÃO 8

            Selecionar, com professores de literatura holandesa, uma lista de cinco autores contemporâneos que poderiam participar de um projeto de residência no Brasil, em cidades que tenham bienais ou festivais de literatura. Cada um ficaria numa cidade diferente e, ao final do período, faria um trabalho literário a ser publicado em edição bilíngüe, português e holandês. Esse material ajudaria no ensino da língua holandesa proposto na Sugestão 1. Também é possível fazer o contrário, ou seja, enviar cinco escritores para a Holanda e narrar a sua experiência em forma de texto. Dependendo do formato editorial escolhido, é possível fazer um livro ou dois

 

 

            PANORAMA DA PRODUÇÃO NACIONAL CONTEMPORÂNEA

            Um dado importante é que não existem, como houve no início do século XX, grupos e projetos coletivos contra um adversário definido. Os modernistas de 1922, por exemplo, combatiam o “bom gostoburguês e a poesia parnasiana, assim como os romancistas de 1930 lutavam contra os desmandos políticos dos senhores de engenho, e os escritores dos anos 1970 tinham como inimigo a ditadura militar, escrevendo ficções onde diziam aquilo que não podia ser dito nos jornais.

O clima de liberdade política gera múltiplos caminhos para os jovens escritores. Há, portanto, uma rica variedade de tendências sem a necessidade de vínculo a movimentos estéticos ou ideológicos ou de cerceamento por patrulhamentos de qualquer ordem.

Em termos de gêneros, é possível detectar a retomada do fantástico (gênero pouco cultivado entre nós), o jogo da reescritura (que tem rendido ótimos romances e contos), o diálogo com outras linguagens, em especial a da televisão (que substitui o cinema no gosto dos novos autores) mas também a da história, do ensaio, da mídia. Há também uma tímida volta ao campo e a cidades do interior, o humor, a narrativa policial e o romance histórico.

Nos autores que começaram a publicar nos anos 1980 e 1990, prevalece a temática urbana, vinculada à violência, drogas e sexo. Há também alguns autores trabalhando bem com os variados processos de reescritura, retomando momentos ou obras importantes de nossa história literária.

Uma lista dos principais romance do século XX incluiria, entre outros, Macunaíma, de Mário de Andrade, Vidas secas, de Graciliano Ramos, Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, para ficar nos clássicos, todos eles dos primeiros 70 anos. Nos anos 1980 e 1990, os destaques iriam para O quieto animal da esquina, de João Gilberto Noll, A grande arte, de Rubem Fonseca, Um crime delicado, de Sérgio Sant'Anna, e Em liberdade, de Silviano Santiago.

Uma discussão bastante comum é se existe ou não uma literatura feminina. É aquela que trabalha, sob o ponto de vista a mulher em temas como gravidez, sexo, amor, relações homossexuais, amizades e o próprio ato de escrever, que tem paradigmas fundamentais como Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector e Rachel de Queiroz e que compartilham todo um universo de referências, maneirismos e preocupações.

            Alguns nomes importantes das novas gerações são: Clarah Averbuck, Állex Leilla, Ivana Arruda Leite, Cecília Costa, Índigo (pseudônimo de Ana Cristina de Oliveira), Ana Paula Maia, Claudia Tajes, Simone Campos, Mara Coradello, Tércia Montenegro, Cíntia Moscovich e Rosa Amanda Strausz.

 

            História de uma espera

            Um livro importante nas relações entre Brasil e Holanda é História de uma espera, de Frederico Lucena de Menezes, publicado pela L.G.E. Editora. O livro explora a realidade multifacetada do Pernambuco holandês. Mostra como a Nova Holanda era um projeto utópico com escassas possibilidades de realização apesar dos esforços de Mauricio de Nassau.

O romance gira em torno do médico Peter Deneboom. Na sua viagem da Holanda para o Brasil, ele depara com um inglês chamado Thomas Kemp que conta como, pouco antes de morrer, o primeiro capitão-geral de Pernambuco teria deixado um testamento que foi levado para a Inglaterra onde circulava de mão em mão até desaparecer nos tempos de Cromwell.

O testamento é o leitmotiv do romance e simboliza a procura da própria identidade e da história perdida de Pernambuco. A Europa inteira é percorrida pelo filho de Deneboom em busca do documento. O pastor luterano Johann Valentin Andreae (1586-1654), um dos fundadores dos rosa-cruzes, encontra por fim o documento, antes de perdê-lo definitivamente.

            Frederico Lucena de Menezes, o autor,  nasceu em 1944 no Recife, Pernambuco. Psiquiatra, é um dos pioneiros da introdução da psicologia junguiana no Brasil. Ensinou Teoria e Técnicas Psicoterápicas na Faculdade de Filosofia da USP em Ribeirão Preto e deu aulas de Psicologia Política na UnB, na George Washington University e University of Viginia, onde continua como colaborador internacional. Atualmente reside em Brasília.

 

            Traição: um jesuíta a serviço do Brasil holandês

            Em Traição: um jesuíta a serviço do Brasil holandês processado pela Inquisição (Companhia das Letras), Ronaldo Vainfas conta a história de Manoel de Moraes, um jesuíta nascido em São Paulo no final do século XVI, missionário em Pernambuco que teve sua vida profundamente alterada no contexto da conquista do nordeste açucareiro pelos holandeses.

Na invasão de Pernambuco pelas tropas holandesas, em 1630, Manoel de Moraes tornou-se um combatente, mas passou para o lado holandês em 1634, traindo a resistência. Informante e capitão das forças holandesas, ele acabou se mudando para a Holanda, onde trocou o catolicismo pelo calvinismo.

Moraes casou, teve filhos, dedicou-se a várias atividades. O abandono de sua o atormentava, o medo da Inquisição o apavorava. Em 1643 resolveu fazer o caminho de volta, mesmo tendo sido julgado e condenado à revelia pelo tribunal da Inquisição. Sua história o leva a percorrer as atribulações de um homem dilacerado entre a busca de riqueza e a salvação da própria alma, entre o trabalho e a aventura.

 

Guerra, açúcar e religião no Brasil dos holandeses

Em Guerra, açúcar e religião no Brasil dos holandeses (Editora Senac), a historiadora Adriana Lopes apresenta o período em que ocorreu a invasão holandesa em Pernambuco. Ressalta quem em 24 anos de ocupação, 16 foram de guerra e oito de paz. Escrita de forma acessível, a obra é acompanhada de diversas ilustrações da época.

 

Provos: contracultura em Amsterdam

            em Provos - Amsterdam e o Nascimento da Contracultura (Editora Conrad), Carlota Cafiero enfoca os Provos, nascidos na Amsterdã dos anos 1960, um dos lugares mais tolerantes do Ocidente, deram o pontapé inicial para o surgimento da contracultura.

Eles foram imitados no resto do planeta, inclusive pelos beatniks e hippies da América, mas, como na Holanda não se fala inglês, o movimento raras vezes é lembrado quando o assunto são os anos 60. O livro conta a trajetória de uma revolução cultural empreendida por jovens anarquistas que conseguiram vários feitos através de uma forma bastante original e criativa de protesto – a provocação.  Provos significa justamente "provocadores". Entre 1965 e 1967, Amsterdã foi transformada por eles num centro da desobediência civil.

A obra conta como o excesso de conforto, de segurança e o amplo acesso aos bens de consumo na Holanda, tornaram maior o anticonformismo dos herdeiros da tradição anarquista. Eles deixaram o cabelo crescer, influenciados pelos Beatles, que se apresentaram em Amsterdã, e manifestações espontâneas e isoladas de performáticos contestadores da indústria e da propaganda começaram a ocorrer

            Um deles foi Robert Jasper Grootveld, que fundou um templo antifumo, onde criava os seus happenings contra o vício disseminado e inconseqüente da nicotina. Sua igreja se chamava Dependência Consciente da Nicotina, onde os fiéis entoavam mantras como "cof, cof, cof, cof". Outdoors e cartazes eram pichados por ele com um "k" negro, inicial da palavra kanker (câncer).

             O epicentro era a praça na Spui, ao redor da estátua de Lieverdje – obra do escultor Carel Kneuman, que representa um menino de rua, doada para Amsterdã por uma indústria de tabaco. Grootveld pousa seus olhos nessa estátua e decide fazer ali, toda noite de sábado, seus rituais, cerimônias que incluem dança, canto, teatro, jogos e discursos absurdos, frutos do movimento dadaísta, que terminam com uma imensa fogueira alimentada pelos curiosos e jovens.  A polícia era recebida sempre com risos e dispersão.

Van Duijin e Stolk, freqüentadores das cerimônias na Spui, percebem que as pessoas que delas participam têm um grau de consciência muito elevado, e que o evento tem um significado social explosivo. Lançam uma revista mensal intitulada Provos, inicialmente um panfleto colocado clandestinamente dentro de jornais conservadores, onde defendem uma conduta antisocial (contra o bem-estar holandês), o nomadismo, a arte, a ecologia e o fim da monarquia.

Pela Provos, os jovens eram conclamados a se unirem contra os automóveis, a polícia e a igreja e a serem favoráveis ao uso da bicicleta, à emancipação sexual, sobretudo do homossexualismo, à maconha, ao fim da propriedade privada e a qualquer forma de poder ou proibição

Vários projetos dos Provos são ainda hoje parte da rotina de Amsterdã, como as bicicletassem dono”. Em protesto contra a "caixa peidorrenta de ferro" (como definiam o automóvel), foi lançado o Plano da Bicicleta Branca. Os jovens que freqüentavam a Spui levavam suas bicicletas para serem pintadas de branco e depois as espalhavam pelas ruas para o uso irrestrito de todos. Outra conquista foi a liberalização da maconha.

 

            PROJETO BILÍNGÜE

Em janeiro de 2008, a escritora portuguesa Joana Serrado foi premiada na Holanda para desenvolver um livro poético em português e holandês. Ela recebeu o Prêmio holandês Hendrik de Vries, da Câmara Municipal de Groningen no valor de seis mil euros, para desenvolver um projeto bilíngüe, em português e holandês.

            Com uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia, ela vai ficar três anos na Holanda a tirar o doutoramento na área de estudo científico da religião. A idéia é editar um livro de poemas subordinado ao pensamento da casa como espaço privado, doméstico, familiar e feminino, oposto ao espaço público. Nesse aspecto, a casa também pode ser considerada a língua. Nesse sentido Hendrik de Vries, quenome ao prêmio, fez o oposto de Joana. Abandonou o seu país para viver e escrever em espanhol.

 

            SUGESTÃO 9

            Devido à relevância dos textos apontados, verificar a possibilidade de publicação, na Holanda, dos textos citados produzidos no Brasil e, em relação a Joana Serrado, verificar como o projeto dela pode também ser publicado no Brasil.

 

            COPA DA LITERATURA BRASILEIRA

            Trata-se de uma maneira alternativa inteligente de debater a produção editorial recente do País. Foi realizada em 2006. Dezesseis livros, escolhidos de forma bem pouco científica entre os romances brasileiros lançados naquele ano disputaram o prêmio em quatro rodadas.

            A cada jogo, dois livros se enfrentavam, com o vencedor passando para a rodada seguinte e o perdedor sendo eliminado do campeonato. Cada jogo foi decidido por um jurado, que escrevia uma resenha para anunciar e justificar sua decisão. Na grande final, todos os jurados votam e elegem o campeão.

A idéia é inspirada no Tournament of Books, criado em 2005 pela revista eletrônica americana The Morning News em parceria com a livraria Powell’s. O objetivo era levar as pessoas a ler as resenhas e comentar os resultados. Informações: http://copadeliteratura.com

 

SUGESTÃO 10

Promover uma Copa de Literatura na qual especialistas que dominem holandês e e português poderiam atuar dois lados do Oceano, com brasileiros avaliando textos holandeses e vice-versa. Isso poderia ser feito também com a participação de internautas  e talvez gerar  edições bilíngües.

 

 

            POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

            Existem nomes que merecem referência pelo que andam buscando, tanto em termos de uma estética renovada quanto pela afirmação de uma personalidade literária, como Jorge Lucio de Campos, Contador Borges, Fabrício Carpinejar, Adriano Espínola, Leontino Filho, Donizete Galvão e Maria Esther Maciel.

            Cabe mencionar a importância da divulgação da poesia brasileira realizada pela revista Poesia Sempre, criada por Affonso Romano de Sant'Anna quando presidente da Biblioteca Nacional. Críticos como Antônio Carlos Secchin e Ivan Junqueira devem ser lembrados nos seus esforços de levar os principais nomes para além-fronteiras, apesar das barreiras que a poesia brasileira enfrenta por ser escrita em língua portuguea, idioma de repercussão limitada.

            São importantes ainda os poetas Augusto e Haroldo de Campos, Arnaldo Antunes, Claudia Roquette-Pinto, Carlito Azevedo, Chacal, Eucanaã Ferraz, Heitor Ferraz Mello, Ferreira Gullar, Augusto Massi, Glauco Mattoso, Tarso de Melo, Fernando Paixão, Roberto Piva, Adélia Prado, Waly Salomão, Caetano Veloso, Augusto Machado, João Bandeira, Júlio Castanõn Guimarães, Josely Vianna Baptista, Manoel de Barros, Nelson Ascher, Orides Fontela, Régis Bonvicino, Sebastião Uchoa Leite, Duda Machado, Paulo Leminski e Ana Cristina César. Eles constituem uma poesia muito representativa das tendências estéticas da poesia brasileira contemporânea.

            Especificamente em relação à Holanda, vale lembrar a série de poemas de Bárbara Lia chamada Vicente Van Gogh: orgulho da Holanda, que inclui três poemas: Tecendo estrelas de Van Gogh, Campos de trigo e O artista e a arte (http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=545).

Professora de História e escritora, Bárbara publicou poemas no jornal Rascunho, Fenestra, Garatuja, Mulheres Emergentes, Revista Etcetera, Revista Coyote, Ontem choveu no futuro (na Internet), Revista Zunái, Germina Literatura, Blocosonline e Editora Ala de Cuervo. Finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2004, com o romance Cereja & Blues, publicou o livro de poesias – O sorriso de Leonardo – Kafka edições baratas. Mora em Curitiba há vinte anos.

 

            NOVAS MÍDIAS

            Pesquisa sobre novas mídias, realizada pela agência McCann e divulgada pela Intel, em 2007, indica que dos 170 milhões de blogueiros do mundo, 5,9 milhões são brasileiros. O Brasil seria o quinto maior grupo de leitores de blogs, com 10% mais leitores que a média mundial.

            Realizada com 10 mil pessoas (que representam estatisticamente 75% dos 532 milhões de usuários web do mundo) entre o final de 2006 e início de 2007 em 21 países, a pesquisa mostra que o número de internautas europeus ainda é mais do que o dobro do que o número de pessoas com acesso à web em dois dos países mais populosos da América Latina – Brasil e México. Juntas, estas nações contabilizam 30,9 milhões de internautas.

No ranking dos países com o maior número de blogueiros, estimado em 170 milhões de internautas, o Brasil ocupa a terceira posição (5% acima da média mundial, em número absoluto sobre a população com acesso à web), com 5,9 milhões de usuários.

A disseminação de conteúdo multimídia também merece destaque. O País é o quarto no mundo em número de upload de fotos, com uma média de imagens carregadas um 23% acima da média mundial. O Brasil é ainda o terceiro país no mundo que mais assiste vídeos na web e o segundo que mais carrega conteúdo multimídia na internet. Ainda na área multimídia, os brasileiros são o terceiro no ranking mundial em download de podcasts.

            A pesquisa confirmou que o Brasil tem o maior número de usuários de redes sociais, como o Orkut e o YouTube, com o México na segunda posição. Entretanto, quando o assunto é comunicadores instantâneos (IM), a situação se inverte, com o Brasil ocupando o segundo lugar.

 

            SITES BRASILEIROS NA HOLANDA

            Esse forte envolvimento dos brasileiros com a internet talvez explique a existência da site brasileirosnaHolanda (www.brasileirosnaholanda.com). Trata-se de um universo muito interessante para aproximar os dois países. São pessoas que compartilham informações que poderiam oferecer ricas interpretações do que significa ser holandês e viver naquele país.

           

            SUGESTÃO 11

            Alguns colunistas do site brasileirosnaHolanda podem auxiliar no desenvolvimento de atividades que podem vir a aumentar esse diálogo. Merecem destaque: Arnild Van de Velde (atua com jornalismo e projetos culturais), Clarissa Matos (jornalismo e literatura), Clívia Caraccíolo (jornalismo multimídia), Elisangela Kanacilo (seu interesse está no choque cultural de uma brasileira que vai para a Holanda), Gisa Muniz (tradutora e intérprete e autora de dois livros sobre português para holandeses), Luana Ferreira (relações públicas, divulga arte e cultura brasileira) e Margô Dalla (artes plásticas e jornalismo).

 

BLOGS

            Existem, no mínimo, dois blog interessantes de mulheres brasileiras que contam as suas experiências com imigrantes brasileiras na Holanda. A advogada Naldy Veldhuis (http://www.dynaholanda.blogspot.com/) e a paulista Adriana (http://www.drinaholanda.blogger.com.br/2006_01_01_archive.html), casada com o holandês Bart, morando em Eindhoven desde maio de 2003, são dois exemplos.

 

            SUGESTÃO 12

            Unir blogueiros brasileiros que moram na Holanda e vice-versa, estimulando-os a escrever textos sobre a experiência da imigração poderia render publicações coletivas seria uma experiência muito interessante.

 

LITERATURA E ARTES VISUAIS

 

Johann Gutlich

Existe uma artista plástico holandês que tem uma história muito bonita de ensino de artes visuais no Brasil. Seu nome é Johann Gutlich. Ele nasceu em Rotterdam, Holanda, em 29 de agosto de 1920, foi andarilho na Europa, imigrante e professor de artes plásticas no Brasil.

            Sua história passa por dois continentes e por duas principais expressões: uma figurativa, com densas imagens de retratos e outra abstrata, em que o lirismo se faz presente pelo sábio uso das cores, inclusive no desafio de lidar com o branco e suas variações no espaço.

            Gutlich, que se formou na Academia de Artes Plásticas e Ciências Técnicas da sua cidade natal, chegou ao Brasil em 1952, com 100 quadros na bagagem, convidado dos Museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro para dar palestras de grande repercussão.

Acabou ficando em São Paulo e mudando-se para São José dos Campos, onde de 1962 a 1970 atuou como diretor artístico da Escola de Belas Artes do Vale do Paraíba, em São José dos Campos, instituição onde formou centenas de alunos e que se desintegrou com o regime militar e com a sua saída do comando.

Os seus retratos, de cunho expressionista, diferenciam-se do gênero praticado na Alemanha por terem como uma referência onipresente a fineza dos mestres holandeses. Isso que dizer, em termos visuais, uma sensibilidade a toda prova na forma de captar e de representar pictoricamente estados d’alma.

A arquiteta Lina Bo Bardi escreveu, em 1957, na revista Anhembi, que o traço de Gutlich eraforte, incisivo, sem hesitações – uma pincelada que nunca volta atrás”. Pode-se acrescentar que suas cores evocam ainda os amarelos dos campos de trigo e os azuis do céu da Holanda.

Fenômeno semelhante ocorre com as cores de Aldemir Martins, oriundas das paisagens cearenses, e de Portinari, com seus ocres que evocam diretamente a terra roxa de sua cidade, Brodósqui. Transformar essas memórias e evocações visuais é um desafio do qual somente o progressivo domínio técnico permite sair vitorioso.

            Gutlich tem uma de suas obras-primas no retrato que fez do ator Sérgio Cardoso no papel de Esopo. O que se destaca ali é o diálogo entre as cores e a forma de compor os planos, criando, muito mais que a imagem de um personagem, uma atmosfera, um estado psicológico.

Isso se acentua na série sobre figuras do sertão nordestino que fez tomando como ponto de partida o filme O cangaceiro, de Lima Barreto, de 1953. Sua visão do tema é plena de dramaticidade e os retratados aparecem não apenas em sua dimensão humana, mas com um tom até certo ponto mítico e medieval, como heróis de uma saga de luta e sofrimento, onde a morte é uma companheira constante.

Os camponeses pintados por Gutlich seguem esse mesmo raciocínio pictórico e filosófico. Provêm da vida real, portam uma carga de intensa humanidade que os coloca em contato direto com o observador. A saga deles se torna a nossa, e  a imagem carrega perguntas existenciais sobre o próprio sentido e significado da vida.

             Em 1969, com a chegada do homem à lua, fato que marcou uma geração, Gutlich, segundo seu filho, George, gravurista, repensou a própria vida e a pintura. As figuras deram lugar então a abstrações, que continuam a ser sentimentos de estar no mundo, que agora sem a âncora e apoio de seres reconhecíveis.

            O artista holandês, falecido no Brasil, em 2000, mergulha no espaço e o conquista principalmente pelo sábio uso da cor branca e pelo estabelecimento de uma linguagem em que tons de verde e de amarelo se fazem presentes nas composições, bastante movimentadas plasticamente no sentido de serem um resultado visual apenas possível para quem tinha um intenso conhecimento de pintura a óleo.

            Johann Gutlich tem uma história humana ímpar de imigrante holandês mergulhado nos trópicos que se dedicou à sua arte com total intensidade e profissionalismo. Acima de tudo, porém, deixou obras, tanto em seu expressionismo figurativo como abstrato, que o colocam num local diferenciado na cultura brasileira que precisa ser resgatado e reavaliado, como artista sabedor de que o ofício de pintar não é diletantismo, mas um universo onde a prática constante leva ao aperfeiçoamento.

O filho de Johann, George Rembrandt Gutlich, além de manter um ateliê em São José dos Campos, desenvolveu dissertação de mestrado, publicada em 2005 na forma de livro pela Annablume e Fapesp, sob o título Arcádia Nassoviana: natureza e imaginário no Brasil Holandês.

            George desenvolve uma reflexão  sobre a dimensão simbólica dos elementos naturais e gravuras realizadas por artistas da comitiva de Maurício de Nassau no Brasil. Trata-se de elaboração baseada nas convenções do discurso pictórico do século XVII, na Holanda. As obras são analisadas tendo em vista o repertório holandês da época, sendo de grande interesse para a História da Arte e da Cultura.

 

            George Gutlich

            A arte da gravura encontra em George Rembrandt Gutlich um representante visceral, daqueles que dedicam a sua vida não tanto ao desenvolvimento de um tema específico, mas sim ao aprimorar um pensamento e discutir questões técnicas tanto no ofício da feitura como no da impressão.

            Seu ateliê em São José dos Campos, SP, funciona como centro de discussão de propostas estéticas e também de experimentação de formas de expressividade, em que alunos e professor debatem e trocam processos que podem levar a uma melhor realização de  projetos individuais.

            Do conjunto da obra de Gutlich, que também faz incursões pela pintura, há dois universos que se interligam em diversos aspectos, embora aparentemente afastados. O que eles têm em comum é justamente o princípio de que o amadurecimento plástico é uma constante e os melhores trabalhos não são os feitos, mas aqueles que estão por vir, num autêntico e sincero caminhar.   

            Um universo do artista, nascido em São José dos Campos em 1968 e filho do pintor holandês Johann Gutlich, que veio para o Brasil no começo da década de 1950, é o que se alimenta de paisagens. São cenas urbanas, preferencialmente de galpões e ambientes semi-abandonados em que o foco é a arquitetura como um diálogo visual com o espaço.

            A ausência do elemento humano surge como fato significativo na poética do artista. O que se tem é a exploração dos claros e escuros de modo a configurar um universo em que as áreas em branco ganham uma dimensão próxima ao metafísico que a discussão que se instaura é a da inserção das construções humanas no espaço e o seu abandono.

            Quando se trata de lançar os olhos sobre o universo rural, é o banhado, região de São José conhecida pelas suas zonas encharcadas e a constante bruma matinal. Esta última ganha, na forma de expressão da gravura, várias conotações e visualizações, tanto no que diz respeito à questão ecológica quanto à oportunidade de exercitar-se tecnicamente, juntando o pensar bem ao saber fazer.

            Um outro segmento de trabalhos, distinto no assunto, mas muito próximo em relação ao olhar lançado sobre referenciais concretos, é o que se volta aos brinquedos antigos, colocados nas mais diferentes composições, num exercício que se realiza na temperatura plástica de naturezas-mortas européias, mas com uma acurada pesquisa que passa pela discussão dos materiais e processos.  

            Com uma ampla cultura de referências visuais e de leitura, George Gutlich absorve idéias tanto do mundo greco-romano como do italiano. Isso pode ser comprovado na reflexão que interliga a Torre de Babel, de Pieter Bruegel, à paisagem ao fundo da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Assim, cada nova pesquisa mantém das antigas as leituras e vivências como aluno, professor e autor, por exemplo, de Arcádia Nassoviana: natureza e imaginário no Brasil holandês.

            É no universo das suas cartografias artisticamente transformadas que Gutlich perfaz sua caminhada pelas artes visuais. Como um de seus ícones preferidos da série das imagens inspiradas na infância, o ventilador, ele dissemina sua erudição, sensibilidade, poder expressivo, capacidade criadora e olhar treinado de impressor, em seu próprio trabalho e no de seus alunos, tornando-se um dos principais gravuristas, em talento e influência, de sua geração.   

 

            SUGESTÃO 13

            Editar livro sobre a vida  e obra de Johann Gutlich, em edição bilíngüe, enfatizando o seu papel como pintor, educador e formador de diversos artistas na região do Vale do Paraíba. Também é recomendável a publicação da dissertação de mestrado de George Gutlich sobre gravuras realizadas por artistas da comitiva de Maurício de Nassau no Brasil.

 

 

            LITERATURA E CINEMA

            Em menos de dez anos a Holanda levou dois Oscars de melhor filme estrangeiro, com A Excêntrica Família de Antonia, em 1996, e Caráter, em 1998. Pátria, nos anos 1950/1960, de uma ilustre escola de documentaristas (Joris Ivens, Bert Haanstra), o país volta ao circuito internacional, na década de 1970, com Paul Verhoeven (Louca paixão). Depois que ele vai para os EUA, o prestígio do cinema holandês no exterior fica a cargo do neo-realismo de Alex Van Warmerdam (Os do Norte) e do surrealismo de Joe Stelling (O ilusionista, de 1984).

            O Festival do Cinema Holandês, no mês de setembro, faz parte da agenda anual  de Utrecht, uma cidade histórica ao Sudeste de Amsterdã, mas que durante dez dias se converte na capital do cinema holandês. O objetivo principal é promover as produções cinematográficas da Holanda que no passado já rendeu pesos pesados nas telas de Hollywood como Rutger Hauer e Jeroen Krabbé.

Merece lembrança ainda o 31º Festival de Cinema de Roterdã, na Holanda. É o primeiro no calendário internacional de festivais realmente dedicado ao cinema independente, à ousadia e à diversidade. Sua vocação é estimular o cinema e co-produzir filmes em diversos países por intermédio da Fundação Hubert Bals, nome do fundador do festival e que o dirigiu até morrer em 1988. Foi através de Roterdã, por exemplo, que o cineasta brasileiro Carlos Reichenbach se tornou conhecido na Europa, onde vários de seus filmes chegaram às salas de cinema.

 

SUGESTÃO 14

Verificar a possibilidade de edição, na Holanda e no Brasil de uma biografia e seleção de roteiros de cinema de Carlos Reichenbach, cineasta brasileiro bastante conhecido na Holanda. O lançamento poderia ser associado com uma mostra de filmes do artista.

 

            CINEMA E OFICINA LITERÁRIA

O Museu de Arte Moderna Aluísio Magalhães (Mamam), em Recife, promoveu uma atividade que pode ser repetida em outros locais da cidade, municípios e Estados brasileiros. Houve a exibição do filme Maurits Script, de Wendelien Van Oldenborgh, que apresenta textos escritos por Nassau no período da invasão dos holandeses, e uma discussão contemporânea sobre seu legado.

Os trechos são lidos por pessoas de várias nacionalidades como se fosse o roteiro de uma peça de teatro. Há informações sobre as impressões do conde holandês sobre a escravidão, o relacionamento dos portugueses com os indígenas, os aspectos físicos da terra e da cidade e a economia voltada para o cultivo da cana-de-açúcar. Ao final, os participantes da leitura trocam impressões sobre tópicos como imigração, racismo e esquecimento histórico de fatos importantes.

Após a exibição do filme, ocorreu um debate sobre as questões abordadas por Nassau, com a participação de especialistas e também da platéia. A discussão foi, na ocasião, acompanhada por Wendelien, que filmou as reações da platéia numa tentativa de coletar as impressões de holandeses, brasileiros, africanos e de todas as etnias envolvidas nesse intercâmbio cultural entre Brasil e Holanda. (Informações: www.mamam.art.br)

 

SUGESTÃO 15

Exibir o filme Maurits Script, de Wendelien Van Oldenborgh, que apresenta textos escritos por Nassau no período da invasão dos holandeses, e promover, no Brasil e na Holanda, uma discussão contemporânea sobre seu legado, assim como oficinas literárias sobre o tema.

 

            CONVÊNIO

            Existe um Protocolo de Cooperação Acadêmica da PUC-RS com a Universidade de Utrecht, Holanda, firmado, em outubro de 2003, para o desenvolvimento de atividades científicas relevantes e de interesse mútuo nos domínios da Língua, Literatura e Cultura Brasileira na Holanda e no Brasil. Pertence a esse acordo a participação na produção da revista eletrônica "P", mantida pela Universidade e dirigida pelo docente Paulo de Medeiros. Informações: http://www3.pucrs.br/portal/page/portal/pucrs/Capa/AdministracaoSuperior/aaii

 

SUGESTÃO  16

Verificar a possibilidade de intensificar e ampliar o Protocolo de Cooperação Acadêmica da PUC-RS com a Universidade de Utrecht, Holanda.

 

SÍNTESE DAS SUGESTÕES

 

            1 – Fomentar o ensino de língua holandesa no Brasil. Isso pde ser feito, por exemplo, por intermédio de Michel Armand Koopmans.

            2 – Elaborar um projeto de tradução da literatura dos viajantes portugueses que vieram ao Brasil  com Maurício de Nassau. A fonte primordial está na seção denominada Bibliotheca Duncaniana da Real Biblioteca da Haia.

            3 – Verificar a possibilidade de editar alguns textos importantes, preferencialmente voltados para os jovens, e distribuí-los gratuitamente pelas bibliotecas públicas.

            4 – Elaborar uma estratégia que não leve em conta apenas a produção do livro, mas, principalmente, a sua distribuição. A decisão mais sábia parece ser trabalhar com material de baixo custo e ampla tiragem.

            5 – Ter sempre em mente a interdisciplinaridade, ou seja, a relação entre diferentes áreas do conhecimento. Livros podem falar de artes visuais, cinema ou teatro sem perder a sua característica  literária.

6 – Conseguir a participação de escritores, roteiristas ou cineastas na Flip – Festa Literária de Paraty.

            7 – Propor uma coleção com a tríade Harry Muslich, Cees Nooteboom e Hugo Claus, mais o poeta Arjen Duinker. Analogamente, autores brasileiros teriam livros publicados na Holanda.

            8 – Selecionar, com professores de literatura holandesa, uma lista de cinco autores contemporâneos que poderiam participar de um projeto de residência no Brasile vice-versa.

            9 – Verificar a possibilidade de publicação, na Holanda, dos autores e textos citados neste mapeamento.

10 – Promover uma Copa de Literatura na qual especialistas que dominem holandês e português poderiam atuar dos dois lados do Oceano, com brasileiros avaliando textos holandeses e vice-versa.

11 – Alguns colunistas do site www.brasileirosnaHolanda podem auxiliar no desenvolvimento de atividades que podem vir a aumentar o diálogo entre Brasil e Holanda.

            12 – Unir blogueiros brasileiros que moram na Holanda e vice-versa, estimulando-os a escrever textos sobre a experiência da imigração.

            13 – Editar livro sobre a vida  e obra de Johann Gutlich, pintor holandês radicado no Brasil e a dissertação de mestrado de George Gutlich, seu filho, sobre gravuras realizadas por artistas da comitiva de Maurício de Nassau no Brasil.

14 – Verificar a possibilidade de edição de livro sobre o cineasta Carlos Reichenbach, bastante conhecido na Holanda.

15 – Exibir, na Holanda e no Brasil, o filme Maurits Script, de Wendelien Van Oldenborgh, e promover oficinas literárias sobre o legado de Mauricio de Nassau.

 16 – Intensificar e ampliar as possibilidades do Protocolo de Cooperação Acadêmica da PUC-RS com a Universidade de Utrecht, Holanda no sentido de desenvolver atividades na área de Língua, Literatura e Cultura Brasileira na Holanda e no Brasil.

 

            O AUTOR

Oscar D’Ambrosio, jornalista (ECA-USP), mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de São Paulo, é crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil). Bacharel em Letras (Português e Inglês), é coordenador de imprensa da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp e publicou, entre outros, Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus e O Van Gogh feliz: vida e obra do pintor Ranhinho de Assis (ambos pela Editora Unesp) e Mito e símbolos em Macunaíma (Editora Selinunte).

 

 

 

 



 

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