José
Carlos BOI Cezar Ferreira
Salutar silêncio
Há pintores que trabalham no reino
do assunto – e desenvolvem um até a exaustão de sua capacidade.
Outros focam a expressão em si mesma, não interessando muito o que se
faz, mas sim a maneira como isso é feito, principalmente pelo amplo uso
de recursos técnicos.
José Carlos
BOI Cezar Ferreira consegue transitar por esses dois campos de maneira
muito peculiar. Por um lado, na exposição realizada na Fundação
Stickel, de 8 de abril a 6 de maio de 2006, em São Paulo, SP, apresenta
poéticas construções em azul e vermelho, sempre construídas com
linhas retas, que podem ser interpretadas como visões do universo
metropolitano urbano, embora me satisfaçam mais se entendidas como jogo
plástico, em que o tema é o menos importante.
Por outro,
se deixarmos de lado a cidade como assunto, é possível ver na obra de
BOI a preocupação com as possibilidades expressivas e construtivas da
cor enquanto material plástico que pode ser desenvolvido de infinitas
maneiras, sempre dentro de uma linguagem em que é possível olhar cada
quadro como uma forma muito própria de se indagar sobre as cores e
formas no universo da arte visual.
Paralelamente
à exposição – ou na tentativa de dialogar com ela – temos o
desenvolvimento de uma proposta lúdica e reflexiva sobre os verbos
aludir, deludir, eludir e iludir. A riqueza lingüística é apresentada
num pequeno disco de cartão em que, por meio de duas janelas, existe o
diálogo entre os quatro verbos e recortes de imagens do artista.
O pensamento
contido nessa idéia, assim como no diálogo – interessante, mas
verborrágico – do artista com o curador distribuído aos visitantes,
está pleno de busca de um saber filosófico sobre o próprio sentido da
arte, mas, me parece, desfoca a atenção da produção artística
propriamente dita.
Corre-se o
risco de que alguns tentem “explicar” a exposição pela manifestação
visual dos quatro verbos propostos e, assim, a idéia de jogo
(“ludo”) se perde perante a imposição, quase sem perceber, de uma
norma: a de que o portal de entrada para a pintura de BOI é o disco de
cartão.
Tal
pensamento reduz as possibilidades de interpretação da obra do
artista. A proposta do jogo e o texto distribuído, em muitos casos,
fecham e não abrem portas, como era a intenção inicial. As pinturas
deixadas em silêncio, em sua própria manifestação plástica, talvez
falassem muito mais.
No diálogo
entre o assunto e a expressão, divisão meramente didática do estudo
da arte, a pintura de BOI realiza uma ponte salutar e de grande força
visual. Uma certo excesso vocabular escolhido na concepção desta
exposição, porém, pode, talvez, prejudicar o impacto da obra
propriamente dita, impedindo que os
grandes silêncios que ela pode gerar se realizem completamente.
Com suas
cores, suas formas e sua visão de mundo, BOI não precisa de grandes
textos de parede, catálogos com amplas divagações ou alusões lingüísticas.
Seu trabalho plástico mostra, em si mesmo, a realização de um impacto
naquele que observa. Ele se comunica pelo intrínseco poder da sua
pintura. O resto pode ser salutar silêncio.
Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes
pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp/São
Paulo/Brasil), integra a Associação Internacional de Críticos de
Artes (Aica - Seção Brasil).