por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Bodas de Artista

 

            Uma boda é a celebração de um casamento. Trata-se de uma festa e uma ocasião dessas ganha matizes especiais quando os envolvidos são dois artistas plásticos. Assim, Rodrigo Nucci e Jaine Ribeiro Nucci decidiram transformar as suas bodas numa oportunidade de mostrar um trabalho realizado a quatro mãos, com uma só assinatura, que será utilizada especificamente para obras em parceria, e de refletir sobre o próprio casamento no século XXI.

            O cruzamento da temática das bodas com a arte já originou importantes trabalhos estéticos. Basta lembrar, por exemplo, As bodas de Fígaro, comédia em cinco atos em prosa do francês Beaumarchais. Escrita em 1784, mostra os esforços do conde Almaviva para impedir Fígaro de desposar Susana, a quem deseja seduzir.

Graças à cumplicidade da duquesa e apesar das ações de Querubim, Fígaro leva vantagem sobre o conde, numa narrativa que originou, em 1786, com libreto de Da Ponte, a ópera bufa em quatro atos homônima de Mozart. No entanto, o assunto não só inspirou situações em que o riso predomina.

            As bodas de sangue, do escritor espanhol Federico García Lorca, de 1933, constituem um dos textos trágicos mais eloqüentes. O cenário é o meio rural, repleto de superstições e costumes arcaicos, onde o destino está indissociavelmente ligado à morte, sendo tratado com grande beleza lírica.

            Nas artes plásticas, talvez  a tela que melhor cristalize o tema seja o Casamento dos Arnolfini, de Jan Van Eyck, que manteve intensa produção entre 1422 e 1441. O trabalho, de 1434, mostra a união entre Giovanni Arnolfini, um banqueiro italiano que se estabeleceu em Bruges, por volta de 1421, com a compatriota Giovanna Cenami, ambos com rica indumentária.

            Célebre por mostrar dois expoentes da alta sociedade local, o trabalho pode ser até um documento de casamento, como veremos, mas, acima de tudo, constitui uma alegoria das obrigações do casamento no século XV. Com sua habitual maestria técnica, Van Eyck traz numerosos símbolos que auxiliam a compreender melhor a concepção cristã do casamento naquele momento histórico.

            A presença de apenas uma vela acesa no candelabro, por exemplo, representa, como é comum nas pinturas do período, o olho de Deus que “tudo vê”. Mas há ainda outras alusões: o cristal (a pureza), a laranja na janela (o abandono do pecado), os sapatos largados (purificação do mundo exterior e busca de fertilidade pelo contato com o solo), o cão (amor terreno) e duas testemunhas no espelho, sendo uma delas o próprio pintor, indicando que se trata provavelmente de um documento para atestar o casamento, já que a Igreja exigia que duas pessoas estivessem na cerimônia.

            Há mais indicativos de um complexo simbolismo: a cor do vestido de Giovanna, vede, aponta para fertilidade; a cama, para a busca de herdeiros; o tapete extremamente trabalhado, poder econômico; o estômago proeminente da noiva, fertilidade, o vermelho da cama, paixão.

            A representação de um dragão, atributo das santas Margarida e Marta, alerta para os deveres da mulher ao se casar, pois a primeira divindade é vinculada aos nascimentos, enquanto a segunda, aos serviços da dona de casa, principalmente a limpeza do lar. As duas deixam claro o que aquela sociedade esperava de uma mulher no casamento.

            A simbologia mais evidente, significativamente no centro do quadro, é a das mãos dadas do casal. No universo cristão, essa união das pessoas numa só mostra o que uma boda representava no plano teológico cristão. No sentido das pessoas passarem a ser uma única e de se unirem à Cristo, cujas estações de sofrimento estão em volta do espelho, e à própria Igreja.

            A união mostrada no célebre quadro, infelizmente, não foi coroada pela felicidade. O casal não teve filhos e, já idoso, Arnolfini foi levado aos tribunais por uma amante, que que queria indenização por maus tratos. Independentemente desse detalhe, o quadro de Van Eyck é uma autêntica aula sobre o tema.

            Guardadas as devidas proporções, Bodas de Artista vai procurar reproduzir esse clima de reflexão sobre o que significa o casamento. O artista fez a sua reflexão para o século XV e Rodrigo e Jaine fazem o mesmo no século XXI, em outro contexto e com outras possibilidades.

            Ao serem recepcionadas na abertura da exposição, as pessoas recebem um convite para o casamento religioso dos artistas, que ocorrerá no último dia da mostra dos trabalhos. Entre o primeiro dia e o fechamento, serão realizados três bate-papos, coordenados, respectivamente, por um historiador, um sociólogo e um psicólogo, que irão conversar com o público sobre os caminhos e descaminhos do casamento desde as suas origens até hoje.

            Cabe lembrar que o casamento, desde os seus primórdios, é uma união socialmente aprovada, com a finalidade expressa de coabitação e criação de filhos. Ela admitia, tradicionalmente, duas modalidades: um homem e uma mulher (monogamia) ou a poligamia, que permite o casamento simultâneo com mais de um cônjuge. Esta última permite duas possibilidades: um homem e várias mulheres (poliginia, admitida no islamismo e no hinduísmo) e uma mulher e vários homens (poliandria, presente em algumas sociedades tribais).

            Nos últimos anos, o casamento entre homossexuais, masculinos e femininos, inicialmente um mito, ganhou espaço em diversas sociedades contemporâneas principalmente na Europa, dando ao tema que Rodrigo e Jaine põem em discussão novas e inesperadas visões até há algumas décadas.

E, antes mesmo dos casamentos homossexuais, embora a maior parte das uniões objetivasse, pelo menos no discurso, ligações para toda a vida, discussões sobre a legitimidade do divórcio perante os homens e perante Deus foram bastante acaloradas e ganharam espaço no universo jurídico e na mídia.

            Certamente uma das raízes desses debates é que a discussão do casamento não se exaure certamente na questão biológica Ele é, desde a sua origem, um contrato econômico e social, envolvendo, inclusive, o direito de propriedade. Em algumas sociedades, está ligado, por exemplo, ao dote.

            Seja em propriedades, bens ou dinheiro, o dote era levado pela mulher ao marido os para a família deste ao se casar. Em algumas sociedades tribais, era a família do homem que fornecia o dote. De qualquer modo, é na época das monarquias absolutas da Europa. que se registram dotes imensos.

            Um exemplo ocorreu em 1532, quando toda a região feudal da Bretanha passou para a França por ser o dote da filha de Ana de Bretanha. Carlos II, da Inglaterra, por sua vez, levou como dote, ao se unir a Catarina de Bragança, a maior parte do império colonial português na Índia.

            Se traz geralmente algumas vantagens econômicas para os  envolvidos, o casamento também comporta algumas restrições, que variam entre culturas. A mais comum, de ordem religiosa, é a proibição da união quando existe consangüinidade muito próxima entre os pretendentes, fato que pode gerar, como empiricamente se percebeu, descendentes com algum tipo de necessidade especial.

            O vínculo entre casamento e a sociedade em que ele se insere é muito forte. Na Grécia, ele buscava gerar cidadãos legítimos cuja origem fosse acima de qualquer suspeita. Por isso, raramente era permitido, principalmente na época clássica, o casamento de um cidadão com uma estrangeira. Havia a entrega oficial de um dote, devolvido ao pai da noiva se ela não tivesse filhos, voltasse viúva à casa do pai ou se ocorresse divórcio.

            Em Roma, existia a diferença entre o casamento por confareatio, solene e reservado aos patrícios, o casamento plebeu por coemptio, uma compra fictícia da mulher, e o usus, a homologação do concubinato por um ano. Havia ainda o sine manu, quase único no período imperial. Neste, não havia cerimônia religiosa, renúncia por parte da mulher à sua autonomia jurídica e à sua antiga família, além de possibilidade de rompimento pelo divórcio.

            O casamento muda ainda entre as religiões, oferecendo importantes diferenças. Entre os judeus, por exemplo, os dois futuros conjugues devem ser filhos de pais judeus casados religiosamente, lembrando que só é considerado assim aquele que possui mãe judia, por nascimento ou por conversão.

            Na teologia católica, o cristianismo adotou formas de casamento já existentes pela tradição, mas atribuiu-lhe um novo valor religioso, vendo-o como um símbolo da união dos homens com Cristo e com a igreja. Surgem ainda novas exigências, como fidelidade total, monogamia e proibição do divórcio. Essas normas já estavam em vigor mesmo antes de ele ser considerado canonicamente um sacramento, o que ocorreu em 1184, no Concílio de Verona.

            Para a Igreja, o mútuo consentimento dos noivos é o mais importante no casamento. Após o concilio de Trento, em 1563, a presença de um padre qualificado tornou-se indispensável para a validade do ato, mas ele funciona apenas como uma testemunha, pois os esposos é que são os verdadeiros ministros da união.

            Já na teologia protestante, a cerimônia religiosa, facultativa, nada acrescenta ao casamento civil, considerado suficiente em si mesmo. Os cristãos, podem pedir que, depois do contrato matrimonial, Deus e a comunidade cristã sejam testemunhas de sua união. As igrejas protestantes, por sua vez, aceitam o casamento de divorciados.

            Na teologia orotodoxa, a celebração do casamento, segundo o rito bizantino, data dos séculos X e XI,  e se compõe de duas cerimônias: a dos esponsais e a do casamento propriamente dito. Na prática, elas se confundem, e o padre é o ministro do sacramento. A igreja permite o divórcio e o novo casamento da parte não culpada numa eventual separação.

            No Direito muçulmano, o casamento é um contrato cujas cláusulas são definidas pelo Corão e pela tradição do profeta (hadith). O homem, ao contrário da mulher, tem a obrigação de se casar quando não existem impedimentos. Ele também não pode ter mais de quatro  mulheres simultaneamente. O muçulmano pode ainda se casar com uma judia ou cristã, mas os filhos devem ser muçulmanos, enquanto a mulher não pode se unir a pessoas de outras religiões. O casamento de um muçulmano com um politeísta ou atéia também é proibido.

            Perante essas e muitas outras informações, plasticamente, Rodrigo e Jaine apresentarão, como principal obra da exposição, um tríptico em óleo sobre linho. Na parte central, uma imagem de Jesus descendo da Cruz e abençoando os noivos. Nas laterais, haverá representações dos pais do noivo e da noiva com a idade que tinham no casamento deles.

            Além disso, serão mostrados trabalhos em variadas técnicas, tanto sobre tela como em madeira, com o intuito de refletir sobre as amplas nuances do casamento, seja entre hetero ou homossexuais, possibilidades que serão motivos de debates durante os bate-papos que ocorrerão durante o evento.        

            Haverá ainda um espaço, chamado Lista de Casamento, onde os freqüentadores da exposição poderão, desde a abertura da exposição, adquirir trabalhos de 30x30 cm em têmpera sobre linho. São obras figurativas, cada qual única, que representam os objetos que normalmente as pessoas dão de presente a um casal de noivos.

            Com essas ações, seja pela discussão dos temas propostos, seja pela qualidade dos trabalhos apresentados, tanto na mostra principal como no espaço Lista de Casamento, Bodas de Artista é um projeto que convida a pensar o sentido do casamento ao longo do tempo e, especificamente, no século XXI.

            O grande segredo, parece, é conceber o casamento, na modernidade, como um andar junto, mas sem que a individualidade de cada integrante do par seja perdida. Isso significa respeito mútuo em diversas áreas, como trabalho, religião e comportamento. Somente assim, o par poderá caminhar lado a lado, olhando com sinceridade nos olhos do outro em busca de uma direção comum.

            Rodrigo e Jaine, com sua capacidade artística e sua vontade de pensar como o tema se deu no passado, se desenvolve hoje e que caminhos o levam para o futuro, apontam para a realização de um evento em que a arte, a história, a sociologia e a psicologia caminham de mãos dadas, unidas, para entender o casamento, um dos atos mais praticados e talvez menos compreendidos em profundidade pelo ser humano.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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