por Oscar D'Ambrosio


 

 


Boccara

 

            O domínio dos materiais

 

            A pesquisa de diferentes materiais é um dos principais méritos de um artista plástico. Explorar o potencial de cada um deles e dar-lhes novos usos e conotações constitui um dos caminhos da arte moderna e contemporânea. O artista, além de criador, surge como um pesquisador nato, inquieto por ver como uma matéria-prima pode ser o ponto de partida dos mais diversos resultados plásticos.

            Arquiteto de renome, com projetos reconhecidos internacionalmente, como o Dove Complex, um hotel giratório em Miami, EUA, e o Kineticon, que inclui um centro de exposição e um museu de ciência e tecnologia de vanguarda, dentro de um princípio cinético, em que o edifício se altera, em sua disposição e cores, de acordo com a posição do sol, Augusto (Mario, como é carinhosamente conhecido) Boccara possui um trabalho em que o uso dos materiais é fundamental.

            Ele toma o papel machê, ou seja, o papel dissolvido e reduzido a massa que, misturado com a espécie adequada de cola, permite as mais ricas modelagens e interferências, como pintura, uso de spray e incorporação de elementos, como placas de computador, para a construção de dois caminhos.

            Uma vertente apresenta uma releitura da figuração na arte ocidental, presente em nomes de peso como Paul Klee. Nessa linha, a produção de Boccara ainda permite distinguir a figura humana, principalmente de crianças, com o uso, dependendo do trabalho, de cores mais vivas ou de um universo regido pelos tons de ocre e de terra.

            Em paralelo, há o desenvolvimento de obras mais abstratas e expressivas, em que Kandinsky é um referencial. Busca-se, nesses casos, a criação de imagens em que os elementos se articulam com grande liberdade, proporcionando dois movimentos no observador. De longe, ele se fascina pelo impacto visual. De perto, pela curiosidade de tomar contato com os diversos materiais usados na confecção de cada obra.

            Nascido em Barcelona em 17 de outubro de 1934, de pai italiano, diplomata, e mãe suíça, Boccaro estudou arquitetura na Itália e estudou artes plásticas, principalmente escultura, na Argentina. Viveu, de 1945 a 1954, no Brasil, onde se fixou em 1959. Desenvolve uma carreira de mais de 1.200 projetos arquitetônicos em paises como Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Espanha, EUA e Itália. Paralelamente, a sua produção plástica atinge 3 mil trabalhos de arte.

            São números quantitativamente superlativos, mas associados, qualitativamente em torno de dois princípios essenciais: a idéia de transformação e de dinamismo. Boccara toma os materiais e os coloca em novos contextos. Faz esboços de seus trabalhos plásticos e não descansa enquanto não atinge seu propósito, consciente que ponto de partida visual, uma folha de A4,  será sempre distinto numa obra de maiores proporções.

            Boccara vê o mundo como um projeto. Sua arte não se conforma com aquilo que está ao redor. Pelo contrário, seu processo de criação é justamente o de dar a objetos conhecidos novas facetas. Isso lhe permite um ludismo demiúrgico, pois mantém a capacidade de brincar de uma criança com o poder de criação de um deus. Entre o jogo eterno e a criação divina desenvolve uma produção de intensa expressividade e impacto visual imediato.

 

Oscar D’Ambrosio mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

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papel maché e técnica mista sobre madeira 2006

Boccara

 

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