Boccara
O domínio dos
materiais
A pesquisa de
diferentes materiais é um dos principais méritos de um artista plástico.
Explorar o potencial de cada um deles e dar-lhes
novos usos e conotações constitui um dos caminhos da arte
moderna e contemporânea. O artista, além de criador, surge como um
pesquisador nato, inquieto por ver como uma matéria-prima pode ser o
ponto de partida dos mais diversos resultados plásticos.
Arquiteto
de renome, com projetos reconhecidos internacionalmente, como o Dove
Complex, um hotel giratório em Miami,
EUA, e o Kineticon, que inclui um centro
de exposição e um museu de ciência e tecnologia de vanguarda,
dentro de um princípio cinético, em que o edifício se altera, em
sua disposição e cores, de acordo com a posição do sol, Augusto
(Mario, como é carinhosamente conhecido) Boccara
possui um trabalho em que o uso dos materiais é fundamental.
Ele toma o
papel machê, ou seja, o papel dissolvido
e reduzido a massa que, misturado com a espécie
adequada de cola, permite as mais ricas modelagens e interferências,
como pintura, uso de spray e incorporação de elementos, como placas
de computador, para a construção de dois caminhos.
Uma
vertente apresenta uma releitura da figuração na arte ocidental,
presente em nomes de peso como Paul Klee.
Nessa linha, a produção de Boccara ainda
permite distinguir a figura humana, principalmente de crianças, com o
uso, dependendo do trabalho, de cores mais vivas ou de um universo
regido pelos tons de ocre e de terra.
Em
paralelo, há o desenvolvimento de obras mais abstratas e expressivas,
em que Kandinsky é um referencial.
Busca-se, nesses casos, a criação de imagens em que os elementos se
articulam com grande liberdade, proporcionando dois movimentos no
observador. De longe, ele se fascina pelo impacto visual. De perto,
pela curiosidade de tomar contato com os diversos materiais usados na
confecção de cada obra.
Nascido em
Barcelona em 17 de outubro de 1934, de pai italiano, diplomata, e mãe
suíça, Boccaro estudou arquitetura na Itália
e estudou artes plásticas, principalmente escultura, na Argentina.
Viveu, de 1945 a 1954, no Brasil, onde se fixou em 1959. Desenvolve
uma carreira de mais de 1.200 projetos arquitetônicos em paises como
Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Espanha, EUA e Itália.
Paralelamente, a sua produção plástica atinge 3 mil trabalhos de
arte.
São números
quantitativamente superlativos, mas associados, qualitativamente em
torno de dois princípios essenciais: a idéia de transformação e de
dinamismo. Boccara toma os materiais e os
coloca em novos contextos. Faz esboços de seus trabalhos plásticos e
não descansa enquanto não atinge seu propósito, consciente que
ponto de partida visual, uma folha de A4,
será sempre distinto numa obra de maiores proporções.
Boccara
vê o mundo como um projeto. Sua arte não se conforma com aquilo que
está ao redor. Pelo contrário, seu processo de criação é
justamente o de dar a objetos conhecidos novas facetas. Isso lhe
permite um ludismo demiúrgico,
pois mantém a capacidade de brincar de uma criança com o poder de
criação de um deus. Entre o jogo eterno e a criação divina
desenvolve uma produção de intensa expressividade e impacto visual
imediato.
Oscar
D’Ambrosio mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação
Internacional de Críticos de Artes (Aica
– Seção Brasil).