por Oscar D'Ambrosio


 

 
 
 

  Bia Black

            Autobiografia possível

 

            Imagine uma exposição de artes plásticas com diversos caminhos esboçados. Cada um deles indica a direção de uma pesquisa, sendo que cada vertente apresenta semelhante potencial de riqueza técnica e expressiva. Ao contemplar essas possibilidades, o observador do conjunto poderia colocar em uma urna a direção que a artista deveria prosseguir.

            Assim, nesse princípio de “Autobiografia possível”, a artista Bia Black oferece amplas veredas de criação. Percorrer cada uma delas leva a um rio comum: o da autobiografia que a artista deseja traçar de seu próprio percurso. Como afluentes do grande fluir da vida, cada vertente assinalada pode deslumbrar quem contemplar a exposição.

            Um afluente é o das cadeiras. Trata-se de um projeto de pesquisa em que essa figura plástica surge com todo vigor, trabalhada de diversas maneiras. Em suas várias conotações (espera, dança das cadeiras, design, conservadorismo, modernidade...), estabelece a chance de arquitetar novas visões de um objeto bastante conhecido e utilizado, mas pouco observado.

            O caminho dois é o do mar. Como aponta a célebre canção Timoneiro, de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, no refrão “Não sou quem me navega/Quem me navega é o mar/ É ele quem me navega/ Como nem fosse levar, as obras apresentam grande soltura e leveza de gesto, com interferência de grafismos, letras e números.

            Há ainda as meninas, próximas à linguagem cristalizada no Brasil por Milton Dacosta (1915-1988), ou seja, uma mescla de ampla felicidade entre uma concepção geométrica no ato pictórico de tratar o corpo humano e a delicadeza ao retratar um universo infantil. Trata-se de um mundo de possibilidades cromáticas, onde a exploração do ocre pode ser um elemento de importante pesquisa plástica e busca de novos caminhos estéticos.

            Uma quarta vertente está na exploração do sentido denotativo e conotativo de coração. Painéis com jogos de cor entre vermelho e verde são elementos muito fortes, assim como objetos feitos de tecido em que o coração não aparece com a forma indicada pelo romantismo, mas sim no seu formato verdadeiro, bem menos poético, talvez, mas não por isso menos expressivo. A mescla entre a pintura e os objetos pode render um diálogo dos mais ricos, com momentos de grande impacto visual e até mesmo com recursos sonoros.

            O trabalho simultâneo com as quatro possibilidades indicadas permite uma alusão aos quatro elementos da natureza. As cadeiras (ar), o mar (água), as meninas (terra) e o coração (fogo) compõem um interessante conjunto que pode ser exposto como preparação para a mencionada e desejada “Autobiografia”.

            Se os quatro caminhos estiverem na mesma exposição, simultaneamente, o público poderá, numa experiência poucas vezes antes vista, opinar diretamente sobre o caminho a ser seguido pela artista plástica Bia Black. A presença de um monitor no espaço expositivo, nesse sentido, seria fundamental para que cada observador fizesse a sua escolha e participasse das múltiplas oportunidades que a artista plástica propicia para criar a sua “Autobiografia possível”.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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óleo sobre tela
1 m x 1 m - sem data


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