por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Bestiário: o criador e a criatura

 

            As duas principais acepções do termo “bestiário” indicam a pessoa que nos circos romanos lutava com as feras e as descrições e imagens de animais reais ou imaginários da literatura medieval. De fato, as imagens da série Bestiário do artista plástico paulista Rodrigo Nucci o colocam como um lutador no universo da arte que dialoga, por meio de suas imagens, diretamente com as peças literárias conhecidas por esse nome na Idade Média, autênticos catálogos, alguns escritos por monges católicos, que reuniam  informações sobre animais, como aspecto, habitat e dieta alimentar.

            Como praticamente cem por cento das informações dos bestiários era obtida por relatos de terceiros, as lendas locais e divergências na interpretação da aparência dos animais geravam inclusive a descrição de seres místicos, como dragões, como se fossem reais.

            Os seres que Nucci cria, com diversos recursos, como o nanquim chinês a partir de uma base de bolo armênio, estão marcados pelo rigoroso cuidado técnico e amplo domínio dos materiais, enquanto os antepassados diretos do bestiários medievais dos séculos XII e XIII têm as suas raízes na tradição oral asiática, helênica e egípcia, passando por Heródoto, Aristóteles e Plínio, até chegar ao Physiologus (séc. II e III) e a Isidoro de Sevilha (séc. VI), com seu Etymologiae.

Enquanto os bestiários retratavam os animais, pássaros e peixes, desde os mais comuns e facilmente reconhecíveis, como o leão, o corvo e o golfinho, até aos imaginários e fantásticos como o unicórnio, a fênix e a sereia, o Bestiário de Nucci tem elementos mais figurativos e outros mais diáfanos.

            Os bestiários mais antigos conhecidos são os de Philippe de Thaon (1125), escrito em verso, o Tractatus de bestiis et aliis rebus, do séc. XII, já em prosa e, supostamente, obra de Hugo de San Víctor, e o De animalibus, do séc. XIII, atribuído a Alberto Magno.

Com o desenvolvimento científico, esses textos perderam o valor descritivo, passando a exercer grande influência simbólica na Literatura, como em Bestiário, livro de contos de 1951 de Julio Cortazar, além de numerosas fábulas e alegorias, e nas Artes Visuais, principalmente pinturas e esculturas, onde os bichos, muitas vezes, começam a se tornar cada vez menos reconhecíveis à primeira vista e mais importantes pela carga de inconsciente coletivo que carregam.

Analogamente, no trabalho de Nucci, a figura reconhecível cede progressivamente lugar à abstração num processo de interação entre o que se vê o que se sugere. Assim, os mais variados seres da natureza, mesmo quando tratados com aparente naturalismo, evocam uma poética íntima, de quem conhece profundamente o processo de produção artístico e dele se vale para encantar o observador. Assim, o criador/lutador realiza com esmero  sua produção de um conjunto de quadros/criaturas que compõe um Bestiário literário e visual.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio