por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Bergamaschi

 

            A alma das árvores

 

            O artista plástico paranaense Welington Trautwein Bergamaschi vem desenvolvendo, em sua série Árvores da vida, uma pesquisa em que, como costuma ocorrer em sua produção visual, a intuição ocupa um espaço fundamental. Os objetos que cria, ideais para serem mostrados em espaços públicos amplos, mostram uma ampla visão de como a arte pública está cada vez mais se tornando parte do cotidiano das pessoas.

            As árvores, feitas de polipropileno, tanto em forma solitária como em grupo, colocadas nas mais diversas posições, inclusive deitadas no chão ou na grama, possibilitam diversas leituras, dede que entendidas como símbolos da própria existência humana.

Afinal, por seus frutos, sombra e como matéria-prima, são importantes para o homem, sem contar sua função essencial para o ecossistema, pois combatem a erosão com suas raízes, além de garantir a umidade dos solos e ajudar a estabilizar o clima. Com suas árvores, Bergamaschi, radicado em São Paulo, SP, evoca todos esses significados, porém ao contrário do que ocorre nas árvores da natureza, elas, devido ao material de que são feitas, têm grande maleabilidade.

É possível abraçá-las e interagir com elas, estabelecendo múltiplas relações de proximidade e mesmo de afeto. Isso ocorre devido à alta resistência à fratura por flexão ou fadiga do polipropileno, tipo de plástico que pode ser moldado usando apenas aquecimento. Trata-se, em linhas gerais, de um termoplástico que apresenta como algumas de suas características o baixo custo – o que permite uma diversificada gama de experimentações.

            A variedade de caminhos que cada árvore criada por Bergamaschi sugere, principalmente pela maneira como o tronco se articula com os galhos, permite o diálogo com as múltiplas formas como a árvore é recriada em diversas manifestações plásticas, como pinturas rupestres e esculturas na Ásia, na África e no Oriente.

Os elos da árvore com a vida também ganham força em distintos pensadores, como Plutarco (século I), que comenta que as árvores têm fraqueza e mostram que sentem dores quando lhes quebram ou cortam os ramos; Plínio, o Velho, que, no mesmo século, dizia que “assim como no homem, na árvore há mocidade e velhice: doenças gerais e particulares”; e Santo Ambrósio (340-397), que declarou “como, na árvore, há viver e morrer, crescer e decrescer;  no homem, também”.

            A magia das árvores de Bergamaschi está no fato de como o polipropileno, geralmente utilizado na fabricação de brinquedos, copos plásticos, recipientes para alimentos, remédios, produtos químicos, carcaças para eletrodomésticos e autopeças, ganha uma dimensão orgânica ao ser moldado na forma de árvore.

            Surge, assim uma espécie de árvore cibernética que não se desapega de seu referencial no mundo real e dos conceitos de religiões ancestrais ou manifestações plásticas mais recentes de que existe a forte idéia de que espíritos habitam as árvores – e que elas até podem falar, como julgavam os celtas.

            As árvores de Bergamaschi, por sua aparência platinada, ainda mais sob os raios do sol, surgem como uma espécie de árvores cósmicas, que não só representam o próprio universo, cujos galhos aludem a estrelas, Lua, Sol e os planetas, mas geram uma numerosas interações com o ambiente.

            No campo do arquetípico, a árvore é mundo. Ela, por si só, remete à iluminação de Buda e ao período de nove dias em que Odin esteve suspenso na Árvore do Mundo para adquirir sabedoria. O próprio deus Osíris, no Egito, é representado por uma árvore e sua simbologia está vinculada às fronteiras entre a vida e a morte por possibilitar o contato do mundo subterrâneo – o que ocorre pelas raízes – com o divino, por intermédio de seus galhos, que se alçam aos céus.

            Há ainda na árvore a questão da maternidade, da vida e da guarida, aspectos que os objetos plásticos de Bergamaschi evocam, principalmente quando lembramos que a própria Bíblia é definida em Provérbios, III, 18, como “árvore da vida para aqueles que a compreendem”.

            Cada árvore é, portanto, uma manifestação no microcosmos do macrocosmos. Nesse aspecto, as várias construções plásticas de Bergamaschi, colocadas num espaço publicou ou privado, instauram um universo com leis próprias. Temos ali a vida, pelo próprio objeto árvore ter esse sentido, mas também, a morte por elas parecerem embaladas, em uma espécie de casulos.

De fato, cada árvore guarda uma potencialidade apenas amplamente desenvolvida no contato direto com cada observador. No momento em que saem do ateliê e ganham o espaço exercem o seu grande poder de sedução, seja pelo seu aspecto lúdico seja pelo poder de carregar uma simbologia primordial, que se acentua à medida que cada árvore de Bergamaschi é construída e apresentada aos mais diversos públicos.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 Árvores da Vida
Instalação no Parque Burle Marx, São Paulo, SP Polipropileno dimensões variáveis 2007

Bergamaschi

 

 

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