por Oscar D'Ambrosio


 

 


Bentocorros

 

            A impraticável perfeição

 

            Hoje é dia de Maria, de Carlos Alberto Soffredini, traz, em numerosas falas, ensinamentos que merecem leitura atenta. Em um deles, podemos ler: “...todo vivente pode andar reto, porque humano não é ruim nem bom, humano é incompleto”. Ter plena consciência disso é um passo para ver, muitas vezes, o próprio trabalho com um senso crítico menos severo e mais de acordo com o atual panorama das artes plásticas.

            Bentocorros, nome artístico de Julio Cesar de Souza, evoca dois elementos essenciais: o avô do artista e o local de origem de sua família, vinculado a uma região nordestina abundante de peixes. Esses dois elementos, o passado vivencial e o simbólico, com suas numerosas conotações e possibilidades, alimenta uma produção plástica que segue diversos caminhos e experimentações, sendo a mais significativa a que trabalha a justaposição de materiais.

            Devido a sua experiência profissional, tanto em termos de agência de publicidade como pela atuação na TV Cultura na confecção dos mais diversos tipos de cenários e adereços, Bentocorros se permite uma liberdade de uso de assuntos e materiais que, para muitos outros artistas, pode ser excessivo.

            Tal característica, em contrapartida, desenvolve um grande senso crítico em busca de uma perfeição naquilo que se realiza, já que, acostumado a lidar com clientes, o jovem artista sabe que o acabamento mais próximo possível da perfeição não é um capricho, mas uma obrigação necessária em cada nova obra.

            Nessa caminhada, ao justapor elementos e materiais diversos, Bentocorros atinge seus melhores resultados. Isso ocorre, ao que parece, pela  capacidade, desenvolvida nos últimos anos, de solucionar problemas técnicos. Proposto um desafio, a resposta vem logo pela prática profissional de responder de alguma maneira ao que parece, em certos casos, uma dificuldade talvez intransponível.

            Seja uma releitura de Picasso ou uma série de gravuras, desenhos ou esculturas, o artista realiza uma paulatina luta contra certos excessos. A exploração dos brancos do papel e dos fundos das telas, já realizado algumas vezes, parece ser um dos caminhos mais promissores no sentido de deixar cada trabalho respirar.

            O lidar com a figura do peixe é importante como uma metáfora das próprias origens. Trata-se de uma marca registrada não a ser perdida, mas certamente a ser retransformada, relida e reinventada em cada novo desafio plástico. Esse elemento não pode vir a ser uma prisão enquanto imagem, mas sim um passo essencial para a liberdade.

            O peixe, assim como qualquer outro assunto, tem o potencial de indicar um ponto de partida dos mais ricos. Explorar e esgotar, se possível, tal tema é que se torna o real ponto a ser vencido. Este último verbo significa, no contexto da arte, a verticalização de um processo mental e técnico em que o único limite está na própria capacidade do artista de não se repetir e de sempre ter algo novo a dizer, seja qual for o material.

O suporte e a técnica são recursos a enriquecer um pensamento plástico que, no caso de Bentocorros, principalmente quando começa a buscar os mais diversos elementos, pode levar a uma linguagem contemporânea expressiva pela capacidade de tornar emoções próprias, internas e intensas em resultados plásticos oriundos do conhecimento dos materiais e do desenvolvimento, um trabalho após outro, das melhores maneiras de dar vida aos mais diferentes sentimentos.

Ciente de suas imperfeições, um artista caminha mais solto pelo mundo plástico. Consciente de que é humano, no sentido mais amplo do termo, pode se dar ao luxo de mergulhar num vazio de significado de onde retira a riqueza do existir. Pleno de si mesmo, pode se esvaziar ao oferecer ao observador o que há de mais sincero em si mesmo, ou seja, a busca de origens perdidas no tempo, que podem se cristalizar em gravuras ou composições com o uso dos mais variados e surpreendentes materiais.

Bentocorros coloca, como artista que é, um sopro vital em cada novo trabalho. Ele sopra mais sincero na medida em que é a condensação de uma relação marcada pelo adensamento dos elos com o mundo e pelo ato de ver cada novo dia com um olhar interrogador, mantendo sempre desperto um fio da suspeita, ou seja, uma dúvida saudável sobre a qualidade do que realizou.

Esse processo em vez de criar um bloqueio estabelece uma dinâmica em que buscar o novo, sabendo da dificuldade que essa posição comporta, torna-se uma obrigação. Cada novo dia surge assim como uma afirmação da própria imperfeição e daquela vista no mundo.

 O único caminho então possível de Bentocorros, assim como o de artistas que respeitam seu próprio trabalho, é o de criar, andando reto, convicto de que, acima de ser bom ou ruim – se essas categorias existem –, todo trabalho é imperfeito, como alerta Soffredini, pelo simples fato de ter sido produzido pela maravilhosa e falha mente humana, felizmente magnífica em sua falibilidade principalmente nos momentos em que seres vaidosos, bem longe da mente de Bentocorros, se julgam próximos da impraticável perfeição.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA – Seção Brasil).

 

 
 

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gravura (talho doce), ponta seca e maneira negra - 2006

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