A impraticável perfeição
Hoje é dia de Maria, de
Carlos Alberto Soffredini, traz, em numerosas falas, ensinamentos
que merecem leitura atenta. Em um deles, podemos ler: “...todo
vivente pode andar reto, porque humano não é ruim nem bom, humano
é incompleto”. Ter plena consciência disso é um passo para ver,
muitas vezes, o próprio trabalho com um senso crítico menos severo
e mais de acordo com o atual panorama das artes plásticas.
Bentocorros,
nome artístico de Julio Cesar de Souza, evoca dois elementos
essenciais: o avô do artista e o local de origem de sua família,
vinculado a uma região nordestina abundante de peixes. Esses dois
elementos, o passado vivencial e o simbólico, com suas numerosas
conotações e possibilidades, alimenta uma produção plástica que
segue diversos caminhos e experimentações, sendo a mais
significativa a que trabalha a justaposição de materiais.
Devido a
sua experiência profissional, tanto em termos de agência de
publicidade como pela atuação na TV Cultura na confecção dos
mais diversos tipos de cenários e adereços, Bentocorros se permite
uma liberdade de uso de assuntos e materiais que, para muitos outros
artistas, pode ser excessivo.
Tal
característica, em contrapartida, desenvolve um grande senso crítico
em busca de uma perfeição naquilo que se realiza, já que,
acostumado a lidar com clientes, o jovem artista sabe que o
acabamento mais próximo possível da perfeição não é um
capricho, mas uma obrigação necessária em cada nova obra.
Nessa
caminhada, ao justapor elementos e materiais diversos, Bentocorros
atinge seus melhores resultados. Isso ocorre, ao que parece, pela
capacidade, desenvolvida nos últimos anos, de solucionar
problemas técnicos. Proposto um desafio, a resposta vem logo pela
prática profissional de responder de alguma maneira ao que parece,
em certos casos, uma dificuldade talvez intransponível.
Seja uma
releitura de Picasso ou uma série de gravuras, desenhos ou
esculturas, o artista realiza uma paulatina luta contra certos
excessos. A exploração dos brancos do papel e dos fundos das
telas, já realizado algumas vezes, parece ser um dos caminhos mais
promissores no sentido de deixar cada trabalho respirar.
O lidar
com a figura do peixe é importante como uma metáfora das próprias
origens. Trata-se de uma marca registrada não a ser perdida, mas
certamente a ser retransformada, relida e reinventada em cada novo
desafio plástico. Esse elemento não pode vir a ser uma prisão
enquanto imagem, mas sim um passo essencial para a liberdade.
O peixe,
assim como qualquer outro assunto, tem o potencial de indicar um
ponto de partida dos mais ricos. Explorar e esgotar, se possível,
tal tema é que se torna o real ponto a ser vencido. Este último
verbo significa, no contexto da arte, a verticalização de um
processo mental e técnico em que o único limite está na própria
capacidade do artista de não se repetir e de sempre ter algo novo a
dizer, seja qual for o material.
O
suporte e a técnica são recursos a enriquecer um pensamento plástico
que, no caso de Bentocorros, principalmente quando começa a buscar
os mais diversos elementos, pode levar a uma linguagem contemporânea
expressiva pela capacidade de tornar emoções próprias, internas e
intensas em resultados plásticos oriundos do conhecimento dos
materiais e do desenvolvimento, um trabalho após outro, das
melhores maneiras de dar vida aos mais diferentes sentimentos.
Ciente
de suas imperfeições, um artista caminha mais solto pelo mundo plástico.
Consciente de que é humano, no sentido mais amplo do termo, pode se
dar ao luxo de mergulhar num vazio de significado de onde retira a
riqueza do existir. Pleno de si mesmo, pode se esvaziar ao oferecer
ao observador o que há de mais sincero em si mesmo, ou seja, a
busca de origens perdidas no tempo, que podem se cristalizar em
gravuras ou composições com o uso dos mais variados e
surpreendentes materiais.
Bentocorros
coloca, como artista que é, um sopro vital em cada novo trabalho.
Ele sopra mais sincero na medida em que é a condensação de uma
relação marcada pelo adensamento dos elos com o mundo e pelo ato
de ver cada novo dia com um olhar interrogador, mantendo sempre
desperto um fio da suspeita, ou seja, uma dúvida saudável sobre a
qualidade do que realizou.
Esse
processo em vez de criar um bloqueio estabelece uma dinâmica em que
buscar o novo, sabendo da dificuldade que essa posição comporta,
torna-se uma obrigação. Cada novo dia surge assim como uma afirmação
da própria imperfeição e daquela vista no mundo.
O
único caminho então possível de Bentocorros, assim como o de
artistas que respeitam seu próprio trabalho, é o de criar, andando
reto, convicto de que, acima de ser bom ou ruim – se essas
categorias existem –, todo trabalho é imperfeito, como alerta
Soffredini, pelo simples fato de ter sido produzido pela maravilhosa
e falha mente humana, felizmente magnífica em sua falibilidade
principalmente nos momentos em que seres vaidosos, bem longe da
mente de Bentocorros, se julgam próximos da impraticável perfeição.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto
de Artes da Unesp e integra a Associação Internacional de Críticos
de Artes (AICA – Seção Brasil).