Bené
Fonteles
A poética do
tamborete
A frase “O artista
é um erro da natureza”, do poeta Manoel de Barros, aponta
para o cerne da poética de Bené Fonteles. Sua obra não é de
assimilação fácil, justamente por trabalhar com aquilo que há
de mais simples e menos valorizado em boa parte da produção plástica:
a sinceridade.
Sua
pesquisa contínua não segue modismos ou imposições de
mercado ou de galerias, mas uma necessidade interior. Isso o
leva aos mais diversificados projetos, como o livro de
fotografias Ausência e presença em Gameleira do Assuruá,
do qual algumas imagens ficaram em exposição no SESC Pompéia,
em São Paulo, SP, nos meses de junho e julho de 2004.
Com apenas 500
habitantes, a localidade, na Bahia, próxima ao Rio São
Francisco, é desvendada em fotos que seguem uma linha poética
dada pela presença de um tamborete. Esse banco baixo e pequeno
sem braços nem espaldar conduz uma narrativa plena da profunda
simplicidade que caracteriza boa parte do Brasil e que não
ganha espaço na cultura nacional.
A
magnitude do trabalho de Fonteles pode ser medida justamente
pela aparente pouca importância do objeto que escolheu como
referência. Utilizado para se sentar ou como pequena mesa, tem
a sua força numa base bem sólida, que o mantém bem preso ao
chão, à terra, à árida e culturalmente rica realidade
nordestina.
É
exatamente isso o que ocorre com as fotos de Fonteles. Ao
mostrar casas, portas, janelas, paredes feitas com técnicas
particulares da região, pessoas da comunidade, animais, situações
de trabalhos e os caminhos por onde passam os moradores locais,
desvenda uma cultura, um modo de vida, uma forma e de ser e de
pensar e, acima de tudo, de se relacionar com o mundo.
Não
é de causar surpresa que esse trabalho tenha sido desenvolvido
com sinceridade por Fonteles. Nascido no Pará, em 1953, seus
padroeiros José e Benedito, respectivamente um carpinteiro e um
homem que se iluminou para a santidade na cozinha,
já indicavam uma vida de muito trabalho, cumprindo uma
trajetória que interliga, arte, ciência e espiritualidade –
tudo isso sob a égide maior de uma consciência artística e
social marcada pela palavra solidariedade, que brilha como o sol
inteiro de cada um que dedica o seu talento para servir os
outros.
Como
artista, Fonteles alumbrou-se – termo que ele mesmo descobriu
na poesia de Manoel Bandeira – aos 12 anos, em Uruaú, CE,
onde passou a infância, quando via, graças às falhas nas
telhas da casa onde dormia, fragmentos do céu. Certamente vem
daí a sua devoção pela luminosidade, algo muito presente nas
fotografias da comunidade de Gameleira do Assuruá.
Fonteles, que começou
a carreira artística trabalhando com arte xerox e colagens, tem
um respeito infinito pelos materiais de seu trabalho, sejam eles
objetos encontrados na praia – que reuniu para integrar uma
exposição em 2004 na exposição Palavras e obras –
ou seres humanos, como é o caso dos cidadãos de Gameleira do
Assuruá.
A poética da
simplicidade do tamborete, portanto, vem de longe. Com passagens
pelos Estados de Ceará, Bahia, Mato Grosso e atualmente Brasília,
ele percebe os elos existentes entre arte e vida com uma rara
capacidade de transformar o cotidiano em manifestação
intelectual e espiritual.
Em
1986, por exemplo, promoveu um happening em homenagem aos
nordestinos no Viaduto do Chá, em São Paulo, SP, no qual
integrava elementos indígenas, trazendo esses elementos para o
primeiro plano de uma cidade que muitas vezes trata os migrantes
com preconceito, embora sejam eles protagonistas do seu
desenvolvimento.
Nessa
mesma linha , Fonteles criou, em 1987, o Movimento Artistas pela
Natureza, que participa da rede Artesolidária, cujo lema está
na frase de Modigliani “O real dever do artista é salvar o
sonho”. É justamente a capacidade de manter acesa a chama da
vida e do poder de imaginar que constitui a base filosófica e
existencial do livro do artista paraense realizado na baiana
Gameleira do Assuruá.
O
trabalho de fotografias é, na verdade, um processo de recuperação
da auto-estima da comunidade que passa, a partir do processo
cultural lá desenvolvido a valorizar a estética ao seu redor,
estimulando o diálogo entre a arte, o artesão e o artista,
instituições todas vinculadas ao ato de fazer.
As imagens do livro
apresentam, em síntese, uma majestosa poética do silêncio. São
de uma verdade crua que gera identificação com o espectador e
tem um grande poder de transformação. Para Fonteles, a
pintura, com Malevitch (1878-1935) e a escultura, com Brancusi
(1876-1957), chegaram ao seu limite experimental, mas isso, em
vez de invalidar novas experimentações, obriga todo artista a
ter humildade em seu ofício.
Realizar o projeto
em Gameleira foi o desafio que somente um verdadeiro humilde de
espírito e um xamã das artes pode enfrentar. É o tipo de
trabalho em que o ego do artista deve se reduzir para dar voz à
comunidade. Somente assim o resultado será reconhecido como autêntico
pelos seus protagonistas, pois brota do grupo envolvido, não
soando como uma imposição externa.
Daí
a importância da estética e da poética criadas com o
tamborete, elemento onipresente
na cultura local. Se Rubem Valentim, artista do qual Fonteles é
profundo conhecedor, tinha uma geometria sagrada, as imagens
obtidas pelo artista paraense num microcosmos baiano específico
reafirmam o valor de uma frase de Carlos Drummond de Andrade que
Fonteles costuma citar: “O tempo é a minha matéria”.
Ao fotografar o
tamborete em Assuruá, Fonteles faz o tempo parar. Eterniza-o
com o registro de suas imagens e mostra que os artistas quando
sinceros e verdadeiramente comprometidos com o que fazem, são
mais do que um erro da natureza. Constituem a prova viva de como
as criações da mente humana desafiam a mesmice instaurada no
mundo.
Mergulhos
na arte como o de Fonteles alertam para a necessidade de gerar
surpresas, superar barreiras, vencer preconceitos, pesquisar
linguagens e unir pessoas com um único objetivo: promover
atividades que tornem os indivíduos mais solidários, menos
solitários e mais cidadãos.
Para
isso, um objeto indígena, uma rede de pescador ou um tamborete
bastam. O essencial é que sejam entendidos e recolocados
esteticamente em nome de uma proposta bem definida. Assim,
consciência, matéria e espírito podem caminhar lado a lado,
como ocorre nas poéticas imagens obtidas em Gameleira do Assuruá,
localidade que não consta nos mapas da geografia oficial, mas
que, a partir do trabalho de Fonteles, passa a integrar o nosso
imaginário poético como a capital mundial dos tamboretes.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional
de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).