por Oscar D'Ambrosio


 

 



Györgi Szalmás Béla

O reino da cor pastel – Oscar D’Ambrosio

        Um dos segredos da arte naïf está no desafio do artista ser simples sem ser simplista ou infantil. A produção de Györgi Szalmás Béla se enquadra justamente nesse perfil. Nascido em 23 de abril de 1908, em Kassa, atual Eslováquia, ele provém de uma família humilde, de oito filhos, sustentada pelo pai, carteiro, na cidade húngara de Szerencs.

Quando completou 19 anos, Béla decidiu tentar a sorte em Budapeste, capital do país e passou a morar num dos bairros mais pobres da cidade, chamado Maria Valeria, que iria a ser um de seus temas preferidos na pintura. O começo não foi fácil na nova cidade e o jovem futuro artista passou de um emprego para outro, desenvolvendo atividades de pedreiro, açougueiro e, finalmente, decorador num ateliê de escultura.

        Bela desenhava desde a infância e sua transformação de trabalhador braçal a artista de talento reconhecido ocorreu de forma autodidata, como costuma ocorrer com os autênticos naïfs. Suas mais antigas pinturas conhecidas são dos anos 1930 e já apresentam características do estilo, pois oferecem uma interpretação pessoal de temáticas populares.

Um de seus temas preferidos são as casas pobres do mencionado bairro de Maria Valeria. No final dessa década, o pintor aproxima-se definitivamente do mundo da arte ao conseguir um emprego como pintor de cenários do Teatro Nacional. A partir daí, houve um estreitamento do artista com o mundo das cores e das formas.

Em 1942, no período noturno, Bela começou a freqüentar o curso da Escola de Desenho Industrial, aprendendo técnicas com nanquim, pastel, óleo, guache e têmpera. Essas atividades foram interrompidas ao ser chamado para servir no Exercito na II Guerra. O artista, porém, desertou no verão de 1944, conseguindo trabalho como guarda de plantações de melão.

        Com o fim da Guerra, dedicou-se cada vez mais à arte, participando, a partir de 1948, de todas as coletivas importantes de arte naïf na Hungria. A primeira coletiva ocorreu em Budapeste, seis anos depois, na Galeria Fényes Adolf. Nesse período, aproximou-se de Szkircsák, uma conhecida artista de cerâmica popular. Surgiu assim uma produtiva parceria, em que ele fez alguns desenhos e pinturas para as cerâmicas dela e passou a realizar seus próprios trabalhos nesse novo material.

        Béla se destaca no panorama da arte naïf húngara pela forma própria com que pinta as pessoas dos anos 1930 e pelo culto às cores pastel. Três anos após seu falecimento, que ocorreu em 1961, a Galeria Nacional da Hungria realizou uma exibição comemorativa com seus pinturas, desenhos e figuras em cerâmica. Quanto ao reconhecimento internacional, ocorreu após participar da I Exposição de Arte Naïf em Bratislava, Eslováquia.

        Quadros como Pastor são bem significativos da arte de Béla. A imagem do camponês é retratada em seu estilo próprio à Modigliani. A figura delgada está ladeada por uma árvore e junto às suas mãos, dois elementos fundamentais da vida do pastor: um galho, que pode, por exemplo, se transformar em fogo, e um animal semelhante a uma cabra, com úbere saliente, destacada em vermelho, imagem que alude ao animal como fonte fornecedora de carne e leite. Do lado direito, surge o fragmento de uma cabana, provavelmente a moradia do pastor.

        Desse modo, Béla realiza uma sinopse da vida do homem retratado com grande economia de elementos. O mesmo processo ocorre em Kukoricásban, em que temos um agricultor em meio a uma estilizada colheita de milho. As espigas cercam o homem, que calça botas, leva uma espécie de embornal pendurado no ombro e um cajado na mão direita. Surge assim uma figura húngara, mas de ressonância universal.

        A combinação das cores pastel com o olhar das suas personagens é o que há de melhor no trabalho de Béla. Ele esbanja simplicidade ao representar o cotidiano da vida na zona rural húngara. Os traços são contidos e precisos, evitando-se qualquer tipo de excesso, que possa poluir a imagem. A pintura merece, portanto, olhar atento, pois cada pincelada traz uma informação que não pode ser relegada. O resultado é um convite para os olhos e para a reflexão, como o que há de melhor na arte naïf mundial.

            

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).      

 
 

 

 

 

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