por Oscar D'Ambrosio


 

 



        Beatriz Abeledo de Sieff

        A grandiosidade da Patagônia

        A Patagônia Argentina é uma região de sonhos, seja pela sua natureza ou pelo sua gente, acostumada a viver sob baixas temperaturas. Com seus lagos, rios, cascatas e montanhas, é um Paraíso para os viajantes e um universo todo particular para seus moradores.

Essa natureza maravilhosa e o espírito de luta das pessoas que ali habitam, integradas ao o clima gélido, são o principal tema das telas da pintora argentina Beatriz Cecilia Abeledo de Sieff. Nascida em Buenos Aires, em 21 de julho de 1959, ela lembra que começou na pintura de forma autodidata, quando cursava arquitetura, carreira que não chegou a concluir.

Posteriormente, Beatriz realizou alguns cursos de pintura a óleo e, desde 1997, assiste a aulas no ateliê da pintora naïf Marilyn Itrat. Nesse percurso desenvolveu outras atividades artísticas, como madeira talhada, além de estudar decoração. "Considero meus quadros algo que me permite uma conexão com a minha parte mais profunda", afirma. "Também é na pintura que reconheço Deus e me encanto com cada forma que ele nos apresenta na natureza, em gestos cotidianos, nas formas de vida. Enfim, procuro me superar espiritualmente a cada dia."

Nessa busca, a Patagônia ganhou um espaço especial na vida de Beatriz. Tornou-se o local de seus sonhos, sua utopia. Isso é especialmente válido para a cidade de San Martín de Los Andes, localizada 640 m acima do nível do mar, às margens do lago Lácar. Localizada na província de Neuquen, a apenas 40 km da fronteira com o Chile, a cidade, fundada em fevereiro de 1898, foi até 1911 principalmente um assentamento militar que consolidou a soberania argentina na região.

Seus 20 mil habitantes têm no turismo sua principal atividade, seja nas caminhadas no verão, nas casas com arquitetura típica da montanha ou na Igreja San José, onde é exibida uma reprodução do Santo Sudário em tamanho natural. "Seria o lugar que escolheria para viver. Sempre que posso vou até San Martín de Los Andes. Quando não posso, sinto muita falta e direciono esse desejo para minhas pinturas", diz.

Uma tela como Gente da terra mostra justamente o encantamento da artista com o universo da Patagônia. Um caminho de terra aparece no meio da tela, onde se destaca um carro de boi conduzido por um trabalhador do campo. Os dois animais realizam o esforço de atravessar um pequeno rio, mas sua expressão é de tranqüilidade, experimentando uma perfeita harmonia com a repousante paisagem.

Do lado direito, há um pequeno bosque de vegetação variada, que mostra a riqueza da flora da região, enquanto, à direita, vislumbra-se uma planície, com poucas árvores. A estrutura do quadro, portanto, articula-se em três momentos: o núcleo da vegetação; a relação triangular entre o trabalhador e os dois bois que conduz; e a imagem da planície que se perde no horizonte.

Algo semelhante ocorre em Meu lugar. Recria-se um local de sonho. Um lago domina a imagem. À direita, um grupo de patos está próximo a uma casa de madeira, construída dentro dos princípios arquitetônicos da região, em que os padrões de moradia buscam justamente combater o frio, conservando o calor no interior do ambiente.

Ao fundo, ressalta-se a paisagem com montanhas e a vegetação local. Chamam ainda a atenção os reflexos das árvores sobre a água. O ambiente é quase irreal, pois o lugar retratado surge com grande força imagética como um universo em que não existem o mal, o sofrimento ou os problemas cotidianos.

A pintura de Beatriz também trata de alguns temas recorrentes na arte naïf, como o unicórnio. Sua tela Sonho adolescente mostra justamente esse ser mítico em todo seu esplendor, empinado em meio às estrelas e à lua. Belas hortênsias completam essa atmosfera de sonho e de vigor, de esperança e de desejo de um amanhã melhor, características próprias do universo adolescente.

A comunhão da artista com os ambientes que retrata pode ser vista em Oremos...", tela em que a lua preside uma imagem em que três personagens contemplam os enigmas da natureza e a maravilha da existência. A desproporção das pessoas em relação à imagem arquitetônica é notória e caracteriza a tela como naïf.

No conjunto, as telas de Beatriz de Sieff oferecem uma visão de mundo muito particular. As cores pastel, as cenas equilibradas, a combinação harmoniosa de formas e a busca constante de uma utopia emocional e existencial dão aos seus quadros uma delicadeza e paz de espírito que toca a alma do observador.

Cada obra de Beatriz é um mergulho numa paisagem de San Martín de Los Andes, na Patagônia. Mesmo que o local retratado seja outro, a tranqüilidade que a cidade argentina transmite aos seus moradores e visitantes é o grande motivo dos trabalhos da artista bonarense.

Seja num unicórnio, uma paisagem com neve, num trabalhador do campo integrado ao meio natural ou numa imagem de sonho andino, a artista estabelece suas regras internas de criação, regidas pela extrema sensibilidade de uma pintora em sintonia com as belezas e a fascinação da grandiosidade da Patagônia.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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