Beatriz Abeledo de Sieff
A grandiosidade da
Patagônia
A Patagônia Argentina
é uma região de sonhos, seja pela sua natureza ou pelo sua
gente, acostumada a viver sob baixas temperaturas. Com seus lagos,
rios, cascatas e montanhas, é um Paraíso para os viajantes e um
universo todo particular para seus moradores.
Essa natureza maravilhosa e o espírito
de luta das pessoas que ali habitam, integradas ao o clima gélido,
são o principal tema das telas da pintora argentina Beatriz
Cecilia Abeledo de Sieff. Nascida em Buenos Aires, em 21 de julho
de 1959, ela lembra que começou na pintura de forma autodidata,
quando cursava arquitetura, carreira que não chegou a concluir.
Posteriormente, Beatriz realizou
alguns cursos de pintura a óleo e, desde 1997, assiste a aulas no
ateliê da pintora naïf Marilyn Itrat. Nesse percurso desenvolveu
outras atividades artísticas, como madeira talhada, além de
estudar decoração. "Considero meus quadros algo que me
permite uma conexão com a minha parte mais profunda",
afirma. "Também é na pintura que reconheço Deus e me
encanto com cada forma que ele nos apresenta na natureza, em
gestos cotidianos, nas formas de vida. Enfim, procuro me superar
espiritualmente a cada dia."
Nessa busca, a Patagônia ganhou um
espaço especial na vida de Beatriz. Tornou-se o local de seus
sonhos, sua utopia. Isso é especialmente válido para a cidade de
San Martín de Los Andes, localizada 640 m acima do nível do mar,
às margens do lago Lácar. Localizada na província de Neuquen, a
apenas 40 km da fronteira com o Chile, a cidade, fundada em
fevereiro de 1898, foi até 1911 principalmente um assentamento
militar que consolidou a soberania argentina na região.
Seus 20 mil habitantes têm no turismo
sua principal atividade, seja nas caminhadas no verão, nas casas
com arquitetura típica da montanha ou na Igreja San José, onde
é exibida uma reprodução do Santo Sudário em tamanho natural.
"Seria o lugar que escolheria para viver. Sempre que posso
vou até San Martín de Los Andes. Quando não posso, sinto muita
falta e direciono esse desejo para minhas pinturas", diz.
Uma tela como Gente da terra mostra
justamente o encantamento da artista com o universo da Patagônia.
Um caminho de terra aparece no meio da tela, onde se destaca um
carro de boi conduzido por um trabalhador do campo. Os dois
animais realizam o esforço de atravessar um pequeno rio, mas sua
expressão é de tranqüilidade, experimentando uma perfeita
harmonia com a repousante paisagem.
Do lado direito, há um pequeno bosque
de vegetação variada, que mostra a riqueza da flora da região,
enquanto, à direita, vislumbra-se uma planície, com poucas árvores.
A estrutura do quadro, portanto, articula-se em três momentos: o
núcleo da vegetação; a relação triangular entre o trabalhador
e os dois bois que conduz; e a imagem da planície que se perde no
horizonte.
Algo semelhante ocorre em Meu lugar.
Recria-se um local de sonho. Um lago domina a imagem. À direita,
um grupo de patos está próximo a uma casa de madeira, construída
dentro dos princípios arquitetônicos da região, em que os padrões
de moradia buscam justamente combater o frio, conservando o calor
no interior do ambiente.
Ao fundo, ressalta-se a paisagem com
montanhas e a vegetação local. Chamam ainda a atenção os
reflexos das árvores sobre a água. O ambiente é quase irreal,
pois o lugar retratado surge com grande força imagética como um
universo em que não existem o mal, o sofrimento ou os problemas
cotidianos.
A pintura de Beatriz também trata de
alguns temas recorrentes na arte naïf, como o unicórnio. Sua
tela Sonho adolescente mostra justamente esse ser mítico em todo
seu esplendor, empinado em meio às estrelas e à lua. Belas hortênsias
completam essa atmosfera de sonho e de vigor, de esperança e de
desejo de um amanhã melhor, características próprias do
universo adolescente.
A comunhão da artista com os
ambientes que retrata pode ser vista em Oremos...", tela em
que a lua preside uma imagem em que três personagens contemplam
os enigmas da natureza e a maravilha da existência. A desproporção
das pessoas em relação à imagem arquitetônica é notória e
caracteriza a tela como naïf.
No conjunto, as telas de Beatriz de
Sieff oferecem uma visão de mundo muito particular. As cores
pastel, as cenas equilibradas, a combinação harmoniosa de formas
e a busca constante de uma utopia emocional e existencial dão aos
seus quadros uma delicadeza e paz de espírito que toca a alma do
observador.
Cada obra de Beatriz é um mergulho
numa paisagem de San Martín de Los Andes, na Patagônia. Mesmo
que o local retratado seja outro, a tranqüilidade que a cidade
argentina transmite aos seus moradores e visitantes é o grande
motivo dos trabalhos da artista bonarense.
Seja num unicórnio, uma
paisagem com neve, num trabalhador do campo integrado ao meio
natural ou numa imagem de sonho andino, a artista estabelece suas
regras internas de criação, regidas pela extrema sensibilidade
de uma pintora em sintonia com as belezas e a fascinação da
grandiosidade da Patagônia.