por Oscar D'Ambrosio


 


Balázs János

Uma alma cigana

Os melhores artistas naïfs superam qualquer tipo de caracterização simplista. Esse é o caso de Balázs János (1905-1977). Além de ser um pintor de rara sensibilidade, voltado para captar cenas populares húngaras e composições de densa profundidade mitológica, destacou-se pelo amor à solidão, desejo em boa parte motivado pela forte ligação com os antepassados ciganos e por um amor à marginalidade.

Tudo isso aparece em seus quadros. Desde o momento que ganhou a notoriedade, passou cerca dez anos se auto-questionando sobre o valor da fama, fase em que produziu algumas de suas melhores obras pictóricas, além de começar a expressar essa angústia na forma de poemas.

Visões simbólicas da existência humana e representações grotescas do mundo são uma característica marcante de sua obra, que, no começo, chamava muito a atenção principalmente pelas cores. Posteriormente, no entanto, os simbolismos obscuros de suas telas é que ganharam a atenção dos amantes de arte e dos críticos.

Para compreender melhor a arte de Balázs János, é necessário mergulhar um pouco em sua trajetória e vivência pessoal. Ele nasceu em 27 de setembro de 1905, em Alsókubin, hoje Dolny Kubín, na Eslováquia e, ainda criança, após a morte do pai, foi levado pela mãe, junto com os três irmãos, para a cidade natal dela, Salgótarjan. "Eu era uma criança muito pequena e tímida, sempre pronta a fugir de qualquer demonstração típica infantil de coragem", escreveu em sua autobiografia, publicada em 1977.

János mal freqüentou a escola. Assistiu apenas a duas aulas da escola primária, pois, logo em seguida, foi impedido de continuar estudando com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Aprendeu então a ler e a escrever sozinho, com jornais e livros velhos. Uma de suas diversões, ainda criança, era o desenho, mas desistiu logo devido às reclamações da mãe, que julgava essa atividade inútil.

Adolescente, sempre mostrou o interesse de andar junto a pessoas mais velhas. Não tolerava imposições de qualquer ordem e atribuía isso ao desejo permanente por liberdade e autonomia herdado de seus ancestrais ciganos. Talvez por esse mesmo motivo nunca conseguiu ficar no mesmo emprego por muito tempo, vivendo de diversos trabalhos ocasionais, como diarista, colhendo cogumelos ou outros produtos agrícolas.

Dos 36 aos 39 anos, János serviu na Segunda Guerra, no front russo, e, durante três anos, foi prisioneiro de guerra em Saratow. Passado conflito, voltou a uma vida relativamente errante, sem profissão fixa ou ideais artísticos. Somente voltou a pintar e a desenhar no verão de 1968, como hobby, mas logo atraiu a atenção de jornalistas e críticos de arte.

A vida do ex-trabalhador agrícola se alterou muito a partir daí. Numerosos visitantes queriam conhecer a sua casa e um número cada vez maior de exposições foi programado. Desde que "descoberto" pela crítica, János se demonstrou incomodado com essa perda de privacidade e exposição na mídia. Receber pessoas e dar entrevistas não só lhe era exaustivo, física e psicologicamente, como também o impedia de trabalhar.

A decisão do artista foi radical. Parou de ir às próprias amostras, preferindo a solidão do bairro cigano de Pécskódomb, em Salgótarján. De fato, viveu em isolamento digno de um eremita nas últimas duas décadas de sua vida. Continuou, no entanto, a pintar até o fim da vida, em 1977, e, nos últimos anos, começou a escrever poemas, que publicou no livro Füstölgések (Smoke), cuja publicação não hesitou em financiar e onde se encontram versos como estes, do poema número 71: "Fumo meus pensamentos/ para torná-los duradouros/ E se for bem-aventurado/ Faço o estábulo/ da minha asa/ Portanto, nunca morei/ entre pessoas/ tenho medo delas/ confio mais nos animais/ como estou dizendo coisas terríveis/ os bobos também estão falando/ E os que são assombrados pela vida / e pela profunda maldição/ que vem da humanidade/ e para quem não há nenhum lar/ criado na terra/ e nenhum mundo é aceitável".

As primeiras pinturas de János mostravam ambientes rurais, como paisagens, casas ou cenas cotidianas, como jogadores de cartas, em que uma cor, geralmente a amarela, dominava as telas. Isso, porém, durou pouco. Com o crescimento de sua fama, cresceu nele a angústia de ser publicamente reconhecido.

Por isso, sua forma de encarar a realidade mudou rapidamente, adotando uma perspectiva menos realista e mais simbólica. No último período de sua produção, por exemplo, criou uma atmosfera de contos de fadas ciganos, com seres primitivos, figuras flutuantes, pessoas e animais em ambientes paradisíacos com cores intensificadas.

Essa nova forma de ver a realidade foi identificada por alguns críticos como um diálogo com a arte surrealista. Acima de tudo, János parece ambicionar, nesses trabalhos do final da vida, uma representação cósmica do mundo. Tudo embaixo do sol (1973) é um exemplo disso. Peixes, pássaros, plantas e seres humanos interagem de uma maneira poderosa e instigante.

Monstros curiosos e a mencionada visão surrealista dialogam em imagens que lembram Marc Chagall e surpreendem o espectador. Ciente de que sua arte poderia não agradar, János escreveu: "Dirão que não mostro imagens da vida real. É verdade, pinto uma distorção dela. Não me preocupam as absurdas representações dos meus quadros, porque seu princípio fundamental vem de nossa próprio mundo e vida".

Esse tipo de discurso, semelhante ao adotado pelos primeiros surrealistas é coerente, num pintor que também escreveu: "Viver significa/ carregar aqui e ali/ tudo/ que pode fenecer". De fato, a arte de Balázs János é uma alegoria da liberdade de expressão e de pensamento. Em sua alma cigana, a maior felicidade sempre foi pintar, não o lucro ou a fama que poderia obter com essa atividade.

Por isso, os quadros de János transpiram autenticidade. Seus camponeses mesclados com caveiras e figuras semelhantes a primatas, suas composições míticas e seus ciganos em ambientes paradisíacos são diversas facetas de um mesmo ideal: o de ser livre para criar, sem limites, as imagens amareladas de um mundo fantástico, regido apenas pela irrefreável capacidade de Balázs János de colocar, em obras pictóricas, seus pensamentos mais criativos e esteticamente ousados.

 


Oscar D'Ambrosio

O autor é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP, 1999).

 

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio